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CAIXA DE MÚSICA

 "A opressão nunca conseguiu suprimir nas pessoas o desejo de viver em liberdade." - Dalai Lama

 

     Cresci em uma cidade e nunca ouvira uma música sequer, o novo Governo, trouxe uma forte revolução no aspecto cultural¹, não apenas alterando com grande rigor o gosto das pessoas consideradas mais velhas, como especialmente a juventude que crescera sem o contato por completo com nenhuma melodia, pois conforme as autoridades, isso não passava de uma forma de trazer um sentimento interior de ser livre, e quando a pessoa julga ser livre, a tendência é negar ordens superiores, além disso, foi estudado que durante as políticas de uma centralizada em apenas um político, um pequeno grupo da sociedade convence por intermédio de canções, mas, no fundo, há uso de analogias para criar protestos contra aquele Governo previamente eleito, essa foi a verdadeira razão por qual toda a nação viu ser proibido qualquer música, a não ser as músicas concebidas pelo governo, há quem diga que funcionam como o procedimento que Alex De Large² passou.

    Foi instruído a todas as pessoas que denunciassem caso encontrassem qualquer pessoa escutando algo que não fosse permitido, por exemplo, toda manhã antes de iniciar o dia a dia na escola, éramos conduzidos para um grande pátio com estudantes de todas as turmas, desde os mais novos até quem estava perto de concluir os estudos, além da bandeira que balançava reforçando a imagem de uma Nação poderosa, o próprio diretor, em conjunto com oficial das tropas, examinava cada aluno olhando direto para nossos olhos. Antes de iniciar o hino do nosso país, fomos instruídos para permanecermos imóveis, com uma mão no peito para demonstrar respeito, felizmente para auxiliar quem está comando, sempre existem pessoas que não concordam com essa prática, eram levados para frente diante de todos, caso não desejassem cantar o hino nacional, ali mesmo sofriam uma grande surra, provavelmente você deve estar imaginando que os adultos fazem isso, mas está errado, quem faz mostra as consequências de não estar em conjunto com o seu o país, somos nós.

    Interessante salientar que começou a crescer em mim, o desejo desenfreado de escutar uma melodia que fosse, para saber como meu corpo  reagiria com aquilo, será que eu ficaria bem ou poderia morrer pelas ondas magnéticas que a música poderia ocasionar em minha cabeça³? Voltando para casa após a escola, fui por um caminho diferente, no gueto avaliado como mais inseguro e da população com mais ausência de recurso, papai, sempre dizia que esse lugar é infestado de coelhos, mas nunca compreendi a razão de usar esse bicho, sendo que jamais encontrei nenhum por ali, enquanto caminhava, observei um jovem sendo preso, os agentes, comentaram: "Olha quem foi encontrado com uma caixa de música, é o nosso dia de sorte, camaradas. Esse aí, jamais observará a luz do Sol." Partiram com ele na viatura, minha curiosidade era tamanha, que entrei na sua residência, nem sei se poderia chamar dessa forma de tão pequeno que era, o lugar aparentava que muito tempo não conhecia uma faxina, uma estante vertical de livros cativou minha atenção, todos bem desgastados, e uma pequena caixa, me aproximei dela, apresenta forma retangular, com um nome de uma garota inscrito, quando abri, fui surpreendido com uma bailarina, olhei atentamente a formato daquela pequena figura, entendi como funcionava, girei até ouvir um leve estalo na parte de trás, para minha surpresa, começou a se movimentar em sentido horário, pela primeira vez na vida, senti algo diferente no meu corpo, comecei a suar muito com receio de ser flagrado, um som difícil de ser explicado, começou a tocar de maneira suave.

    Quando dormi aquela noite, sonhei com aquela melodia que escutara mais cedo, aquela bailarina apareceu diante de mim, e me convidou para dançar, quando abri os meus olhos, perdera o controle sobre meus impulsos e dancei por longos minutos enquanto esperávamos pelo início da celebração diária da bandeira, o olhar de todos foi único, um sentimento conjunto de nojo e ódio no olhar, conseguia quase que ler o pensamento de todos, agora eu me tornei uma INIMIGA! Sabia que provavelmente seria morta ou coisa pior ocorrer comigo, por esse motivo, apenas apertei um botão, e antes de me pegarem, comecei a tocar uma música clássica, fazendo com que muitos tivessem os olhos abertos, a partir desse dia, o mundo reviveu o quão reconfortante é a música para nossa existência. Esse é o meu relato.

 

 



    

  

INSPIRAÇÃO

 
    
     A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. O conto me atentei para criar uma distopia onde as pessoas são proibidas de ter uma forma de lazer, o contato com qualquer melodia, além disso, como observou durante a leitura, há inúmeras críticas sociais que abordo no texto, apenas usando a ficção como escopo para plano de fundo, e como em textos dos moldes de Germinal, não poderia faltar referências históricas e literárias.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!


 
REFERÊNCIAS: 
 

1.  Revolução Cultural foi uma campanha desenvolvida por Mao Tsé-Tung a partir de 1966, visando perseguir seus opositores no interior do partido e membros da sociedade que não se alinhavam com a ideologia de Mao. A Revolução Cultural estendeu-se por 10 anos, disseminou violência no país e resultou na morte de milhões de cidadãos chineses.

2.  Personagem principal do livro, Laranja Mecânica do escritor, Anthony Burgess.   Depois de ser preso, se submete a uma técnica de modificação de comportamento para poder ganhar sua liberdade.

 3. Analogia crítica sobre a pequena minoria que é contra as vacinas, geralmente esse grupo é contrário algo que não te trará nenhuma mazela. Por essa razão optei por trazer essa crítica.

Comentários

  1. SAMARA FERNANDES LEITE31 de março de 2022 às 17:54

    Já esperado: um texto criativo que consegue ter intertextualidade com temas diversos do conhecimento.
    Parabéns ����
    Adorei

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