‘’Amar se aprende amando.’’ Carlos Drummond de Andrade
A névoa que descia da montanha não era cinzenta, mas verde, um tom doentio de ferrugem vegetal. Samara, a morena de cabelos crespos, sentiu o cheiro antes de vê-la: cravo podre e mel queimado. Seus dedos roçaram o frasco de vidro escuro à cintura, onde dormia uma poção de revelação que exigia três gotas de lágrima de grifo e um canto fúnebre aprendido com as anciãs do bosque. A detentora dos conhecimentos alquímicos sabia que aquela bruma não vinha do acaso.
— Não respire fundo, ordenou a Gabriel, que empunhava o machado de lâmina dupla com a familiaridade de quem já partiu costelas de dragão ao meio. O rapaz de olhos cor de mel obedeceu sem pestanejar. Entre os dois, poucas palavras bastavam. Seu cabelo negro caía em franja suja sobre a testa, suor e fuligem da última batalha ainda grudados na pele clara. A névoa verde se enrolava nas pedras do vilarejo abandonado como cipós famintos.
Três dias atrás, aquelas casas tinham gente dentro. Agora, apenas bonecos vazios vagavam pelas ruas de paralelepípedo, repetindo gestos mecânicos de varrer portas que não abriam mais. A bruxa, pois era uma bruxa, embora nenhuma das antigas canções a nomeasse, não queria poder nem imortalidade. A feiticeira planejava algo mais sórdido: reescrever a memória coletiva da cidade fortificada lá embaixo. Não um apagão, não uma maldição de sono. Cada habitante do castelo e das muralhas acordaria no dia seguinte sem saber quem era.
O guerreiro de cabelo preto rangeu os dentes ao avistar o primeiro enigma: um círculo de cogumelos luminescentes no centro da praça, cada fungo com uma runa diferente gravada no chapéu. A dona das poções não hesitou. Ajoelhou-se, tocou o solo com as pontas dos dedos e deixou que uma melodia ancestral escapasse de sua garganta, não um grito, nem um sussurro, mas uma terceira coisa. As notas não tinham nome na partitura dos homens, mas as ervas no chão começaram a se curvar para a cantora. Três frascos de vidro transparente borbulharam dentro do alforje.
A solução não veio de um feitiço óbvio, mas da combinação brutal entre música e química. Enquanto a mulher de olhos castanhos sustentava a nota mais aguda que seus pulmões já haviam produzido, o machadista girou o cabo de sua arma e quebrou dois cogumelos específicos no ritmo exato da melodia. As runas se alinharam. O chão tremeu. Uma escadaria de pedra nunca vista se abriu sob os escombros da antiga forja. Lá embaixo, o cheiro de mel queimado se tornou insuportável.
A descida exigiu cordas e confiança. O homem de olhos cor de mel desceu primeiro, o corpo ágil cortando a escuridão como navalha. A parceira veio atrás, uma das poções já destampada entre os dentes, essência de visão noturna que ardia na língua como pimenta e cinza. Ao fundo da cripta, a feiticeira não os esperava de braços cruzados. A pérfida manipulava um tear gigantesco, cada fio de luz prateada sendo uma memória roubada da vila acima. No tear, já pendiam retalhos com rostos de crianças, promessas de casamento, o cheiro do pão da avó.
Gabriel não deu tempo para discursos. Seu machado voou em giro mortal, mas a bruxa ergueu um escudo de agulhas flutuantes que ricochetearam o golpe. Uma das lâminas finas rasgou a própria bochecha da bruxa, que nem piscou. Sangrando, a antagonista viu Samara, a mestra das essências, entoar um segundo canto, este não suave como o primeiro, mas gutural, feito de sílabas que os humanos esqueceram antes de inventarem a escrita. As cordas do tear vibraram em desespero. A bruxa gritou, pela primeira vez com medo.
A fabricante de poções arremessou um frasco contra o peito da vilã. O vidro quebrou e liberou não fogo nem gelo, mas um silêncio absoluto num raio de três passos. Sem o som, a magia da oponente não tinha comando. O machado do rapaz não precisou de segunda investida, cortou os fios prateados como quem corta cabelo, e cada estilhaço de memória voltou flutuando para o alto, em direção aos corações dos moradores dormentes. A pérfida desmanchou em pó de mariposa.
Lá fora, o sol rompeu a névoa verde pela primeira vez em uma semana. O castelo despertou com dores de cabeça e uma fome inexplicável, mas cada habitante reconheceu o próprio nome ao olhar no espelho. A mulher de cabelos crespos apoiou a testa suja no ombro do companheiro, que ainda tremia de adrenalina. Ele não disse nada. Apenas passou os dedos grossos pelos cachos dela, com a mesma precisão que utilizava para empunhar o aço. Desceram a montanha em silêncio, e o vilarejo abandonado, agora vazio de verdade, finalmente pode descansar.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto, meu amor.Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirExcelente conteúdo! Dá para ver o cuidado e a dedicação em cada detalhe. Parabéns por compartilhar conhecimento de forma tão clara.
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