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O PAPAGAIO

 "O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente." - Fiodor Dostoievski

    Minha namorada fez uma celebração surpresa para mim, bolo e tudo o que gostava, achei muito romântico, especialmente por lembrar dessa data, estávamos rindo, brindando com uma das mãos com bebida, enquanto a outra era utilizada para demonstrar amor por intermédio de carinho ao parceiro, na hora de apagar as velas, pensei naquela brincadeira besta, de empurrar seu rosto em direção ao bolo, totalmente branco e apresentava dois andares, com cobertura de morango com pingos de chocolate branco, quando fiz força em sua nuca com o intuito dela cair de cara no bolo, surpreso por algo inesperado, após o contato inicial, notei que tanto suas pernas quanto braços se movimentavam de maneira nada usual, e depois de minutos, entrou no completo silêncio e permaneceu imóvel, em breve a mesa e o bolo estava totalmente vermelha, isso me assustou.

Com o dedo indicador busquei encontrar algum sinal de pulso, possivelmente seria uma brincadeira muito bem feita, não seria possível o que meus pensamentos diziam que ocorreu ser real, mas para a minha infelicidade não existia nenhum sinal de vida, o pagaio no canto da sala de jantar observava tudo em silêncio, como até hoje jamais falou, além dele, seria difícil provar minha inocência, sei como funciona o sistema judiciário brasileiro, já seria culpado antecipadamente. Voltei o foco para levantar sua cabeça devagar, notei que um pedaço de madeira na comida, atingiu seu olho tão fundo que causou uma morte quase instantânea, foi nítido que sofreu muito antes da sua alma deixar o corpo. Observei seu olho sair junto do pequeno pedaço de madeira, jorrando muito sangue, quase quando comemos um pastel e o queijo estica, isso que ocorreu quando tentei retirar o material da sua cabeça. Pelo menos uma parte era ainda comestível, presumi, mas quando estava quando no fim, comecei a sentir uma sensação estanha por dentro, aquilo evidentemente não era cobertura de morango, pensei.

    Como residia em um apartamento de baixo custo em uma cidade (satélite) de Brasília, mas especificamente em Ceilândia, era muito comum escutar o que os vizinhos diziam, inclusive quando realizavam ligações. Ouvi que o Dr. Roberto, solicitou uma viatura da polícia civil, pois pelo barulho alto presumia algum possível delito, quando escutei suas palavras, até conseguia ver, aquele senhor, já nos sessenta anos, com o boné vermelho, calças longas, e sua voz serene alegando um possível crime. Fui tomado por um enorme MEDO, MEDO, MEDO, MEDO, tremia da base até a cabeça. O que faria? Qual seria a melhor opção? Pensei muito, e finalmente cheguei em uma ideia que me traria menos trabalho e poderia evitar que fosse enviado para a Papuda, será que terei sucesso?

     Dentro de quarenta minutos, escutei as primeiras batidas na porta

 

— "POLÍCIA, por favor, senhor. Pode abrir a porta? 

— É claro, respondi, apenas espere eu encontrar a CHAVE! 

    Nesse momento, enquanto terminava os últimos ajustes, caminhei até a porta, percebi que eles sentiam que eu me aproximava, pois era possível ver em baixo da porta, uma fresta quase impercepitível que estava iluminada em pouco tempo, se escureceu. Nesse interím, contei até dez, 1,2,6...10. Respirei bem fundo, na maior tranquilidade abri a porta.

 

   —Olá, senhor? Fomos informados de um barulho estranho durante a noite, podemos dar uma olhada no seu apartamento?

 — SIM, porque não tenho nada esconder.

 

    Ambos policiais vestiam um uniforme preto, com o brasão do órgão no peito esquerdo e o cargo no direito, ambos eram agentes. Aparentavam não ter mais que 26 anos. 

 

    O policial indagou se era solteiro, respondi estar em um relacionamento, mas minha namorada tinha ido para a casa de uma melhor amiga, esqueci de esconder sua bolsa, olharam aquilo em cima da mesa, e até o celular dela, pois viram o fundo de tela com a foto da possível vítima, quando o aparelho recebeu uma mensagem e exibiu a fotografia, notei que pelo olhar de agentes do Estado, talvez, no fundo poderia me safar, acharam estranho, mas não levantou nenhuma suspeita alarmante, até confiram em baixo da cama, na geladeira e despensa.  Quase perto de conduzir novamente os policiais para a porta, do nada, o papagaio começou a falar bem alto: — Júlio, não me mate, não, por favor, EU IMPLORO! ASSASSINO, ASSASSINO, ASSASSINO, ASSASSINO, CORTAR, CORTAR, GELADEIRA, CORPO, FREEZER.

 

   Apenas voltaram os passos, avistaram a geladeira, e atrás das carnes, existiam pedaços que pertenciam a uma mulher, pelo cabelo, traços era da minha namorada, no freezer acharam alguns pedaços que na tentativa de me livrar do corpo, cortei com uma faca elétrica e com soda caustica. Fui preso em flagrante pelo homicídio contra a minha namorada, era para ser um dos melhores dias da minha vida, se tornou em um dos piores, recordo diariamente antes de dormir, nem a namorada que me assombra, apenas o brilho preto que pairou no papagaio quando me denunciava, por conta dele, fui enviado para a prisão de segurança máxima em Brasília, um crime que ficou marcado no Brasil, passarei mais de vinte e cinco anos por aqui, ou seja, muito tempo para pensar no que fiz, enquanto um corvo toda a noite me observa em meu completo confinamento.

 

 


 INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. Foi inspirado no conto o gato preto do grande escritor americano, Edgar Allan Poe, além disso, foquei em abordar um conto no aspecto "regionalista''. O corvo que observa o personagem na prisão é a referência da principal obra do escritor que me influenciou Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 

     

     

Comentários

  1. E por isso que eu não tenho papagaio 🦜 😂 ótima texto boa escrita meu amio

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  2. Poxa, se não fosse o papagaio, seria possível sair impune... Amei!

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  3. A sensação de impunidade do protagonista sendo quebrada por estímulo natural do animal é reconfortante para nós leitores e surpreendente para o protagonista.

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