Ainda me arrepio quando lembro: o cheiro do Rio de la Plata grudou na minha pele feito garoa de bagual. A viagem pra Argentina não era passeio de gringo não, era uma espécie de romaria. Eu, gaúcho dos pés à cabeça, criado tomando chimarrão no galpão e ouvindo causo de tio, me encontrava agora na terra do bandoneón, e o coração batia num compasso estranho, meio vaneira, meio tango.
Na noite anterior, numa confeitaria antiga de San Telmo, piso de tacos gastos, espelhos manchados, um ar de que ali já se chorou muito, peguei um espetáculo que não me sai da cachola. Não era esses tangos enfeitados pra gringo ver, não. Era um casal já maduro, ela de vestido vermelho com franjas que pareciam ferida aberta, ele de terno preto brilhando de suor nos ombros. Quando a música atacou, aquele bandoneón arrastado, triste igual lobo sozinho na madrugada, eles nem se olharam. Bailavam com os olhos cravados no chão, como quem reza pra um defunto. Cada passo era uma história. Cada parada brusca, uma facada.
Ela se soltava e ele fechava o punho, e aí eu percebi: ali não tinha dança. Tinha duas almas se estraçalhando em praça pública. Quando terminaram, o homem chorava pelo peito, sem fazer barulho. Eu engoli em seco e lembrei do meu avô: “Gaúcho não chora, mas o coração chora por ele.
Horas depois, já no saguão do aeroporto, eu apertava contra o peito uma sacola de papel pardo. Dentro, minha prenda de madeira: uma Mafalda esculpida em MDF, dessas de 15 a 20 centímetros, cabelo preto lisinho, laço vermelho, vestidinho amarelo. Tinha comprado na casa do Quino, ali em San Telmo, que hoje virou museu. Entrou a máquina de raio-X. Tirei as botas, pus a sacola na esteira. O agente da primeira cabine, bigode ralo, olho de quem já desconfia até da sombra, pegou a boneca, revirou ela, apalpou a barriga. Vi os dedos dele forçando a juntura do braço. Ele queria abrir. Queria pó, dinheiro, um compartimento secreto.
A colega, uma mulher baixinha, cabelo preso, unha sem esmalte, arrancou a Mafalda da mão dele, passou o dorso dos dedos na madeira, bateu com a unha. “Es de MDF, boludo. Macizo. No entra nada.” Ela me devolveu a boneca com um piscar de olho. Meu coração galopava igual cavalo assustado. O agente bufou. Eu respirei e murmurei baixo: “Gaúcho não desiste, mas quase que desmaia.”
No dia anterior, porém, quase rolou sangue no asfalto. Eu e o Klaus, meu amigo alemão, alto, magro, branquelo igual nata de leite, cabelo amarelo que brilhava com o sol das oito da manhã, caminhávamos por uma rua de paralelepípedos perto do Congresso. Ele de jaqueta cáqui, mãos nos bolsos, despreocupado feito quem nunca levou um boleto. Eu, mais baixo, de bombacha disfarçada de calça escura, o olho vivo. Vi um guri de moletom cinza, capuz levantado, mãos enfiadas na barriga da blusa. O jeito dele era suspeito igual terneiro perdido no banhado. Avisei baixo: — Cuidá, Klaus. Esse aí vai tentar aliviar nossos bolso. O alemão riu, seco, feito estalo de rebenque. — Com este sol? Loucura. Ele não é tão louco. O guri deu a volta na quadra. Voltou. Passou tão colado no Klaus que o moletom roçou o bolso. Não vi a mão entrar. Só vi o braço do alemão se contraindo, vazio. Celular e carteira, sumiram.
Saímos correndo igual dois cachorros atrás de osso. O guri mergulhou na boca do metrô. Escada abaixo, luz branca doentia, cheiro de mofo e cano podre. Ele quase chegou nas catracas quando eu já tinha agarrado o capuz. Klaus veio por trás, que nem boiadeiro pegando desgarrado. O guri tentou se soltar, mas eu já berrava: — ¡LADRÓN! ¡LADRÓN! PEGUEM O DESGRAÇADO!
O eco rebentou nos azulejos verdes. Em segundos, formou-se um bolo de gente. Vendedor de bala, uma velha de carrinho, dois seguranças. Nossas esposas, que tinham ficado mais atrás comprando alfajor, chegaram ofegantes, com os olhos arregalados. Depois me contaram: só ouviram os berros e pensaram que nós é que estávamos apanhando, que a chinoca tinha virado contra nós. Imaginação de mulher, sempre vasta. Mas não. Quem tava cercado era o magricela. Klaus já tinha o punho fechado. O punho dele, do tamanho de uma pedra de churrasqueira. Ele tava a centímetros de descer a mão no guri — uma dessas que derruba boi no mato. Segurei o braço do alemão:
— Não faz isso, tchê. Senão o moleque vira peça de Lego no chão. E aí a gente perde o voo e ainda roda na delegacia. Os guardas chegaram. Celular e carteira caíram do bolso do guri. Não deu nem tempo de ir pra delegacia. Recuperamos as coisas e subimos de volta à claridade. O Klaus coçava a mão, ainda com vontade. Eu respirei e pensei: Gaúcho tem sangue quente, mas cabeça fria.
No outro dia, o guia nos levou pra um giro pelos pontos mais famosos. Passamos pelo Obelisco, pela Avenida de Mayo, pelo Café Tortoni, pela Plaza de Mayo. Chegamos perto de uma viela que se abria pra um bairro popular, casas baixas, paredes descascadas, antena de TV torta igual espanta-passarinho. O guia explicou que ali começa a Buenos Aires mais autêntica, a dos gritos e dos xingamentos. E dali de fora, a gente ouvia: vozes altas, palavras soltas que às vezes entendia — “desgraçado”, “sem-vergonha”, “ladrão” — e às vezes não, porque vinha embaralhado no lunfardo.
Nosso grupo parou. Gaúcho nenhum resiste a uma fofoca alheia. Ainda mais no exterior, meu filho. Dois brasileiros discutiam diante de um portão azul-enxofre. Dava pra ver pelo sotaque que moravam na Argentina há anos, a fala puxada, o jeito meio português de falar português. Um usava camisa de flanela xadrez, o outro um boné do Flamengo encardido. Entre eles, uma mulher de braços cruzados, olhar de quem já cansou de separar briga. O que eu entendi, no meio da confusão, foi o seguinte: o do boné tinha plantado DEZ tipos de pequenas plantas num canteiro comunal. Coentro, cebolinha, manjericão, pimenta-biquinho, alecrim, hortelã, sálvia, tomilho, orégano e um pé de boldo que ele chamava de “meu fígado”. O vizinho de flanela, que sempre quis aquele pedaço de terra mas nunca botou a mão na enxada, arrancou tudo sem aviso. Sem anuência. Sem nada. Ficou doido de raiva. A discussão subiu de tom.
— TU ARRANCOU MEU MANJERICÃO? — berrou o do boné, gesticulando igual gaúcho envenenado. — AQUELE MANJERICÃO QUE EU REGAVA COM CHÁ DE BANANA TODO SANTO DIA?
A mulher interrompeu:— Amor, era chá de cinzas, não de banana.
— CALA A BOCA, MULHER! TU TAMBÉM TÁ CONTRA MIM? O MANJERICÃO ERA PRO REFLUJO DA TUA MÃE, HEIN!
O vizinho de flanela tentou argumentar, mas a voz saía enrolada: — Mas a área é de todos, guri. Tu não pode cercar o que é comum.
— COMUM NA SUA TERRA! TU NUNCA TIROU UM MATO DAÍ, NUNCA REGOU UMA MUDINHA, NUNCA LIMPOU UMA FOLHA SECA. AÍ O HORTELÃ TÁ BONITO, TU VEM E ARRANCA IGUAL ÉGUA BRAVA! TU É MUITO…
Nesse momento, um guri pequeno — uns oito anos, bermuda suja, pé descalço, um pão com doce de leite na mão, apareceu ao lado do portão. Ele assistia a tudo com olhos de quem já viu o pai brigar umas duzentas vezes. O homem do boné parou. Virou-se pro menino. Inclinou a cabeça. E, com a voz subitamente calma, tão calma que dava mais medo que o berro — perguntou: — E aí, guri… mas como é que tá o teu joelhinho?
O menino parou de mastigar. Olhou pro próprio joelho. Depois pro vizinho de flanela. Depois pro pai. Levantou a barra da bermuda. Lá estava um curativo amarelado, sujo de terra, desses de farmácia barata. O guri apontou o dedo mínimo — com uma autoridade que nem padre tem no púlpito — e disse:
— Ele que me derrubou. Corri e ele botou o pé. Na hora que tu foi comprar adubo.
Silêncio. A mulher desviou o olho. O vizinho de flanela recuou dois passos. E nós, gaúchos, com nossas Mafaldas de MDF no bolso e nossos corações ainda batendo forte, só olhamos um pro outro, sem saber se ria ou se tomava um chimarrão pra esfriar a cabeça.

Ótimo texto ,meu amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
Gostei Gabriel
ResponderExcluirExcelente 👏🏼
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