''A ilusão é uma fé desmedida.''
Entrei no consultório pela primeira vez com uma mistura de esperança e ceticismo. A fama do Dr. Artemio era lendária: diziam que ele tinha a habilidade quase mágica de libertar as pessoas de suas prisões mentais. O consultório refletia sua reputação: um espaço intimista, repleto de cortinas pesadas, almofadas macias e um leve aroma de incenso que parecia se agarrar às paredes.
“Por favor, sente-se,” ele disse, com uma voz que parecia ser ao mesmo tempo acolhedora e autoritária. Seus olhos, profundamente escuros, pareciam atravessar minha pele, alcançando o que eu não queria mostrar.
Contei a ele sobre meus pesadelos, minha insônia e aquele sentimento constante de que algo me observava, mesmo quando eu estava sozinho. Ele não interrompeu, apenas assentiu, como se cada palavra fosse parte de um quebra-cabeça que ele já soubesse como resolver. Quando terminei, ele sorriu e puxou uma pequena marionete de madeira de uma prateleira próxima. “Isso, meu caro, é o que chamamos de projeção. Esta marionete será você. Cada movimento dela será um reflexo do que está preso dentro de você. Vamos ver onde estão os nós que precisam ser desfeitos.”
A sessão começou. Ele manipulava a marionete com precisão, os dedos dançando sobre os fios como se fossem extensões de sua própria mente. Enquanto isso, eu sentia algo estranho: uma leve tensão na cabeça, como se os fios da marionete estivessem conectados diretamente ao meu cérebro. Ele fazia perguntas, e eu respondia, mas as palavras pareciam vir de um lugar mais profundo do que o habitual. Era como se ele estivesse pescando segredos que eu não sabia ter.
Com o tempo, as sessões se tornaram intensas. Havia dias em que saía leve, como se tivesse me libertado de uma corrente invisível. Em outros, me sentia esgotado, como se ele tivesse cavado fundo demais. Comecei a perceber mudanças em mim: memórias que antes eram nebulosas agora surgiam com clareza quase dolorosa. Sonhos antigos, enterrados, ressurgiam com detalhes que me deixavam acordado, tremendo, no meio da noite.
Certa vez, enquanto esperava no consultório, notei algo curioso: um pequeno espelho inclinado no canto da sala. Ele refletia parte da prateleira onde estavam as marionetes. A imagem não parecia correta. As marionetes estavam ligeiramente deslocadas, os fios pendendo em um ângulo que não deveria ser possível. Quando me aproximei, ouvi um leve ruído, como o ranger de madeira contra madeira.
“Curioso?” A voz do Dr. Artemio me fez congelar. Ele estava parado na porta, com aquele mesmo sorriso enigmático. “Eu... achei que ouvi algo,” balbuciei, tentando disfarçar. “As marionetes têm uma energia própria,” ele disse, quase em tom de brincadeira. “Mas não se preocupe. Elas só se movem quando eu permito.”
Algo no jeito como ele disse aquilo fez meu estômago revirar. A partir daquele dia, comecei a observar mais. Percebi padrões nas sessões, perguntas que ele repetia de maneira sutil, como se estivesse tentando reforçar uma narrativa. Comecei a suspeitar que não era eu quem estava desatando nós; era ele quem os estava criando.
Uma noite, tive um sonho diferente. Estava no consultório, mas tudo estava invertido. O teto era o chão, e as marionetes se moviam sozinhas, dançando em um ritmo hipnótico. No centro, uma figura sem rosto segurava fios que brilhavam como veias pulsantes. Acordei suando, mas com uma decisão tomada: eu precisava confrontá-lo.
Na sessão seguinte, cheguei mais cedo. Esperei que ele deixasse a sala para atender uma chamada e me aproximei da prateleira. Peguei uma das marionetes e examinei-a. Havia algo gravado em sua base: meu nome. Antes que pudesse processar aquilo, ouvi passos. Voltei correndo para minha cadeira, mas sabia que ele tinha percebido algo.
“Você está pronto para hoje?” ele perguntou, com os olhos mais penetrantes do que nunca. “Acho que sim,” respondi, tentando soar confiante., A sessão foi diferente. Ele puxava os fios da marionete com mais intensidade, e cada movimento dela parecia causar uma reação física em mim. Senti como se estivesse sendo despido, camada por camada, até que nada mais restasse. Quando ele finalmente parou, fiquei sentado em silêncio, exausto e vazio.
“Você está quase livre,” ele disse, com um sorriso que não parecia humano.“Livre do quê?” perguntei, mas ele não respondeu. Apenas pegou a marionete, guardou-a e me dispensou.
Foi na última sessão que tudo se revelou. Ele trouxe uma nova marionete, maior, mais detalhada, e colocou-a diante de mim. Antes que eu pudesse reagir, senti algo puxar minha consciência, como se eu fosse sugado para dentro daquele pedaço de madeira. De repente, não estava mais no consultório, mas em um lugar escuro, preso, incapaz de me mover. A última coisa que vi foram os olhos do Dr. Artemio, brilhando na penumbra, enquanto ele dizia: “Agora, meu caro, você faz parte do meu teatro.”
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um renomado terapeuta, conhecido por suas técnicas não convencionais, guia seus pacientes em um processo de cura profundo e enigmático, utilizando marionetes como ferramentas de projeção. Conforme as sessões avançam, um paciente começa a desconfiar que as transformações vão além do esperado, levando-o a questionar os limites entre ajuda e manipulação. Em um ambiente de tensão crescente, segredos sombrios se desdobram, desafiando a sanidade e a percepção da realidade.. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Adorei o texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirTexto instigante e assombroso
ResponderExcluirEsse texto é uma narrativa envolvente e intrigante, com uma atmosfera de mistério e suspense. A história explora temas de controle mental, manipulação e a tênue linha entre realidade e ilusão, criando uma sensação de desconforto e curiosidade. A escrita é rica em detalhes, permitindo que o leitor visualize o ambiente e sinta as emoções do protagonista. A relação entre o Dr. Artemio e o personagem principal é complexa e carregada de tensão, culminando em um desfecho surpreendente que deixa o leitor refletindo sobre os limites da mente e da liberdade. É uma história que provoca pensamentos sobre a natureza do controle e da percepção.
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