“A cultura do cancelamento está enraizada numa característica do ser humano. O ser humano gosta de jogar pedra nos outros. Ele gosta porque, nesse momento, é quase como se ele sentisse que é puro”. Luiz Felipe Pondé
Na era da Rede Viva, não havia julgamentos, não havia tribunais. Apenas o algoritmo. Ele determinava quem era culpado, quem estava livre de culpa. Um mundo onde tudo o que você era, ou podia ser, estava gravado em um código digital. E, para Lucas, aquele código havia sido distorcido.
Tudo aconteceu de repente. Numa terça-feira cinzenta, enquanto ele descia a rua com a cabeça baixa, vidrado em seu implante ocular, veio o ping. Um alerta rápido, seco, nada mais que uma notificação perdida entre tantas outras. Mas, ao abrir a mensagem, o coração de Lucas vacilou. Não era apenas uma notificação qualquer. Era sua redesignação.
Seu nome piscava na tela: Lucas Bernardes. Sob o nome, o veredicto: Criminoso digital. Abaixo, uma lista vaga de acusações: difusão de material falso, incitação ao ódio. Nada fazia sentido. Ele nunca publicara nada parecido, nunca cometera nenhum desses atos. Lucas olhou ao redor, como se o mundo lá fora pudesse confirmar que tudo não passava de um erro. Mas o erro não estava lá fora. Estava nele. Dentro dele. Agora ele era marcado.
As consequências vieram rápidas e silenciosas. Primeiro, suas redes sociais. Desativadas. Suas mensagens pessoais, bloqueadas. Amigos, família, conhecidos... todos os contatos apagados. Sua presença digital, sua essência no mundo moderno, havia sido riscada com um único golpe. Sem chance de apelo, sem julgamento. O mundo online, onde ele existia, o havia condenado.
Ele caminhava pelas ruas, sem rumo, e as pessoas que o reconheciam o olhavam com desprezo. Não precisavam saber os detalhes. O simples fato de ter sido redesignado era o suficiente. Em um mundo onde a reputação era tudo, Lucas não tinha mais nada.
"Criminoso."
"Monstro."
"Mentiroso."
Os sussurros começaram a seguir seus passos. À medida que o tempo passava, ele sentia os olhares queimarem sua pele, embora fossem raros. A maioria das pessoas já havia se afastado dele antes mesmo de olhá-lo nos olhos. Elas nem precisavam vê-lo. A redesignação digital ecoava por toda parte, o algoritmo distribuía avisos por onde ele passava. Era um pária, invisível para a sociedade, mas carregando o peso de todos os olhos que ele não podia ver.
Lucas tentou entender o que havia acontecido. Passou noites sem dormir, buscando rastros, vestígios do erro que poderia ter levado àquele destino. Vasculhou seus dados, suas interações, contratou especialistas. Nada. Era como se o erro tivesse nascido do próprio ar, uma falha no sistema que ninguém conseguia rastrear. Ele era inocente, mas ser inocente não importava mais. Não no mundo da Rede Viva.
Seus pensamentos eram um redemoinho. "Como provar que não fiz o que nunca fiz?" Essa era a pergunta que o atormentava. Em cada passo, em cada olhar desviado, ele sentia a distância entre o mundo de antes e o agora aumentar. O tempo passava, mas a mancha em seu nome apenas se aprofundava. Seu coração pesava com a consciência da verdade. Não haveria redenção.
Uma tarde, ele decidiu confrontar o sistema diretamente. Foi até o Núcleo, o centro que mantinha a rede viva funcionando. As torres brilhavam em um azul metálico, como se o céu tivesse sido roubado para criar aquelas estruturas. Mal conseguia olhar para elas sem sentir náusea. Dentro daquele edifício estava a única coisa que poderia provar sua inocência, o algoritmo que o havia condenado.
Mas a entrada era impossível. Guardas, sensores, um sistema intransponível. Tentou implorar para ser ouvido. Ele gritava enquanto os seguranças o arrastavam para longe, mas ninguém ouvia mais suas palavras. Era como gritar para o vento. O mundo, tão conectado, não tinha ouvidos para quem já havia sido apagado.
De volta às ruas, ele andava sem propósito. Seu reflexo, que antes era acompanhado pelas atualizações de sua identidade digital, agora era o reflexo de um homem vazio, sem rastro, sem história. Cada pessoa que cruzava seu caminho tinha uma vida entrelaçada com a rede. Elas sabiam quem eram, e o mundo sabia quem elas eram. Mas ele? Ele era um fantasma.
Os pensamentos dele se fragmentavam em lampejos de memória. Lembrava de sua vida antes disso tudo — de seus amigos, de sua carreira como desenvolvedor de sistemas. Era tudo tão distante agora. Nada mais restava a não ser as sombras de quem ele fora, e as acusações que ele não conseguia apagar. O peso do erro o esmagava mais a cada dia.
Naquela noite, sentado na beira de um prédio alto, olhava para as luzes da cidade lá embaixo. As ruas brilhavam, as pessoas caminhavam com seus dispositivos, com seus mundos interligados. Ele não fazia mais parte disso. Não havia mais caminho de volta. Era impossível lutar contra a rede. O mundo digital tinha se tornado a única realidade, e ele fora excluído dela.
Por um momento, imaginou o que aconteceria se ele simplesmente desaparecesse. Se ele, assim como sua identidade, fosse apagado do mundo físico também. Talvez, apenas talvez, o vazio o trouxesse a uma paz que a rede lhe havia roubado.
O vento soprava forte no alto do prédio. Lucas fechou os olhos. Sentiu o peso de seu corpo pendendo para frente, como se o mundo estivesse finalmente deixando-o partir. O último pensamento que passou por sua mente foi uma pergunta simples e dolorosa:
"Por que eu?" Então, tudo se apagou.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Em um futuro próximo, crimes e atos antiéticos cometidos online são punidos mediante uma "redesignação digital", onde a identidade de uma pessoa é reescrita na rede. Quando o protagonista é erroneamente cancelado por um crime que não cometeu, ele precisa navegar por um mundo onde sua reputação é irreversivelmente manchada e buscar formas de provar sua inocência. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto, tema atual e reflexivo.
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