''O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis.''
As câmeras não piscam. Elas apenas existem, embutidas em cada poste, cada semáforo, cada placa da cidade. Registram a poeira levantada pelo pneu, o ângulo exato do impacto, o reflexo do motorista no retrovisor. Mas não param aí. O sistema cruza dados, extrai provas, anexa laudos médicos em milissegundos e identifica os responsáveis antes que a ambulância chegue. No leito do hospital, o jovem sem nome respira por aparelhos. Seu corpo não se move. Mas seu código neural já acessa outra camada da realidade, o tribunal aumentado.
O tribunal não tem paredes nem juízes. A sala de audiência existe sobre o asfalto ainda marcado pela colisão, mantendo cada árvore, cada placa, cada cicatriz do acidente visível em sobreposição ao mundo real. O sistema convoca as versões digitais dos envolvidos, o jovem em coma, o outro motorista, os pedestres que testemunharam. Todos viram avatares conscientes apenas o suficiente para ouvir a sentença. A acusação flutua em letras verdes: “distância insuficiente”. A defesa rebate em vermelho: “pneu irregular não detectável pelo condutor”.
As câmeras mostram o atraso de 0,3 segundo entre o comando do cérebro e o pé no freio. Mostram a pista molhada. Mostram que o outro carro invadiu a contramão. O algoritmo não delibera. Ele calcula. Em 1,7 segundo, exibe o veredito em realidade aumentada para todos os envolvidos, mesmo os inconscientes. O outro motorista recebe a culpa principal. Mas o jovem, o sistema encontra uma infração secundária, “velocidade incompatível para as condições da via”. A pena aparece flutuando sobre o local do acidente: “O juiz já determinou sua visão sobre o caso”.
Não numa prisão de concreto. Numa prisão de realidade aumentada. O jovem, ainda em coma biológico, já começa a cumprir pena no mundo digital. Acorda na cela virtual. Trabalha lá. Dorme lá. Envelhece ali enquanto seu corpo real se recupera no hospital com fisioterapia e sondas. Do lado de fora, a família aguarda na sala de espera. A médica anota: “estabilização neurológica prevista para 10 dias”. Ninguém conta a eles o que o sistema decidiu. A lei proíbe. A notificação só aparece para o condenado no momento exato do despertar.
No décimo dia, os olhos do jovem se abrem. A primeira imagem não é o teto do hospital. É um quarto estranho, uma cama estreita, uma grade na janela que não existe no mundo real. O relógio na parede marca 10h47. Uma voz neutra ecoa: “Você está em casa. No trabalho. Ou detido por 2 anos. Descubra girando a maçaneta.” O jovem levanta. Sua mão treme. A maçaneta brilha em realidade aumentada. Ele não sabe se vai ouvir o barulho da rua, a voz do chefe ou o trancar de uma cela. O sistema já sabe. Ele, não.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Um jovem em coma desperta num futuro onde câmeras reconstroem cada acidente em realidade aumentada. O sistema julga sem juízes, sem atrasos, e a sentença define onde ele acordará: casa, trabalho ou uma prisão virtual. Antes da alta, ninguém revela o veredito. Ele só descobre ao abrir os olhos e girar a maçaneta. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Parabéns pelo texto, amor. Ansiosa pelo próximo.
ResponderExcluirFicção científica interessante.
Você é muito talentoso! Parabéns
ResponderExcluirMe lembrou Cyberpunk, tipo um “netrunner” — menos a parte do coma kkkkk — mas conseguindo controlar as coisas pela mente. E aí quando ele acorda e precisa girar aquela parte, o sistema já sabe… mas ele não. Isso também me lembrou Solo Leveling. Curti demais. Quero a parte 2 😂
ResponderExcluirMuito legal meu amigo obrigada por compartilha
ResponderExcluirObrigada
ResponderExcluirÓtimo texto 👏🏼
ResponderExcluirbom muito bom
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