''O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções.'' Karl Marx
Meu nome é Ricardo. Eu já nem sei há quanto tempo estou aqui, mas tempo... ah, o tempo, já não significa mais o que costumava. Me pergunto, às vezes, se algum dia eu soube realmente o que ele era. Talvez o tenha perdido no momento em que entrei pela porta daquela fábrica, assim como perdi tantas outras coisas. Quando cheguei, prometeram-me que tudo seria rápido, simples. “A Máquina do Tempo Reversa vai revolucionar a vida de todos nós,” disseram, e como tantos outros, fui tolo o bastante para acreditar.
Trabalho na Corporação Chronos, a maior fornecedora de "produtividade instantânea". O conceito parecia tão inofensivo à primeira vista. Você entrava na cabine, passava seus oito, dez, doze horas de trabalho e, ao sair, mal tinham se passado dez minutos no mundo real. "Você poderá ter todo o tempo do mundo para o que realmente importa", eles diziam. O discurso era tentador: tempo com a família, tempo para estudar, para viajar, tempo para viver.
Eu me lembro da primeira vez que entrei naquela máquina. O som metálico das portas se fechando atrás de mim, o zunido constante do motor que fazia o ar vibrar, como se o próprio espaço ao meu redor estivesse sendo dobrado. A sensação era estranha, como se o corpo soubesse que algo estava errado, mas a mente ignorava. "Vai valer a pena", eu dizia a mim mesmo. "Um dia inteiro de trabalho e ainda vou chegar a tempo de jantar com a minha esposa, levar meu filho para a escola."
E, no começo, até parecia funcionar. O relógio de parede marcava a mesma hora quando eu saía, mas dentro de mim... algo estava diferente. Um cansaço se instalava que eu não conseguia explicar. Era mais do que exaustão física. Era como se uma parte de mim fosse drenada, algo profundo, talvez até irreversível. Mas eu ignorei. Todos nós ignoramos. Afinal, o mundo fora da fábrica continuava, e agora eu tinha mais "tempo livre". Parecia um bom acordo.
Até que o tempo começou a escapar de mim.
Primeiro foram pequenos lapsos. Esquecer o nome de um conhecido, não lembrar se havia trancado a porta de casa. Coisas normais, eu pensava. Quem não se sente um pouco perdido às vezes? Mas os lapsos ficaram maiores. Eu não conseguia mais lembrar o que havia comido no jantar da noite anterior, ou o último aniversário que comemorei com minha família. A verdade é que comecei a perder pedaços inteiros da minha vida. A fábrica estava sugando meu tempo real enquanto me deixava preso em uma bolha de minutos falsos.
Outros trabalhadores também começaram a sentir os efeitos. Murmúrios nos corredores, olhares vazios que antes eram repletos de esperança. Ninguém falava abertamente. A máquina era um sucesso, um milagre da produtividade, e as pessoas temiam reclamar, temiam perder o que já haviam entregue.
Até que, um dia, encontrei Paulo. Um velho colega. Quando o vi pela última vez, ele estava na cabine ao lado da minha, entrando para o turno da noite. Agora, ele parecia um fantasma de si. O cabelo grisalho, os olhos fundos e opacos, como se ele tivesse envelhecido décadas em semanas. Eu o abordei, tentando entender o que havia acontecido, e ele apenas sussurrou: “Eles estão roubando nosso tempo de verdade. Cada minuto que passamos aqui, perdemos uma parte de nós lá fora.”
Foi naquele momento que a ficha caiu. Cada dia que eu "ganhava" na máquina era, na verdade, uma vida inteira que estava sendo roubada de mim. E não havia como escapar. Estávamos presos naquele ciclo, obrigados a entrar na máquina dia após dia, enquanto lá fora, o tempo passava. Minha esposa... meu filho... eu já não os via há tanto tempo, e eles talvez já tivessem seguido em frente. Talvez eu fosse apenas uma lembrança vaga para eles agora, um homem que desapareceu em busca de uma vida melhor, mas que nunca mais voltou.
Pensei em fugir. Tentar escapar daquele inferno de minutos torcidos e horas roubadas. Mas a verdade é que já não sei mais o que existe lá fora. O mundo mudou, e eu fiquei parado no tempo. Preso em uma máquina que prometeu liberdade, mas trouxe apenas uma prisão sem grades, onde a própria vida se torna o preço do trabalho.
Hoje, quando entro na cabine, eu não sinto mais medo. Não espero mais a promessa de "tempo livre" ou de uma vida plena. Entro porque não há outro lugar para ir. O que resta de mim já não importa mais. Meu rosto no espelho é o de um estranho, minha voz é fraca e cansada. Meus dias, dentro ou fora da máquina, são indistinguíveis. Trabalhar ou não, o resultado é o mesmo: o vazio.
O último som que ouço, todos os dias, antes da porta metálica se fechar, é o zunido do motor. Talvez seja o som da morte, lenta e invisível. Eu ainda tenho mais uma jornada para cumprir. Não sei quanto tempo mais durará. Talvez, para mim, não importe mais.
A única coisa que posso dizer, agora, é que eles estavam certos. A máquina do tempo reversa realmente me deu mais tempo. Mas o tempo que me deram foi uma vida que não posso mais viver.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, uma empresa cria uma máquina do tempo que pode "acelerar" o tempo para seus funcionários, permitindo que eles completem jornadas de trabalho em minutos de vida real. O problema começa quando os trabalhadores começam a perder anos de vida sem perceber, enquanto a empresa fica cada vez mais rica. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
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Adorei o texto de ficção,amor. Parabéns.
ResponderExcluirÓtimo texto, reflexivo.
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