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A NOITE DO ARRANHAR

 ''A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.'' H.P. Lovecraft

    Era uma noite sem lua, e o vento gemia entre as frestas da velha casa de madeira, trazendo consigo uma promessa de algo incômodo e estranho. Clara e Mateus estavam na sala, ela lendo um livro surrado enquanto ele mexia distraidamente no celular. O calor do pequeno aquecedor os envolvia, mas não era suficiente para afastar a sensação de que algo vigiava do lado de fora.

    O primeiro som foi um arranhado na porta dos fundos, leve como um suspiro, mas inegavelmente lá. A mulher ergueu o olhar, franzindo a testa.
— Você ouviu isso? — perguntou, colocando o livro de lado.

    O companheiro apenas murmurou, até que o som veio novamente, mais insistente, seguido de um ganido curto e rouco.
— Parece um cachorro — disse ela, levantando-se. Ele finalmente olhou para cima, intrigado.

    Eles abriram a porta com cautela, e um cachorro magro e sujo estava ali, seus olhos brilhosos refletindo a luz fraca do corredor. Ele parecia exausto, tremendo ligeiramente, mas algo em sua postura fez o rapaz hesitar. A leitora, no entanto, não conseguiu resistir.
— Pobrezinho — murmurou, abaixando-se para acariciá-lo.
— Espere — advertiu ele, mas era tarde demais. O animal entrou, tropeçando em patas fracas, mas com uma calma quase teatral.

    Dentro da casa, a criatura olhou ao redor, parecendo estudar cada canto. Quando ela trouxe uma tigela de água, ele a ignorou. Seus olhos fixaram-se nela, frios, avaliadores.

    Mais tarde, quando a noite se aprofundava, ela percebeu algo estranho. O cão não emitia som algum, nem um latido ou suspiro. Apenas permanecia sentado, observando-os com uma intensidade desconcertante. O parceiro sugeriu que o deixassem do lado de fora, mas, ao tentarem, ele rosnou — um som profundo e gutural que não parecia caber em seu pequeno corpo.

    Na madrugada, ele acordou com o som de um estalo — como madeira quebrando. Ao descer as escadas, encontrou o animal parado no meio da sala, mas ele não estava mais sozinho. Havia algo nele que parecia maior, as articulações todas erradas, a pele franzida como se fosse um invólucro frouxo. Ele virava a cabeça lentamente, quase como uma página sendo folheada. O homem recuou instintivamente.
— Venha aqui! — ele gritou, a voz quebrada pelo pânico.

    Quando ela desceu correndo, a criatura se transformou diante deles. A pele do cão parecia explodir para revelar apêndices grotescos, uma massa pulsante de carne que se expandia e contraía como um coração gigante. Dentes e olhos surgiam em lugares impossíveis, reorganizando-se como se a própria natureza tivesse sido violada.

    Ela gritou, e ele puxou-a para trás. A criatura avançou, mas eles conseguiram se trancar no quarto. De dentro, ouviram algo arranhando a porta, o ranger de madeira sendo mordida e o gemido perturbador que parecia misturar vozes humanas e animais.

    De manhã, o barulho cessou. Quando abriram a porta, a sala estava vazia, mas havia manchas negras no chão e um cheiro de metal queimado. Antes que pudessem planejar o que fazer, um carro de patrulha estacionou em frente à casa. O policial que desceu, um homem corpulento e confiante, foi recebido pelos dois, ambos falando ao mesmo tempo, tentando explicar o inexplicável.
— Um cachorro virou... alguma coisa. Ele continua aqui! — apontaram para dentro.

    O oficial ergueu a sobrancelha, descrente, mas entrou com a mão na arma. O silêncio na casa era opressivo. Enquanto ele inspecionava, o animal apareceu novamente, menor agora, mas os olhos... os olhos continuavam errados.

    Antes que o policial pudesse reagir, a criatura se revelou novamente, lançando-se sobre ele com uma velocidade insana. Gritos e ruídos de ossos quebrando preencheram o ar. O casal correu para fora, mas não sem antes ver a criatura assumir uma nova forma, grotesca, combinando elementos humanos e bestiais, como uma paródia macabra do policial.

    Eles sabiam que não podiam fugir para sempre. Encontraram ferramentas na garagem: um maçarico velho e um galão de gasolina. Com esses itens, voltaram para a casa, tremendo, mas decididos.

    A criatura esperava por eles, agora ocupando quase toda a sala. Tentáculos e olhos brotavam de seu corpo amorfo. Quando ela avançou, ele acendeu o maçarico, e ela jogou a gasolina. O fogo tomou conta, e a criatura soltou um grito que parecia ecoar em dimensões desconhecidas, uma nota de desespero alienígena que fez o ar vibrar.

    Quando tudo terminou, apenas cinzas permaneciam. Eles se abraçaram, exaustos, sentindo o peso do silêncio que finalmente parecia seguro. Mas nos cantos escuros da casa, um leve arranhar sugeria que talvez a história ainda não tivesse terminado.

 


 

INSPIRAÇÃO

 

  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova inspirada no sonho vivenciado pelo autor, em uma noite sem lua, um casal encontra um cachorro aparentemente indefeso à porta de sua casa. O que parecia um ato de compaixão logo se transforma em uma luta aterrorizante contra algo que desafia a lógica e as leis da natureza. A tranquilidade do lar dá lugar ao inexplicável, enquanto a dupla precisa enfrentar seus piores medos para sobreviver. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei "Uma cena realista de terror ambientada em uma sala de estar antiga, com paredes de madeira escura e uma iluminação fraca vinda de um pequeno aquecedor. Um cachorro magro e sujo está parado no meio da sala, olhando fixamente para um casal. O cachorro tem uma postura estranha, com olhos brilhantes e inquietantes, como se algo de outro mundo estivesse escondido em sua forma. O ambiente é tenso, com detalhes que sugerem uma atmosfera perturbadora, como sombras alongadas e móveis envelhecidos. " e obtive esse resultado. 
 

 

REFERÊNCIAS 


1. O filme O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982), dirigido por John Carpenter, é um marco do cinema de terror e ficção científica. A trama se passa em uma base científica na Antártica, onde uma equipe de pesquisadores enfrenta uma entidade alienígena capaz de imitar qualquer ser vivo. Carpenter combina atmosfera claustrofóbica, efeitos especiais revolucionários para a época e uma trilha sonora minimalista composta por Ennio Morricone para criar um clima de paranoia crescente. O longa é aclamado por sua tensão psicológica e pela ambiguidade moral dos personagens, elementos que mantêm sua relevância décadas após o lançamento.

2. Lovecraft é amplamente reconhecido como um dos autores mais influentes do gênero de horror. Seu legado vai além das criaturas icônicas, como Cthulhu, contribuindo para o desenvolvimento de um estilo de narrativa que mistura terror psicológico, ficção científica e mitologia original. Ele inspirou gerações de autores e cineastas ao introduzir conceitos como o medo do desconhecido e o horror existencial, redefinindo o terror para além do sobrenatural clássico, estabelecendo-o como uma exploração da insignificância humana em um cosmos inóspito.

Comentários

  1. Samara Fernandes Leite23 de janeiro de 2025 às 08:55

    Ótimo texto de terror. Parabéns,amor. Ansiosa pelos próximos.

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  2. Excelente, deixa aquela sensação de sufoco no leitor 👏

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