''Excesso de expectativa é o caminho mais curto para a frustração.''
A sala era sempre a mesma. As carteiras desalinhadas, os rabiscos nas mesas, os olhares vazios. Décadas haviam passado, mas a indiferença dos alunos era a única coisa que nunca mudava.
Naquela manhã, atravessou o corredor sentindo o peso invisível das palavras que nunca dissera. A última aula. O fim de uma trajetória que, por muito tempo, acreditou ser um chamado, mas que agora parecia somente uma obrigação.
Quando entrou, os estudantes mal notaram. Alguns mexiam no celular, outros rabiscavam cadernos sem propósito.
Ele apagou o quadro, pousou o giz, cruzou os braços e respirou fundo.
— Hoje, não vou pedir que copiem nada.
Duas cabeças se ergueram. Alguém no fundo riu.
— Também não tem prova.
Mais alguns levantaram os olhos.
— Na verdade, não tem aula.
O silêncio veio como um ruído estranho. Finalmente, prestavam atenção.
— Machado de Assis disse que a vida é uma ópera. Mas, ao contrário do que se imagina, somos sempre o público, nunca os protagonistas. Eu passei anos aqui, tentando mostrar que a literatura é um espelho. Que, ao ler, vocês podem encontrar algo de si nas palavras de um autor morto há séculos. Mas ninguém nunca quis olhar.
Ele andou pela sala, parando diante de uma aluna que estava sempre no celular.
— Você. Quantos livros leu este ano?
Ela hesitou, depois sorriu, sem culpa.
— Nenhum.
— Mas você escreve. Eu já vi. Poemas no fundo do caderno.
Os colegas viraram-se para encará-la.
— Por que não mostra?
— Porque ninguém se importa.
Ele assentiu.
— Rilke disse: ‘se sua vida não faz sentido sem escrever, então você é escritor’. Não espere permissão para existir.
Continuou andando, agora até um aluno que sempre dormia na última fileira.
— E você? O que quer ser?
O garoto coçou a cabeça.
— Sei lá. Meu pai quer que eu faça Direito.
— E o que você quer?
O silêncio dele foi resposta suficiente.
O professor riu, mas sem alegria.
— Kafka trabalhava como funcionário público. Passava o dia assinando documentos, voltava para casa e escrevia. Ninguém o conhecia. Quando morreu, pediu que queimassem tudo. Um amigo desobedeceu, e agora lemos suas palavras. Às vezes, a vida nos empurra para longe do que queremos, mas sempre há um jeito de encontrar o caminho de volta.
O relógio marcava os últimos minutos. Olhou ao redor e percebeu algo que não via há anos: olhos atentos. Nenhum celular à vista.
Pela primeira vez, sentiu estarem ali.
— Borges disse que a literatura é a única chance que temos de viver outras vidas. Quando lemos, saímos de nós mesmos. O mundo se torna maior.
Guardou os livros na mochila.
— Essa foi minha última aula. E, ironicamente, a única que realmente valeu a pena.
Virou-se para ir embora.
— Professor!
Parou.
— O senhor pode indicar um livro para começar?
O coração deu um salto.
Sorriu.
— Pode começar com "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
E saiu, sem olhar para trás. Mas, desta vez, sabia que as palavras ficariam.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um professor de literatura, à beira da aposentadoria, decide transformar sua última aula em um desabafo sincero sobre a educação, a literatura e a vida. Diante de alunos aparentemente indiferentes, ele abandona o roteiro tradicional e compartilha verdades que guardou por anos. O que começa como um adeus se torna algo inesperado, desafiando sua própria visão sobre o impacto de suas palavras. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. Machado de Assis (1839-1908) – Escritor realista brasileiro, abordava temas como a hipocrisia social, a vaidade humana e a ironia do destino. Sua principal obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas, inovou ao trazer um narrador-defunto cínico e reflexivo. É considerado o maior nome da literatura brasileira.
2. Franz Kafka (1883-1924) – Autor tcheco de língua alemã, escreveu sobre angústia existencial, burocracia opressiva e o absurdo da vida. Seu livro A Metamorfose simboliza a alienação e o desamparo humano. Seu legado inclui o termo “kafkiano”, usado para descrever situações absurdas e opressivas.
3. Jorge Luis Borges (1899-1986) – Escritor argentino ligado ao realismo mágico e à literatura fantástica, explorava temas como labirintos, tempo e identidade. Sua obra Ficciones reúne contos que desafiam a lógica tradicional. É um dos autores mais influentes do século XX.
4. Rainer Maria Rilke (1875-1926) – Poeta alemão de estilo lírico e introspectivo, refletia sobre a existência, a solidão e a arte. Cartas a um Jovem Poeta inspirou gerações com conselhos sobre criatividade e autenticidade. Sua poesia influenciou escritores e artistas ao redor do mundo.

Parabéns pelo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirInspirador, refletir sobre o que posso deixar de legado, como posso inspirar pessoas
ResponderExcluirA vida é passagueira, mas o que podemos deixar para outras gerações? Como podemos inspirá-los a crescer? Excelente reflexão, Gabriel!!!
ResponderExcluirLinda reflexão ❤️
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