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ESTRELAS DO MERCADO

"O horizonte está nos olhos e não na realidade." Ángel Gavinet

    Eu estava ali, sentado diante do espelho, ajeitando a gola do paletó e me preparando para a entrevista mais importante da minha vida. Às 15 horas, meu cérebro seria "hospedado" por uma mente brilhante, com todas as respostas e habilidades que eu não tinha, mas precisava. Apenas por uma hora, tempo suficiente para impressionar o comitê de seleção.

    Esse tipo de serviço, caro e clandestino, prometia transformar idiotas em gênios e perdedores em estrelas do mercado. Alguns chamavam de milagre, outros de trapaça. Mas eu precisava desse emprego e não hesitei em gastar minhas economias para pagar o "acesso mental temporário" de Dr. Augusto Torres, um renomado especialista em física quântica. Um gênio no qual eu confiava cegamente.

    O procedimento começou como esperado. Senti uma leve pressão na cabeça, quase como um zunido distante. Logo, os pensamentos do Dr. começaram a surgir como bolhas de sabão no meio da minha mente. Primeiramente, eram memórias esparsas, equações e fórmulas que eu mal reconhecia. Em poucos minutos, eu me tornei o que jamais poderia ser sozinho: um erudito com todas as respostas.

    A entrevista seguiu sem contratempos. Meus argumentos fluíam com uma elegância que eu nunca teria, uma lógica limpa e precisa que os avaliadores adoraram. Eu sabia que tinha conquistado a vaga. O olhar de admiração e surpresa nos rostos dos entrevistadores já me dizia isso.

    Mas, então, algo aconteceu. Quando estava próximo do fim do "contrato", bem na última pergunta, o zunido inicial se intensificou de forma insuportável. Um torpor invadiu minha mente, como se minha consciência estivesse se diluindo. Tentei controlar o pânico. “Isso é só um bug, acontece, eles vão resolver logo”, pensei.

    De repente, o torpor passou. Mas algo estava errado. Eu estava ali, mas... onde era "ali"? O ambiente ao meu redor parecia diferente. Estava num lugar que jamais reconheci: uma sala suja, de móveis quebrados e estofados puídos, com cheiro de mofo. À minha frente, uma janela estreita revelava um céu cinzento e favelas sem fim, casas empilhadas em ladeiras lamacentas. Estava no corpo de outra pessoa. Não era um bairro de classe alta, mas uma região periférica.

    Senti meu coração disparar. Levantei-me da cadeira. Meu corpo estava magro, fraco. Minhas roupas eram outras: uma camiseta surrada e uma calça gasta. Fui até o banheiro e encarei o espelho. Lá estava um rosto que eu não conhecia. A sensação era vertiginosa.

    "Dr. Torres?" tentei, em pensamento, mas a voz dele não respondeu.

    Enquanto a ansiedade começava a tomar conta de mim, uma mulher bateu à porta e entrou, segurando uma criança no colo. O garoto devia ter uns três anos e olhava para mim com os olhos enormes. Ela parecia cansada, exausta até.

    "Não vai trabalhar hoje, Paulo? Precisamos de dinheiro pra comprar o leite do João."

    Paulo. Esse era meu novo nome, pelo visto. Engoli em seco, sem saber como responder.

    Assenti, apenas, enquanto tentava organizar os pensamentos. A verdade era que não fazia ideia de como voltar. Então, comecei a vasculhar aquele lugar, tentando compreender mais sobre essa vida estranha. No armário, vi um uniforme sujo com o logo de uma empresa de serviços gerais. Comecei a compreender que Paulo provavelmente era um trabalhador braçal, alguém que vivia à margem, lutando pela sobrevivência.

    Nas ruas, ao caminhar para onde Paulo trabalhava, senti na pele o peso de olhares de desdém e desinteresse. Pessoas desviavam de mim sem olhar nos olhos, como se eu fosse invisível. Eu, alguém que sempre atravessou ruas iluminadas e confortáveis, sentia agora o peso de existir num mundo oposto ao meu.

    Ao chegar ao trabalho, um supervisor impaciente começou a gritar comigo, exigindo mais rapidez e eficiência. Suas palavras eram cruéis, sem um pingo de empatia. Não havia respeito ali, não havia dignidade. Pela primeira vez, comecei a perceber o abismo entre aquele mundo e o meu. E a mente do Dr. Torres, com toda sua sofisticação e conhecimento, estava perdida para mim, deixando-me nu, apenas com minha própria perplexidade e um sentimento novo: indignação.

    Os dias se arrastavam e a assistência técnica nunca respondia. Tentei contatá-los, mas sempre caía na mesma gravação. Aos poucos, fui conhecendo as pessoas ao meu redor, ouvindo suas histórias, compartilhando seus medos e frustrações. Comecei a entender que minha nova vizinhança enfrentava injustiças diárias – as mesmas que eu, no meu mundo, ignorava. Aquelas pessoas, que antes pareciam estatísticas e números frios nos noticiários, agora tinham rostos, nomes, e uma humanidade que me surpreendia.

    No entanto, uma angústia me corroía: e se eles resolvessem o erro e me devolvessem ao meu antigo corpo? Parte de mim queria desesperadamente voltar, mas outra parte, agora marcada pelas histórias e os rostos que conheci, hesitava. Estava ali, em um mundo do qual jamais soube nada além do que me disseram. E, ainda assim, o que poderia eu fazer por eles, mesmo com toda a minha empatia recém-adquirida? Era eu, no fundo, capaz de mudar algo?

    Sem aviso, a pressão na cabeça voltou, e ouvi uma voz metálica, quase robótica, ecoando: "Recuperação iniciada. Retorno de sistema em 10 segundos."

    Falha permanente encontrada, desligando a mente em 7,6, 5 segundos...




INSPIRAÇÃO

 


    A ideia central deste texto parte de uma fantasia comum: "E se outra pessoa, mais experiente, pudesse fazer aquela prova ou enfrentar um desafio importante em meu lugar?" Nesta história, exploramos essa possibilidade através de uma tecnologia que permite "emprestar" as habilidades e conhecimentos de outra pessoa. Mas quando um bug impede o retorno, o protagonista se vê preso em uma realidade dura e marginalizada que desconhecia, confrontando as dificuldades e injustiças enfrentadas por aqueles que vivem à margem. Em meio a essa experiência, ele descobre novas perspectivas sobre desigualdade e empatia. Enfim, caro(a) leitor(a), espero que a leitura seja instigante e prazerosa.

 
    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei ''Uma pessoa paga um valor e consegue ter acesso de outra pessoa em seu corpo, mas apenas sua mente e conhecimento, por apenas durante um determinado período uma hora durante para fazer um teste de emprego ou prova, no entanto perto de expirar o tempo o sistema apresenta uma falha, e agora aquele pessoa permanece no corpo de outra pessoa menos favorecida e começa a descobrir os anseios e fragilidades de um lado da cidade e das classes que jamais teria visto" e obtive esse resultado.  





Comentários

  1. Ótimo texto, adorei a alusão à obsolescência do aprendizado pelas ferramentas de IA.

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  2. Sensacional ... Seu crescimento e amadurecimento na escrita escancaram a perspectiva vitoriosa de um notável escritor, meu filho !!

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