''A fingida caridade do rico não passa, da sua parte, de mais um luxo; ele alimenta os pobres como cães e cavalos.''
No palco, as luzes eram fortes, quase cegantes. Fechei os olhos, tentando não tremer, mas sentia a mão suada agarrando o microfone como se fosse minha última âncora. Era impossível não ouvir os murmúrios da plateia – um misto de curiosidade e pena. Para eles, eu era um rosto pronto para o drama, um enredo perfeito para uma noite qualquer. Uma menina do abrigo, sonhando em cantar, com o passado gravado em cicatrizes invisíveis.
“Ela é corajosa, né?”, ouvi de um canto. Respirei fundo, tentando lembrar da letra. Não era coragem. Era necessidade. Desde o viaduto, quando as buzinas eram o som de fundo para meu sono raso, até os dias de pão velho dividido entre risadas forçadas, cantar era tudo o que me restava. Não porque o mundo quisesse ouvir, mas porque eu precisava me ouvir.
As notas saíram trêmulas, como um segredo sussurrado no escuro. Minhas palavras se enrolavam no ar, pesadas com tudo o que nunca pude dizer. O som reverberava pela sala, mas, lá, no fundo, algo parecia errado. Eu abri os olhos e os vi – os jurados, imóveis, com olhares calculados. Um deles tinha um sorriso frio, do tipo que você aprende a temer.
Depois, o produtor veio falar comigo. Ele parecia satisfeito demais, como se já soubesse o que fazer com a minha história. “Você é especial, sabe disso? Precisamos destacar sua jornada. O abrigo, a luta... o público ama isso.” Concordei com um aceno quase automático, mas meu peito parecia cheio de pedras. Não era a voz que eles queriam. Era a dor. E eu me perguntava se, no fim, isso também não era um tipo de venda.
No abrigo, as meninas estavam eufóricas quando voltei. Uma delas me abraçou forte e disse que eu era a esperança de todo mundo ali. Outra comentou que queria me ver na TV, como se isso fosse um milagre. Fingi um sorriso, mas meus olhos foram até a janela. Do lado de fora, as ruas pareciam mais reais do que tudo aquilo.
E, no fundo eu sabia: ganhar ou perder não mudaria nada. Meu lugar no abrigo continuava o mesmo, as noites ainda seriam frias, e os dias, curtos demais para qualquer sonho maior que a realidade. Mas havia algo em mim que recusava o peso daquela verdade, como se, ao cantar, eu pudesse rasgar o céu de concreto e, quem sabe, alcançar algo maior.
Quando o programa foi ao ar, as mensagens chegaram. “Que história linda!”, alguém comentou. Outra dizia: “Você é uma inspiração!” Mas ninguém falava da música. Ninguém ouvia de verdade. E, ainda assim, lá estava eu, esperando. Esperando por um momento que talvez nunca viesse. Por enquanto, só o eco da minha voz me acompanhava, como uma promessa suspensa no ar.
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, uma adolescente que vive em um abrigo social sonha em ser cantora. Ela participa de um concurso promovido por uma emissora de TV, mas descobre que o programa está mais interessado em usar sua história para comover do que em reconhecer seu talento. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo conto,amor. Adorei!
ResponderExcluirExcelente 👏
ResponderExcluirO texto retrata a experiência de uma jovem que canta em um palco, enfrentando o olhar curioso e pity da plateia. Ela, uma menina do abrigo com um passado marcado por dificuldades, revela que sua performance não é apenas um ato de coragem, mas uma necessidade vital. Desde os tempos difíceis vivendo sob um viaduto, a música se tornou seu único refúgio e forma de expressão. Através do canto, ela busca afirmar sua identidade e processar suas emoções, desafiando o estigma social e criando uma conexão com o público. O texto enfatiza a resiliência e a força da individualidade, destacando o poder transformador da arte na busca por reconhecimento e esperança. muito bom 😊
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