''Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça.''
Não me lembro bem da última vez que estive em casa. Aliás, nem sei se tenho mais uma. Meu cérebro tem funcionado como uma máquina velha e emperrada, com peças faltando. Talvez seja efeito da transferência neural, ou talvez seja apenas o peso dos anos. Aos 78, já não se espera muito de nós, exceto que desapareçamos. Mas isso mudou. Agora, somos úteis de novo. Úteis para morrer.
A convocação veio pelo correio — tão antiquado quanto eu. “Você foi designado para o Projeto Escudo Final”, dizia a carta, com palavras frias e impessoais. Eles usaram eufemismos, como fazem com tudo. “Oportunidade de servir ao planeta”; “contribuir para a defesa global”; “honra para os seus últimos anos”. Mas sabemos a verdade: o governo está falido, e a guerra contra os alienígenas não tem fim. Somos um recurso barato. Carne velha e desgastada, mas ainda capaz de caminhar, de carregar, de segurar um rifle ou de cavar valas.
Agora estou aqui, na fronteira de um continente perdido para os Dravix — ou como os jovens os chamam, "os Demônios". Não parecem nada com demônios, claro. São formas translúcidas e etéreas, feitos de matéria que parece fluir entre sólido e vapor. Não se comunicam. Não explicaram por que chegaram, nem por que nos matam. Apenas estão aqui, como uma praga, sugando tudo o que podem, transformando cidades em desertos.
Minha unidade, composta quase inteiramente por idosos, foi apelidada de “Zona de Perigo” pelos soldados mais jovens. Não é um nome oficial, mas pegou. Somos os descartáveis. Os que marcham direto para o inferno enquanto eles ficam para trás, seguros, observando pelos drones. Fomos armados, mas ninguém nos deu instruções reais. Que diferença faria?
Caminho por uma paisagem de ruínas: prédios destroçados, carros fundidos ao asfalto, árvores mortas transformadas em esculturas grotescas. O ar é pesado, cheio de partículas que grudam na pele. Ao meu lado, outros como eu — rostos marcados pelo tempo e pela resignação. Alguns mal conseguem andar, mas continuam. Não por coragem, mas porque parar significa ser deixado para trás, e ser deixado para trás significa morrer sozinho.
Os gritos começam no horizonte, e o céu parece ferver. É a energia deles, as descargas que emitem antes de atacar. Dizem que é como ser queimado por dentro, mas eu não quero descobrir. Meu trabalho, como me explicaram, é simples: cavar. Cavar trincheiras, carregar munições, desmontar armadilhas — qualquer coisa que os soldados de verdade não tenham tempo para fazer.
Os que ainda têm um pouco mais de lucidez, como eu, são promovidos a líder de campo. Fui escolhido para comandar um grupo. “Comandar” é uma palavra generosa. Significa dizer a um homem de 82 anos para correr mais rápido enquanto carrega uma caixa de explosivos, ou convencer uma mulher com Alzheimer avançado de que ela está segura enquanto as bombas caem ao redor.
Mas eu os comando. Não porque quero, mas porque alguém precisa. Hoje, enquanto cavávamos perto de uma antiga estação de trem, encontramos um Dravix morto. Era a primeira vez que eu via um tão de perto. Era maior do que eu esperava, e sua forma fluía como um líquido prestes a derramar. Mesmo morto, sua presença parecia errada, como um tumor crescendo no mundo. Um dos homens tentou tocá-lo, e a coisa começou a se dissolver, liberando um cheiro ácido que nos fez recuar.
“Não importa”, disse um supervisor pelo rádio. “Continuem cavando.”E cavamos. À noite, não há estrelas. A luz dos Dravix cobre o céu como um véu pulsante. Penso na minha família, mas as lembranças vêm em flashes, distorcidas. Minha esposa. Meus filhos. Ainda estão vivos? Não sei. Às vezes acho que já morri, que isso é algum tipo de purgatório, e que estou condenado a viver essas cenas em loop, sem descanso, sem propósito.
Mas não estou morto. Sinto isso no frio que corta meus ossos, na dor das mãos que sangram de tanto cavar, no peso insuportável da culpa. Uma explosão me desperta dos pensamentos. É perto, muito perto. Os Demônios estão aqui de novo, e os gritos recomeçam. Não há espaço para pensar. Apenas para sobreviver. Corro para um buraco, mas levo comigo uma mulher que havia caído. Ela me olha com olhos vazios, sem entender. Não sei o nome dela. Nunca sei os nomes.
As descargas iluminam tudo, e o calor é insuportável. Estou gritando, ou talvez seja ela. Sinto algo bater contra mim, e o mundo escurece. Quando acordo, estou sozinho. O céu está calmo, mas tudo ao redor é destruição. Meu rádio não funciona. Caminho pelos destroços, chamando por alguém, mas não há resposta.
Penso em me sentar e esperar. Mas algo dentro de mim, algum resquício teimoso de instinto humano, me força a continuar. Talvez eu encontre outro grupo. Talvez eu encontre os Dravix. Ou talvez eu não encontre nada. E assim sigo, uma sombra entre sombras, uma memória viva de um mundo que esqueceu de nós. O som de passos ecoa ao longe. Penso em chamar, mas não sei se são amigos ou inimigos. Aperto a arma nas mãos trêmulas, esperando. E o silêncio toma conta novamente.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em um futuro devastado, onde a humanidade enfrenta uma invasão alienígena implacável, os idosos são convocados para enfrentar perigos inimagináveis em troca de sua "utilidade" final. Narrado por um protagonista que luta tanto contra os inimigos quanto contra suas próprias limitações, o conto mergulha no horror e na fragilidade de um sistema que sacrifica seus últimos defensores. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto,amor. Um boa distopia.
ResponderExcluirWow
ResponderExcluirA prosa é envolvente, com descrições vívidas que criam uma atmosfera tensa e quase apocalíptica. O texto nos faz refletir sobre questões éticas e morais, bem como sobre o papel de cada indivíduo em um contexto maior, onde a vida e a morte se entrelaçam de maneiras inesperadas.
Texto fluido e que prende o leitor, com uma narrativa tensa e repleta de reflexões .
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