''A memória não tanto produz, mas revela a identidade pessoal, ao nos mostrar a relação de causa e efeito existente entre nossas diferentes percepções.''
O ar no meu estúdio sempre cheirou a
ausência. Lavanda e silício. Como neuroarquiteto, eu, Leo, desfazia
paisagens mentais para clientes ávidos por novas habilidades. Via
memórias se materializarem como lugares: uma casa à beira-mar, um jardim
noturno. Minha tarefa era desfiar esses espaços íntimos, tijolo
emocional por tijolo, até sobrar somente o vazio contratado. Um pianista
trocou o rosto da mãe pelos prelúdios de Rachmaninoff; um CEO trocou sua
adolescência por algoritmos financeiros. Eles sempre saíam com os olhos
um pouco mais leves e um pouco mais mortos.
A descoberta
veiomediantee um gosto fantasma na língua, morango silvestre e
concreto molhado, uma memória alheia insistente. Rastreando os dados,
encontrei não a dissipação, mas um desvio elegante. Em um porão da
cidade, testemunhei o mercado: memórias destiladas em névoas prateadas,
vendidas como "vinhos vivenciais" para uma elite de paladares cansados. O
mercador Quércio, com seu rosto de pergaminho esticado sobre ossos
afiados, manuseava os frascos com dedos de aranha. Foi em sua coleção
que encontrei meu primeiro fragmento roubado.
Catalogado como
"Experiência 1147: Descoberta Primária", era um instante de minha
infância: a visão do quintal da avó sob chuva, o cheiro de terra
encharcada, o metal gelado de uma corrente cortando minha palma. Comprei
aquela sensação por uma fortuna e a reintegrei em uma sessão
clandestina. A memória voltou como afogamento: a chuva pesada, o musgo
escorregadio na borda do poço, o peso terrível na ponta da corrente. Mas
ela terminava no limiar, não mostrava o que eu trouxera à superfície, somente o terror puro que se seguira.
Tornei-me caçador de
meus próprios fragmentos. Encontrei o cheiro do pão de ló de minha avó
em posse de uma socialite, a textura do casaco de minha mãe vendida como
terapia. Cada peça recuperada apontava para o mesmo núcleo: o poço, o
momento do apagamento original. Quércio observava minha obsessão com
interesse profissional. "Os melhores núcleos vêm de arquitetos como
você", sussurrou ele, seus olhos negros refletindo minha imagem
distorcida. "Vocês escavam vosso próprio subsolo. Colhemos os
minerais."
A trilha digital levou-me a um servidor fantasma e
ao projeto "Fênix", um algoritmo que não somente armazenava, mas
recombinava memórias para criar novas experiências. No seu centro
pulsante, encontrava-se meu núcleo traumático, perfeitamente preservado.
Foi então que enfrentei Elias Vance, o fundador de nossa empresa, cujo
rosto outrora paternal revelou-se uma máscara de gesso. Em seu gabinete
no topo da torre, ele explicou com voz suave: "Seu evento do poço nunca
aconteceu, Leo. Foi uma implantação. Uma memória-semente que nós mesmos
inserimos. Seu trauma fundador é nossa obra-prima."
O vácuo
que senti então não foi raiva, mas o reconhecimento do nada. Toda minha
busca, minha nostalgia, meu senso de roubo, tudo era parte do roteiro.
Eu não era o caçador, mas a presa de armação perfeita. Vance sorriu,
gesto preciso. "A 'Fênix' precisa de núcleos autênticos. Você nos deu o
paradoxo perfeito: o trauma de ter sido esquecido. É a mercadoria
definitiva."
Deixei a torre naquela noite, mas não voltei
para casa. Parei em uma praça vazia, observando as luzes da cidade. Cada
janela iluminada podia esconder um consumidor de minhas sombras. Minha
infância era ficção, minha identidade um produto, meu vazio real somente porque sempre estivera lá. A corrente que puxei do poço na memória
implantada não trouxe nenhum segredo à tona, apenas me revelou a mim
mesmo, o último fragmento a ser negociado.
INSPIRAÇÃO

Adorei!
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