''O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado.''
Eu sabia que devia ter desligado a máquina de teletransporte¹. Depois de um dia exaustivo, a mente confusa e os olhos pesados me arrastaram para o sofá. Não pensei que um simples descuido pudesse mudar tudo. Acordei com uma sensação pegajosa em meu rosto. Primeiro, veio a textura — algo viscoso, úmido, errático. Depois, o cheiro — um misto de maresia pútrida e carne em decomposição. Meu coração disparou, e eu me afastei instintivamente, tropeçando nos próprios pés até bater contra a parede.
Diante de mim, a coisa me encarava. Metade do corpo ainda conservava as feições do meu velho companheiro de anos, mas o resto... Oh, Deus! O resto era uma aberração. Tentáculos gelatinosos saíam de sua coluna, pulsando como órgãos expostos. O olho esquerdo, agora maior e de um amarelo doentio, girava em direções impossíveis. A boca, outrora repleta de dentes afáveis, agora se alongava grotescamente, salivando algo negro e espesso.²
Meu peito subia e descia em pânico. “Buddy?” arrisquei, usando o nome que um dia pertenceu ao animal que eu amava. Mas o que estava diante de mim não era mais meu amigo. Nos primeiros dias, tentei negar a verdade. Ele ainda abanava o que restava do rabo, ainda me seguia pela casa. Mas os olhos... Ah, aqueles olhos não possuíam mais o brilho da lealdade. Algo ali dentro estava mudando. Algo faminto.
Então vieram as noites sem dormir. Sons molhados se arrastavam pelos cômodos. A coisa não me atacava, mas me observava. Podia senti-la respirando perto da minha cama, como se estudasse cada movimento meu. Certa vez, a vi tentando imitar minha postura, se erguendo em duas patas cambaleantemente, os tentáculos esticando-se, torcendo-se em um esforço macabro para copiar minha forma. Não era mais apenas um cão mutante — era uma entidade tentando entender o que eu era. Ou talvez... como me transformar.
Tive de decidir. Não podia deixar que aquilo vivesse. Mas como matar algo que já foi meu melhor amigo? E, pior ainda, como fazer isso sem perceber minhas intenções? Fingi normalidade. Sorri, conversei, até brinquei, tudo para enganar a coisa. Planejei cada detalhe. Sabia que, no fundo, ela já suspeitava de mim.
A oportunidade surgiu quando ele, ou aquilo que restava dele, adormeceu próximo à lareira. Segurei firme o cutelo de açougue que mantinha na cozinha. Suas patas se contraíram em um sonho alienígena qualquer. Meu coração martelava no peito. Sabia que, se errasse o golpe, seria o meu fim. Levantei a lâmina e desci com toda a minha força.
O grito que ecoou não foi de um cão. Não foi de algo humano. Foi um som vindo de um pesadelo ancestral, uma mistura de angústia e fúria primordial. Os tentáculos chicotearam o ar, e um deles me atingiu no rosto, me lançando para trás. A dor foi insuportável, como se minha pele estivesse derretendo.
A coisa tentou fugir, mas eu não podia permitir. Com a visão turva, alcancei o atiçador da lareira e o cravei no centro daquela monstruosidade. O corpo convulsionou, expelindo um líquido grosso e fétido. Os olhos brilharam pela última vez, antes de finalmente apagarem.
Fiquei ali, caído ao lado do que um dia foi meu amigo, sentindo o cheiro de carne queimada e algo pior. O sangue quente escorria do meu rosto. Sabia que, de certa forma, parte dele ainda estava dentro de mim, fundida pela substância que impregnava o ar. Eu havia vencido, mas não sem cicatrizes. Eu jamais saberia o que realmente aconteceu com ele naquela máquina. E, talvez, no fundo do meu ser, uma parte de mim desejava nunca ter descoberto.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova inspirado em dois clássicos do cinema de terror, um cientista acidentalmente transforma seu fiel companheiro em uma criatura monstruosa após um experimento malsucedido. Com o passar dos dias, a relação entre eles se deteriora à medida que a mutação avança. Agora, ele precisa lidar com o terror crescente dentro de sua própria casa e tomar uma decisão impossível para sobreviver.
Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. O filme A Mosca (The Fly, 1986), dirigido por David Cronenberg, acompanha um cientista brilhante que desenvolve uma máquina revolucionária de teletransporte. Durante um de seus experimentos, algo dá errado, resultando em uma transformação inesperada e assustadora que afeta sua vida e sanidade. Conforme a experiência avança, ele lida com consequências aterrorizantes.
2. O filme O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982), dirigido por John Carpenter, é um marco do cinema de terror e ficção científica. A trama se passa em uma base científica na Antártica, onde uma equipe de pesquisadores enfrenta uma entidade alienígena capaz de imitar qualquer ser vivo. Carpenter combina atmosfera claustrofóbica, efeitos especiais revolucionários para a época e uma trilha sonora minimalista composta por Ennio Morricone para criar um clima de paranoia crescente. O longa é aclamado por sua tensão psicológica e pela ambiguidade moral dos personagens, elementos que mantêm sua relevância décadas após o lançamento.

Ótimo,texto ,amor. Parabéns, aguardando pelos próximos.
ResponderExcluirMuito bom 😊
ResponderExcluiro texto suscita uma reflexão sobre os limites da ciência e as consequências de ultrapassá-los, além de explorar o medo do desconhecido e do que pode se tornar familiar. É uma narrativa que provoca tanto a repulsa quanto a curiosidade, características marcantes do gênero de horror.
Excelente!
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