Pular para o conteúdo principal

MEMÓRIA RESIDUAL

 ''A memória não tanto produz, mas revela a identidade pessoal, ao nos mostrar a relação de causa e efeito existente entre nossas diferentes percepções.'' David Hume

    O ar no meu estúdio sempre cheirou a ausência. Lavanda e silício. Como neuroarquiteto, eu, Leo, desfazia paisagens mentais para clientes ávidos por novas habilidades. Via memórias se materializarem como lugares: uma casa à beira-mar, um jardim noturno. Minha tarefa era desfiar esses espaços íntimos, tijolo emocional por tijolo, até sobrar somente o vazio contratado. Um pianista trocou o rosto da mãe pelos prelúdios de Rachmaninoff; um CEO trocou sua adolescência por algoritmos financeiros. Eles sempre saíam com os olhos um pouco mais leves e um pouco mais mortos.

    A descoberta veiomediantee um gosto fantasma na língua, morango silvestre e concreto molhado, uma memória alheia insistente. Rastreando os dados, encontrei não a dissipação, mas um desvio elegante. Em um porão da cidade, testemunhei o mercado: memórias destiladas em névoas prateadas, vendidas como "vinhos vivenciais" para uma elite de paladares cansados. O mercador Quércio, com seu rosto de pergaminho esticado sobre ossos afiados, manuseava os frascos com dedos de aranha. Foi em sua coleção que encontrei meu primeiro fragmento roubado.

    Catalogado como "Experiência 1147: Descoberta Primária", era um instante de minha infância: a visão do quintal da avó sob chuva, o cheiro de terra encharcada, o metal gelado de uma corrente cortando minha palma. Comprei aquela sensação por uma fortuna e a reintegrei em uma sessão clandestina. A memória voltou como afogamento: a chuva pesada, o musgo escorregadio na borda do poço, o peso terrível na ponta da corrente. Mas ela terminava no limiar, não mostrava o que eu trouxera à superfície, somente o terror puro que se seguira.

    Tornei-me caçador de meus próprios fragmentos. Encontrei o cheiro do pão de ló de minha avó em posse de uma socialite, a textura do casaco de minha mãe vendida como terapia. Cada peça recuperada apontava para o mesmo núcleo: o poço, o momento do apagamento original. Quércio observava minha obsessão com interesse profissional. "Os melhores núcleos vêm de arquitetos como você", sussurrou ele, seus olhos negros refletindo minha imagem distorcida. "Vocês escavam vosso próprio subsolo. Colhemos os minerais."

    A trilha digital levou-me a um servidor fantasma e ao projeto "Fênix", um algoritmo que não somente armazenava, mas recombinava memórias para criar novas experiências. No seu centro pulsante, encontrava-se meu núcleo traumático, perfeitamente preservado. Foi então que enfrentei Elias Vance, o fundador de nossa empresa, cujo rosto outrora paternal revelou-se uma máscara de gesso. Em seu gabinete no topo da torre, ele explicou com voz suave: "Seu evento do poço nunca aconteceu, Leo. Foi uma implantação. Uma memória-semente que nós mesmos inserimos. Seu trauma fundador é nossa obra-prima."

    O vácuo que senti então não foi raiva, mas o reconhecimento do nada. Toda minha busca, minha nostalgia, meu senso de roubo, tudo era parte do roteiro. Eu não era o caçador, mas a presa de armação perfeita. Vance sorriu, gesto preciso. "A 'Fênix' precisa de núcleos autênticos. Você nos deu o paradoxo perfeito: o trauma de ter sido esquecido. É a mercadoria definitiva."

    Deixei a torre naquela noite, mas não voltei para casa. Parei em uma praça vazia, observando as luzes da cidade. Cada janela iluminada podia esconder um consumidor de minhas sombras. Minha infância era ficção, minha identidade um produto, meu vazio real somente porque sempre estivera lá. A corrente que puxei do poço na memória implantada não trouxe nenhum segredo à tona, apenas me revelou a mim mesmo, o último fragmento a ser negociado.

 

 




INSPIRAÇÃO

 
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente,  Leo, um neuroarquiteto que apaga memórias para liberar espaço mental, descobre que as lembranças deletadas são comercializadas no mercado negro. Em sua busca para recuperar fragmentos roubados de sua própria infância, ele se vê envolvido em uma conspiração que questiona a autenticidade de sua própria existência e o valor daquilo que consideramos mais íntimo.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 

A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “Cena do mercado negro de memórias: "Mercado negro clandestino de memórias no subsolo de uma cidade cyberpunk, mercador com pele semelhante a pergaminho manipulando frascos de vidro prateados e brilhantes, clientes experienciando memórias roubadas através de dispositivos de inalação, atmosfera sombria com tons de néon, fumaça e glitches digitais, expressões faciais detalhadas, sombras dramáticas" e obtive esse resultado.

 



Comentários

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...