Pular para o conteúdo principal

ECO DO SILÊNCIO

 ''Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto.'' Francis Bacon


    Acordei antes do sol, com o som do mar estalando lá fora, como uma respiração lenta e regular, mas que não parecia minha. O ar estava pesado, impregnado de sal e umidade, e a casa de praia, com suas paredes desbotadas e móveis antigos, parecia suspensa entre o mundo e o nada. Era a minha primeira vez     sozinho, sem a rede de vozes familiares, sem o eco de risos compartilhados. Sozinho. Uma palavra que parecia mais cheia do que vazia.

    Caminhei até a janela, puxando a cortina que rangia como um velho confessando segredos. A paisagem era uma aquarela desbotada: céu cinzento, areia fria, ondas quebrando como se fossem carregadas de algo que não conseguiam segurar. Respirei fundo, mas o ar parecia entrar irregularmente, como se minha própria respiração discordasse de mim.

    Trouxe o café à boca e o líquido amargo me prendeu em um pensamento desconfortável. Algo parecia deslocado. Como se o simples ato de estar ali, naquele momento, fosse um erro. Não era o tipo de erro óbvio, daqueles que podem ser corrigidos; era um erro profundo, de raiz. Algo que eu carregava comigo e que, por mais que tentasse ignorar, pulsava, sussurrava.

    Deixei a xícara sobre a mesa e fui até a praia. A areia estava fria sob meus pés descalços, e eu senti um calafrio que parecia não vir do vento. Havia algo em caminhar sozinho ali, sem testemunhas, sem destino, que me fazia sentir exposto. Mas não havia ninguém. Ninguém além de mim e do som do mar.

    Meu olhar encontrou algo meio enterrado na areia. Um pedaço de madeira, talvez parte de um barco antigo ou de algum quebra-mar esquecido. Agachei-me para desenterrá-lo, e a textura áspera contra meus dedos trouxe uma lembrança vaga. Não era sobre o objeto; era sobre o ato. Remexer, trazer algo à tona. Meu estômago se revirou, mas não era o frio. Não era a fome.

    Continuei andando, e cada passo parecia ecoar dentro de mim como uma batida de tambor abafada. Havia perguntas que eu evitava formular, mas que vinham até mim como ondas insistentes. Por que eu escolhera aquele lugar? Por que sozinho? Por que agora?

    Os dias se misturaram. À noite, os sonhos eram turvos, quase pesadelos, mas escapavam de mim como fumaça ao acordar. Acordava suado, o coração acelerado, mas sem lembrar o motivo. E ainda assim, sabia que havia um motivo.

    Em um dos dias, sentei-me à beira-mar, as mãos enterradas na areia molhada. O horizonte parecia infinito, mas vazio. Um espaço que implorava por algo que eu não conseguia preencher. E então, quase como um reflexo, comecei a cavar. Cavava como se precisasse encontrar algo que estivesse perdido ali, algo que talvez eu mesmo tivesse enterrado.

    Minhas mãos ficaram sujas, os dedos cortados pelas conchas escondidas, mas eu continuei. Cavava até que a maré subiu e apagou tudo, como se dissesse que aquele esforço era inútil. Sentei-me ali, deixando a água gelada alcançar minhas pernas, e pela primeira vez senti algo próximo à clareza.

    Eu sabia o que estava procurando, mesmo sem admitir. Sabia o que estava evitando enfrentar. Mas não podia, não ainda. A verdade, seja lá qual fosse, continuaria escondida, como um segredo que a areia não queria revelar.

    Quando a noite caiu, voltei para a casa. A mesma respiração do mar me seguiu, mas agora parecia mais próxima, quase íntima. O que quer que fosse, estaria comigo, sempre. Algo não dito, não resolvido, mas que me definia tanto quanto a sombra define a luz.

    O silêncio, agora, parecia ecoar dentro de mim.

 

 


 

INSPIRAÇÃO

 

  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em uma casa de praia isolada, um homem se vê sozinho pela primeira vez, cercado pelo som constante do mar e por um sentimento inquietante de deslocamento. Conforme os dias passam, pequenas ações,  observar as ondas, caminhar pela areia, cavar na praia – despertam nele perguntas que sempre evitou. Algo parece escondido, não apenas na paisagem ao redor, mas dentro de si. E à medida que o silêncio se torna mais pesado, ele percebe que talvez a verdade sempre tenha estado ali, esperando para ser encontrada. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei "A lone figure sitting on the shore at night, staring at the vast ocean under the moonlight. The waves glisten with a silvery glow, and the sky is deep and starless. The figure appears contemplative, lost in thought, with a melancholic and mysterious atmosphere surrounding them. The ocean feels endless, and the scene conveys solitude and introspection. " e obtive esse resultado.

Comentários

  1. Samara Fernandes Leite24 de fevereiro de 2025 às 03:00

    Ótimo texto,amor. Parabéns! Ansiosa pelos próximos.

    ResponderExcluir
  2. Samara Fernandes Leite24 de fevereiro de 2025 às 03:06

    Ótimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...