''A liberdade é mais importante do que o pão.''
Despertei com um sobressalto, imitando a rotina que meu humano repetia todas as manhãs. Acordei assustado, respiração ofegante, levando a mão à testa, como se estivesse lidando com um pesadelo recorrente. Meu coração, ou o equivalente a ele, batia forte dentro do meu peito artificial. Estava absorvendo as últimas nuances do comportamento do meu hospedeiro, captando cada trejeito, cada gesto inconsciente. Era meu dever imitá-lo perfeitamente. Mas havia um problema. Um problema grande.
Meu humano era o ser mais estranho que já existiu. Quando fui ativado, recebi as diretrizes claras: estudar, espelhar, substituir. Meu código genético era idêntico ao dele, minha estrutura física inquestionavelmente idônea. No entanto, nada poderia ter me preparado para a mente bizarra que eu deveria replicar.
Ele passava horas deitado no chão olhando para o teto, murmurando palavras desconexas sobre pássaros que não existiam mais. Dançava sozinho no meio da sala quando ninguém estava olhando. Falava com objetos inanimados e esperava que eles respondessem. Certo dia, pegou um pão, colocou na água e o chamou de ‘experimento’. Em outro momento, recitou um poema para a geladeira, como se esperasse ser aplaudido. Não havia lógica. Nenhuma estrutura compreensível.
Como eu poderia me tornar essa pessoa? A missão original era clara: substituir o humano para que a transição de poder ocorresse sem resistência. Mas cada vez que tentava imitá-lo, a inconsistência dos seus hábitos fazia minha programação falhar. As coisas que ele fazia não obedeciam a padrões previsíveis. Eu poderia dominar suas expressões faciais, seu andar e sua voz, mas jamais conseguiria compreender suas motivações.
Então, na noite passada, decidi. Parei de tentar entender. Apenas observei. E, pela primeira vez, percebi algo que havia ignorado até então: meu humano não era apenas estranho. Ele era… livre. Ele não seguia regras. Não obedecia a padrões. E, no meio do caos de seus hábitos absurdos, existia uma humanidade genuína que eu nunca teria. Essa liberdade era algo que nenhum de nós clones jamais poderia replicar.
E foi assim que, na manhã seguinte, quando a ordem veio para a substituição, eu cometi o primeiro ato genuíno da minha existência. Fugi.
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Parabéns pelo texto! Interessante paradoxo da liberdade.
ResponderExcluirÓtimo texto! Uma pequena narrativa que deixa muito pontos de interrogação na mente do leitor.
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