''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.''
Minha avó chamava de dom. Minha mãe, de maldição. Eu chamava de ofício até o outono onde o ofício se tornou sentença.Trabalhava numa essência que capturasse a melancolia das tardes de chuva quando o cheiro me atravessou como agulha invisível. Não vinha dos frascos. Vinha de Camille, minha assistente, parada junto à janela com olhos claros e tranquilos. Cheirava a lã molhada, metal frio, flores esquecidas num vaso por semanas, cartas nunca enviadas. Perguntei se ela utilizara algo novo. Ela sorriu e disse que não. Naquela noite, não dormi.
Nas semanas seguintes, o fenômeno me obrigou a criar um sistema mental para não enlouquecer. A melancolia comum exalava terra úmida e papelão molhado, eu a sentia nos funcionários do metrô, nas viúvas que almoçavam sozinhas. O pesar crônico trazia almíscar rançoso e frutas passando do ponto, estava nos executivos de olhos opacos, nas mãos trêmulas que pagavam o café com moedas contadas. A desolação aguda era a pior: metal e limão, sangue e desespero, e foi esse o odor que me puxou para um jovem encostado no parapeito do Pont des Arts numa tarde de neblina. Fiquei vinte minutos falando de barcos e cadeados enferrujados até o cheiro diminuir. Quando ele se afastou com um sorriso frágil, soube que impedira algo terrível, mas também soube que cruzara uma fronteira sem volta.
O problema começou em casa, numa quinta-feira em que voltei exausta e senti o cheiro na sala de estar. Não era o odor comum de canos velhos ou umidade. Era o cheiro, o da tristeza profunda, a que se calcifica nos ossos e apodrece devagar. Verifiquei janelas, ralos, o porão. Nada. Na noite seguinte, o cheiro estava no corredor. Na outra, no quarto. Eu aspirava o ar como um cão de caça, seguindo o rastro invisível que serpenteava pelos cômodos, mas ele não tinha origem fixa, estava em toda parte e em lugar nenhum, como se as paredes exalassem desespero.
Meu marido atribuiu meu estado ao estresse. “Você trabalha demais”, disse ele, servindo vinho sem olhar nos meus olhos. Observei-o por semanas, dissecando cada gesto: o jeito como pousava a xícara, a lentidão ao vestir o sobretudo, o silêncio que se alongava após o jantar. Cheirei suas roupas quando saía, seus lençóis ao amanhecer, a escova de dentes, o travesseiro. Nada. Meu companheiro não exalava tristeza, exalava apenas seu próprio aroma, sabonete de alcaçuz e café. Mas o cheiro continuava ali, impregnado nos tapetes, insidioso, paciente.
Uma noite, o odor me acordou às três da manhã com intensidade jamais sentida. Levantei descalça, o coração batendo na garganta. O corredor estava escuro, mas eu não precisava de luz, seguia o cheiro como quem segue uma voz. Passei pela porta de Étienne. O odor não vinha de lá. Continuei. Passei pela cozinha, pelo banheiro, pela escada. O cheiro me conduziu até o fim do corredor, onde fica a última porta. A porta do meu laboratório particular, onde componho minhas essências.
Abri-a devagar. Lá dentro, sob a luz pálida da lamparina, meus frascos brilhavam como pequenos olhos de vidro. E então compreendi, com a clareza gelada das revelações impossíveis. Em cada frasco, eu havia destilado durante meses a tristeza que capturava das ruas, das pontes, das filas de padaria, dos olhos opacos dos executivos, colhera o desespero alheio como quem colhe flores, convencida de que era apenas observadora. Mas o cheiro não estava nos frascos. O cheiro emanava de mim. Sempre emanou. Eu não era a perfumista que farejava a tristeza do mundo, eu era a fonte, o epicentro, a origem da podridão que eu jurava apenas identificar. Minha mãe tinha razão. Não era maldição. Era espelho.
Nas semanas seguintes, o fenômeno me obrigou a criar um sistema mental para não enlouquecer. A melancolia comum exalava terra úmida e papelão molhado, eu a sentia nos funcionários do metrô, nas viúvas que almoçavam sozinhas. O pesar crônico trazia almíscar rançoso e frutas passando do ponto, estava nos executivos de olhos opacos, nas mãos trêmulas que pagavam o café com moedas contadas. A desolação aguda era a pior: metal e limão, sangue e desespero, e foi esse o odor que me puxou para um jovem encostado no parapeito do Pont des Arts numa tarde de neblina. Fiquei vinte minutos falando de barcos e cadeados enferrujados até o cheiro diminuir. Quando ele se afastou com um sorriso frágil, soube que impedira algo terrível, mas também soube que cruzara uma fronteira sem volta.
O problema começou em casa, numa quinta-feira em que voltei exausta e senti o cheiro na sala de estar. Não era o odor comum de canos velhos ou umidade. Era o cheiro, o da tristeza profunda, a que se calcifica nos ossos e apodrece devagar. Verifiquei janelas, ralos, o porão. Nada. Na noite seguinte, o cheiro estava no corredor. Na outra, no quarto. Eu aspirava o ar como um cão de caça, seguindo o rastro invisível que serpenteava pelos cômodos, mas ele não tinha origem fixa, estava em toda parte e em lugar nenhum, como se as paredes exalassem desespero.
Meu marido atribuiu meu estado ao estresse. “Você trabalha demais”, disse ele, servindo vinho sem olhar nos meus olhos. Observei-o por semanas, dissecando cada gesto: o jeito como pousava a xícara, a lentidão ao vestir o sobretudo, o silêncio que se alongava após o jantar. Cheirei suas roupas quando saía, seus lençóis ao amanhecer, a escova de dentes, o travesseiro. Nada. Meu companheiro não exalava tristeza, exalava apenas seu próprio aroma, sabonete de alcaçuz e café. Mas o cheiro continuava ali, impregnado nos tapetes, insidioso, paciente.
Uma noite, o odor me acordou às três da manhã com intensidade jamais sentida. Levantei descalça, o coração batendo na garganta. O corredor estava escuro, mas eu não precisava de luz, seguia o cheiro como quem segue uma voz. Passei pela porta de Étienne. O odor não vinha de lá. Continuei. Passei pela cozinha, pelo banheiro, pela escada. O cheiro me conduziu até o fim do corredor, onde fica a última porta. A porta do meu laboratório particular, onde componho minhas essências.
Abri-a devagar. Lá dentro, sob a luz pálida da lamparina, meus frascos brilhavam como pequenos olhos de vidro. E então compreendi, com a clareza gelada das revelações impossíveis. Em cada frasco, eu havia destilado durante meses a tristeza que capturava das ruas, das pontes, das filas de padaria, dos olhos opacos dos executivos, colhera o desespero alheio como quem colhe flores, convencida de que era apenas observadora. Mas o cheiro não estava nos frascos. O cheiro emanava de mim. Sempre emanou. Eu não era a perfumista que farejava a tristeza do mundo, eu era a fonte, o epicentro, a origem da podridão que eu jurava apenas identificar. Minha mãe tinha razão. Não era maldição. Era espelho.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, uma perfumista descobre que seu talento para capturar a melancolia alheia em essências vai muito além da observação. O que parecia um ofício começa a invadir sua própria casa, transformando-se numa perseguição íntima e inescapável. Entre o legado familiar de uma "maldição" e o laboratório onde cria seus frascos, ela precisará confrontar a origem real do cheiro que a consome. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei
“Uma perfumista descobre que seu talento para capturar a melancolia alheia em essências vai muito além da observação. O que parecia um ofício começa a invadir sua própria casa, transformando-se numa perseguição íntima e inescapável. Entre o legado familiar de uma "maldição" e o laboratório onde cria seus frascos, ela precisará confrontar a origem real do cheiro que a consome." e obtive esse resultado.

Maravilhosa reflexão
ResponderExcluirÓtimo texto 👏🏼
ResponderExcluirgostei migo
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