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A NOITE DANÇADA

''A dança é uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.'' George Bernard Shaw


        Entro no terminal às 23h15, o ônibus cheira a desinfetante e suor seco, minhas mãos ainda lembram o volante das onze horas da rota Sul, mas agora só quero sentir o chão. Tiro os sapatos pesados no banco do motorista vazio, apoio os pés descalços no piso frio, e o Marco, cobrador do 7070, ri enquanto eu giro os quadris devagar, me chamando de louca. "Tá ensaiando de novo, Dona Márcia?", ele pergunta, e eu respondo que é fisioterapia de pobre, treino de coxa, porque dançar dói menos que alongar na academia que não posso pagar. Ele larga a mochila no banco e repete o passo que eu mostrei ontem, todo torto, o boné escorregando para o lado esquerdo da testa, e eu abaixo para corrigir seus pés com os meus pés, deslizando o tênis dele meia polegada para a esquerda.
        No rádio do terminal, alguém colocou Alceu Valença baixo, baixo demais, o som não preenche o peito como eu preciso, não afoga o ronco do motor que ainda ecoa nos meus ossos depois de onze horas desviando de moto sem luz e carro na contramão. Preciso de música alta, preciso do suor que não é de correria nem de medo, mas de balanço de quadril, daquele movimento que minha mãe chamava de "descarregar a alma pelos pés". Enquanto o Marco erra o compasso pela terceira vez, eu me lembro da boate Estrela do Sul, em 1994, quando o chão vibrava e ninguém dormia no volante. Hoje o chão do terminal é mais duro, mas ainda aceita meus pés descalços.
        Vinte e três e quarenta e cinco, entra o passageiro da bolsa azul, sempre o mesmo moço, camisa social amassada, mochila nas costas, olheiras que competem com as minhas depois da segunda viagem noturna. Ele nunca dança, só senta no banco de plástico encostado no bebedouro, segurando o celular como quem espia algo proibido, e nos últimos dias notei que ele não digita, não manda mensagem, apenas mantém o aparelho na altura do peito, imóvel, enquanto eu ensino o Marco a fazer a "pisada de caranguejo". A luzinha vermelha no canto superior do celular pisca de três em três segundos, e eu finjo que não vi, finjo que acredito que ele está apenas olhando o horário, mas a dançarina que fui um dia aprendeu a enxergar plateia mesmo no escuro do palco.
        "Vem, rapaz! Não precisa saber dançar, só precisa saber andar torto que nem o Marco", grito para ele, e ele sorri rápido, desvia o olhar para o chão, as mãos suando em cima da bolsa azul que nunca larga. O Marco já foi comprar pastel no bar da esquina, deixando eu e o rapaz sozinhos no terminal vazio, os outros motoristas espalhados pelos bancos, cada um no seu cansaço particular, ninguém olhando para ninguém. Eu cruzo os braços imitando um cavalheiro elegante, dou um passo à frente e convido o ar à minha frente para dançar, e quando o moço da bolsa azul levanta o celular um pouco mais, eu grito de verdade: "Se vai filmar, filma direito, menino. Não precisa esconder de ninguém não."
        Ele quase derruba o aparelho no chão de susto, as orelhas ficando cor de goiaba, os dedos trêmulos tentando desligar a gravação sem conseguir acertar o botão. Enquanto ele se atrapalha, eu ensino um passo de samba que minha mãe fazia no quintal, em Maragogipe, quando lavava roupa no tanque de cimento, a água escorrendo entre os dedos e ela rebolando devagar para não perder o ritmo das esfregadas. Ela não sabia o nome daquele passo, chamava de "pisada de caranguejo com cachaça", e eu ensino exatamente assim para o moço, que finalmente guarda o celular no bolso e tenta repetir o movimento com os pés grudados no chão. Ele ri de verdade agora, não aquele riso nervoso de quem quer sumir, mas um riso grosso, solto, que revela dentes pequenos, quase infantis, escondidos atrás de lábios rachados pelo ar condicionado do escritório onde trabalha.
        Três dias depois, o Marco me mostra o celular dele na hora do café, um vídeo onde eu apareço dançando descalça com um pano de chão amarelo na cintura fingindo ser saia. Quarenta mil visualizações, o perfil se chama "Anjos do Asfalto", não tem foto nem descrição, apenas aquele vídeo e mais dois que eu não sabia que tinham gravado. No dia seguinte são duzentos mil, e uma mulher na catraca me reconhece, pergunta se sou eu no vídeo, se posso ensinar o passo do caranguejo para a filha dela que faz aniversário amanhã. No terceiro dia, o gerente do terminal me chama na salinha branca, aquela que cheira a café requentado e papel carbono, e empurra um papel sulfite com carimbo vermelho na minha direção.
        "Márcia, isso não pode acontecer", ele diz, os dedos gordos batendo na mesa enquanto eu seguro a advertência por escrito. "A empresa proíbe gravação nas dependências sem autorização, e o senhor Silva do RH viu o vídeo, disse que é desvio de função, que motorista dirige, não dá aula de dança." Eu pergunto se ensinar um passo de samba no intervalo entre viagens é pior do que o motorista do 8070 que dormiu no volante e matou três pessoas na Anchieta, e ele me olha como se eu tivesse dito uma blasfêmia. Olho pela janela da salinha e vejo o moço da bolsa azul sentado no mesmo lugar de sempre, mexendo no celular, mas dessa vez a luzinha vermelha está apagada.
        Saio da salinha com o papel amassado no bolso da calça, os dedos ainda tremendo de raiva, e encontro o moço encostado no bebedouro, a bolsa azul pendurada no ombro como um escudo. "Dona Márcia, eu posso explicar", ele começa, a voz mais fina do que eu imaginava, e eu paro na frente dele com os braços cruzados, esperando. "Eu criei o perfil só para mostrar para uns amigos da faculdade, juro, mas alguém compartilhou, e aí vazou, e quando eu vi já era tarde." Pergunto quantos amigos, e ele responde "cinco", depois abaixa a cabeça e corrige: "Quinze, mas nenhum deles ia compartilhar, eu confiava."
        Olho nos olhos dele e vejo um menino assustado, não um monstro, apenas alguém que não pensou nas consequências porque nunca ninguém ensinou ele a pensar nelas. "Você sabe o que aconteceu ali dentro?", pergunto, mostrando a salinha branca com a cabeça. "A empresa vai me demitir se eu dançar de novo, e se me demitirem, eu volto a morar na casa da minha irmã em Itapecerica, com três sobrinhos e um banheiro só." Ele não responde, apenas aperta a bolsa azul contra o peito, e eu sinto vontade de ensinar a ele o passo do caranguejo de novo, só para ver ele rir outra vez, mas não posso.
        O Marco me encontra no ônibus antes da saída das duas da manhã, trazendo um pastel de carne e um copo de caldo de cana que ele comprou com o troco do vale-transporte. "Dona Márcia, o menino pediu desculpas de verdade, ele tá lá fora chorando igual criança", ele diz, sentando no banco do motorista ao meu lado. Eu mordo o pastel e não respondo, porque desculpa não paga conta de luz, não desvia caminhão na marginal, não tira o peso das onze horas de volante. Ligo o motor do ônibus, o chão vibra debaixo dos meus pés calçados nos sapatos pesados, e eu penso na noite em Maragogipe, minha mãe dançando no quintal, a água do tanque escorrendo entre os dedos dela.
        Saio da garagem e encaro o asfalto molhado da madrugada, os faróis recortando a neblina que sobe do Rio Pinheiros, os carros dormindo nos estacionamentos vazios. Na volta, antes da viagem das quatro e meia, vou parar no mesmo terminal, tirar os sapatos pesados, sentir o chão frio sob os meus pés. O chão que não precisa de permissão da empresa para me acolher, o chão que ainda guarda o eco dos passos da minha mãe, o chão que ninguém filma nem posta nem viraliza. Se o gerente não gostar, que me demita. Dançar dói menos do que não dançar.

 

 


INSPIRAÇÃO


 

    A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Márcia, ex-dançarina de boate nos anos 1990 e hoje motorista de ônibus noturno na Grande São Paulo, encontrou na dança dentro do terminal um alívio para o peso das onze horas ao volante. Seus passos de samba e forró, ensinados discretamente a colegas de trabalho, são filmados por um passageiro tímido e viralizam nas redes sociais. O que parecia apenas um momento de leveza se transforma em uma ameaça real de demissão por "desvio de função", forçando Márcia a escolher entre a paixão que a mantém viva e a única fonte de sustento que lhe resta. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “ Interior de um terminal de ônibus na periferia de São Paulo, madrugada, bancos de plástico azuis, bebedouro enferrujado, piso de concreto manchado. Uma mulher de uniforme dança descalça enquanto um cobrador mais novo tenta imitar seus passos rindo. No canto, um rapaz de camisa social amassada observa com o celular na mão. Luzes frias fluorescentes criam sombras duras no chão. Sensação de cansaço misturado com alegria contida, realismo cinematográfico, cores dessaturadas com exceção do pano amarelo na cintura da mulher. fotorrealista. Extremamente realista, 8K ." e obtive esse resultado.

 

 


 

 

Comentários

  1. Belo texto, ótima reflexão sobre a dualidade de escolher ente fazer o que se gosta ou sobreviver.

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  2. Samara Fernandes Leite5 de maio de 2026 às 14:57

    Ótimo, texto, meu amorzinho. Ansiosa pelos próximos.

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    Respostas
    1. Samara Fernandes Leite5 de maio de 2026 às 15:03

      A dualidade entre o nosso dever e o nosso ócio,mas que tudo seja feito com esmero e prazer.

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  3. Excelente conteúdo! Dá para ver o cuidado e a dedicação em cada detalhe. Parabéns por compartilhar conhecimento de forma tão clara.

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