‘’A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.’’ Roger Bussy-Rabutin
O céu de Resty trocava de cor a cada mudança temporal, oscilando entre tons de azul profundo e dourado espectral. A cada hora, a realidade era rasgada e refeita, apagando registros, transformando ruas conhecidas em becos e virando aliados em estranhos. No laboratório flutuante, Gabriel percorria freneticamente linhas de código holográficas, seus olhos correndo pelas sequências em busca da brecha que os levaria ao núcleo da ameaça. Com sua destreza como hacker do espaço e sua habilidade em decifrar linguagens nativas, ele era a última linha de defesa contra o colapso total.
Samara, morena de cabelos volumosos e cacheados, mantinha os olhos fixos nos cálculos gravitacionais projetados à sua frente. Seu dom surpreendente para números matemáticos e seu conhecimento avançado no tratamento de doenças planetárias nível 10 faziam dela uma especialista inigualável. Sua mente trabalhava como uma máquina precisa, cruzando equações complexas que definiam a distorção do espaço-tempo causada pela bomba temporal. Cada número, cada fração, era um enigma a ser resolvido antes da próxima virada horária.
— Temos menos de cinquenta minutos — murmurou a cientista, deslizando os dedos pelos dados em suspensão, tentando prever qual seria a próxima configuração do planeta. — Se errarmos a coordenada de estabilização, tudo se tornará pó.
O especialista em tecnologia soltou um suspiro pesado, seus dedos ágeis ativando comandos que procuravam um padrão entre os ciclos temporais. Ele era mestre em encontrar ordem no caos, mas Resty era um desafio além do comum. Seus sistemas mudavam com a mesma frequência que sua história, impossibilitando rastrear informações linearmente.
— Consegui algo — sua voz era urgente, mas controlada. — A bomba tem um núcleo de singularidade oscilante. Se conseguirmos estabilizar um ciclo, ao menos por alguns segundos, posso desarmá-la.
A matemática ergueu os olhos, processando a ideia. Estabilidade era uma ilusão naquele mundo fragmentado, mas a lógica lhe dizia ser possível forçá-la a existir por um breve instante. O suficiente para que seu parceiro de missão fizesse sua mágica.
A próxima transição temporal se anunciava com um clarão escarlate no céu. O ar vibrou, o chão pareceu se dissolver sob os pés dos dois. Eles se olharam, sem precisar de palavras. Em meio ao colapso da realidade, era somente reciprocamente que reconheciam. Sabiam o que estava em jogo.
— Você confia em mim? — perguntou o programador espacial, sua voz carregando mais do que um simples pedido de permissão.
A especialista em equações assentiu, seus olhos brilhando com a mesma intensidade do firmamento instável. Não havia tempo para hesitação.
O plano se desenrolou com a precisão de um relógio. A cientista utilizou sua genialidade para criar uma anomalia matemática, um ponto fixo em meio ao turbilhão de paradoxos. O decifrador de códigos atravessou camadas e camadas de segurança com a destreza de quem conhecia os segredos das máquinas como a palma da mão.
Os segundos finais chegaram como um sopro de eternidade. O campo estabilizador segurava a singularidade da bomba em um instante congelado. Suor escorria pelo rosto do técnico enquanto sua mão inseria finalmente o comando de desativação.
O mundo piscou. O céu recuperou sua cor original. Resty se tornou inteiro novamente. Eles caíram de joelhos, exaustos, o coração ainda martelando contra as costelas. O silêncio do planeta os envolveu, uma melodia calma depois da cacofonia temporal.
O tempo estava salvo. E, com ele, o que tinham um pelo outro também. Sem precisar de palavras, sabiam que, mesmo que tudo tivesse desmoronado, ainda teriam encontrado um jeito de se reconhecer. Porque, em qualquer linha do tempo, em qualquer versão do espaço, seriam sempre eles contra o caos.
INSPIRAÇÃO

Sempre um belo texto recheado de palavras que remontam nosso amor e afeto. Obrigada, amor. Amo você.
ResponderExcluirQue lindo !
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