''A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.'' H.P. Lovecraft
Meu nome é Eduardo, mas isso já não importa mais. Passei os últimos trinta anos como zelador do Teatro Imperial, o mais antigo da cidade. Dizem que ele foi inaugurado em 1872, mas a verdade é que ele é mais velho do que isso. As fundações escondem segredos que ninguém quer lembrar, mas eu, por obrigação ou por castigo, fui obrigado a conhecê-los.
Trabalho sozinho. Sempre trabalhei. Outros vieram antes de mim, mas não duravam. Quando assumia o cargo, o antigo funcionário desaparecia. Como se o prédio exigisse exclusividade. Como se fosse um ciclo inevitável.
As noites eram longas dentro daquele casarão escuro, cheio de cortinas de veludo e poltronas cobertas por poeira. Durante os ensaios e apresentações, as luzes davam vida ao lugar, mascaravam o que se escondia sob as tábuas do palco. Mas depois que todos iam embora, só restava eu… e eles.
No começo, pensei ser minha imaginação. Sussurros nos camarins vazios, risos distantes vindo das coxias. Mas conforme os anos passavam, os ruídos ficavam mais nítidos. Chamavam por mim. Meu nome, dito por vozes diferentes. Uma mulher chorando em um dos camarins. Um homem ensaiando falas de uma peça que nunca existiu.
Uma vez, deixei a vassoura cair e, ao me abaixar para pegá-la, vi pés descalços atrás da cortina do palco. Não me atrevi a levantar a cabeça. Somente segui limpando, fingindo que não havia nada ali. Esse era meu método. Fingir. Mas isso nunca os impediu.
A situação piorou na última semana. O teatro estava fechado para reformas, então fiquei sozinho de verdade. O silêncio deveria ser um alívio, mas era opressor. Comecei a ouvir passos no andar superior. Portas batendo sem motivo. No terceiro dia, encontrei pegadas úmidas levando até o palco. Pensei em ir embora, mas já não adiantava. O Imperial não deixava seus zeladores partirem.
Na noite passada, decidi encarar aquilo. Peguei a lanterna e subi até o camarote principal, onde os barulhos pareciam mais intensos. A porta rangeu ao abrir, revelando um assento único, empoeirado, virado para o palco. Havia algo ali, um vulto que parecia feito de névoa. Não tinha rosto, mas eu sabia que me observava.
— Está pronto para o último ato? — perguntou, e a voz era um coro de todas as que já escutei ali. Meu corpo paralisou. Uma onda de memórias me atingiu imagens de outros zeladores, apagados do tempo, absorvidos pelo teatro. Nunca saíram. Nunca foram encontrados.
Hoje, varro o palco e percebo que minha sombra está errada. Ela não me imita. Move-se antes de mim. Estou cada vez mais pálido, como se a cor estivesse sendo drenada do meu corpo. Como se eu estivesse me tornando parte disso. A peça precisa de seu elenco. O teatro precisa de sua audiência. E eu? Não sou mais o zelador. Sou apenas mais um espectador do espetáculo eterno.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Eduardo, o zelador do Teatro Imperial, dedicou décadas à limpeza do lugar, ignorando os sussurros e sombras que o espreitavam. Quando o teatro fecha para reformas, ele se vê sozinho—ou assim pensa. À medida que estranhas presenças se tornam mais ousadas, ele percebe tarde demais que nunca esteve apenas cuidando do teatro… mas sim sendo preparado para seu último ato. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. Espelhos do Medo é um filme de terror psicológico dirigido por Alexandre Aja. A história acompanha um ex-policial que começa a trabalhar como segurança noturno em um shopping abandonado, onde descobre espelhos com forças sobrenaturais. Conforme investiga estranhos reflexos e eventos macabros, ele percebe que algo maligno está preso ali dentro.
Espelhos do Medo Trailer
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Adorei a sensação de que algo me espreita enquanto leio 🤣
ResponderExcluir