''Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto.''
Acordei antes do sol, com o som do mar estalando lá fora, como uma respiração lenta e regular, mas que não parecia minha. O ar estava pesado, impregnado de sal e umidade, e a casa de praia, com suas paredes desbotadas e móveis antigos, parecia suspensa entre o mundo e o nada. Era a minha primeira vez sozinho, sem a rede de vozes familiares, sem o eco de risos compartilhados. Sozinho. Uma palavra que parecia mais cheia do que vazia.
Caminhei até a janela, puxando a cortina que rangia como um velho confessando segredos. A paisagem era uma aquarela desbotada: céu cinzento, areia fria, ondas quebrando como se fossem carregadas de algo que não conseguiam segurar. Respirei fundo, mas o ar parecia entrar irregularmente, como se minha própria respiração discordasse de mim.
Trouxe o café à boca e o líquido amargo me prendeu em um pensamento desconfortável. Algo parecia deslocado. Como se o simples ato de estar ali, naquele momento, fosse um erro. Não era o tipo de erro óbvio, daqueles que podem ser corrigidos; era um erro profundo, de raiz. Algo que eu carregava comigo e que, por mais que tentasse ignorar, pulsava, sussurrava.
Deixei a xícara sobre a mesa e fui até a praia. A areia estava fria sob meus pés descalços, e eu senti um calafrio que parecia não vir do vento. Havia algo em caminhar sozinho ali, sem testemunhas, sem destino, que me fazia sentir exposto. Mas não havia ninguém. Ninguém além de mim e do som do mar.
Meu olhar encontrou algo meio enterrado na areia. Um pedaço de madeira, talvez parte de um barco antigo ou de algum quebra-mar esquecido. Agachei-me para desenterrá-lo, e a textura áspera contra meus dedos trouxe uma lembrança vaga. Não era sobre o objeto; era sobre o ato. Remexer, trazer algo à tona. Meu estômago se revirou, mas não era o frio. Não era a fome.
Continuei andando, e cada passo parecia ecoar dentro de mim como uma batida de tambor abafada. Havia perguntas que eu evitava formular, mas que vinham até mim como ondas insistentes. Por que eu escolhera aquele lugar? Por que sozinho? Por que agora?
Os dias se misturaram. À noite, os sonhos eram turvos, quase pesadelos, mas escapavam de mim como fumaça ao acordar. Acordava suado, o coração acelerado, mas sem lembrar o motivo. E ainda assim, sabia que havia um motivo.
Em um dos dias, sentei-me à beira-mar, as mãos enterradas na areia molhada. O horizonte parecia infinito, mas vazio. Um espaço que implorava por algo que eu não conseguia preencher. E então, quase como um reflexo, comecei a cavar. Cavava como se precisasse encontrar algo que estivesse perdido ali, algo que talvez eu mesmo tivesse enterrado.
Minhas mãos ficaram sujas, os dedos cortados pelas conchas escondidas, mas eu continuei. Cavava até que a maré subiu e apagou tudo, como se dissesse que aquele esforço era inútil. Sentei-me ali, deixando a água gelada alcançar minhas pernas, e pela primeira vez senti algo próximo à clareza.
Eu sabia o que estava procurando, mesmo sem admitir. Sabia o que estava evitando enfrentar. Mas não podia, não ainda. A verdade, seja lá qual fosse, continuaria escondida, como um segredo que a areia não queria revelar.
Quando a noite caiu, voltei para a casa. A mesma respiração do mar me seguiu, mas agora parecia mais próxima, quase íntima. O que quer que fosse, estaria comigo, sempre. Algo não dito, não resolvido, mas que me definia tanto quanto a sombra define a luz.
O silêncio, agora, parecia ecoar dentro de mim.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em uma casa de praia isolada, um homem se vê sozinho pela primeira vez, cercado pelo som constante do mar e por um sentimento inquietante de deslocamento. Conforme os dias passam, pequenas ações, observar as ondas, caminhar pela areia, cavar na praia – despertam nele perguntas que sempre evitou. Algo parece escondido, não apenas na paisagem ao redor, mas dentro de si. E à medida que o silêncio se torna mais pesado, ele percebe que talvez a verdade sempre tenha estado ali, esperando para ser encontrada. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto,amor. Parabéns! Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirÓtimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirÓtima reflexão sobre o estar só .
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