Pular para o conteúdo principal

PORTA DO SONHOS



"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." H. P. LOVECRAFT


    Meu nome é James, e o concreto tem pulso. Não é metáfora. Coloco a mão na parede úmida do corredor B-7 e sinto: uma pulsação baixa e lenta, como um coração em hibernação enterrado na rocha. O ar cheira a ozônio e carne enlatada vencida há décadas. Os outros aqui,  os homens de jaleco branco com expressões de quem esqueceu a textura da luz solar, dizem ser a umidade nos tubos. Eu sei que mentem.

  Sinto o mesmo pulso no chão, nas vigas, na tampa do duto de ventilação acima da minha cama. Às três e quatorze da madrugada, sem falta, o duto range. Como se algo pesado e mole se arrastasse por ele, parando exatamente sobre meu peito. Fico imóvel, a respiração presa, ouvindo o silêncio carregado que vem depois. Um silêncio que escuta de volta.

  Os corredores aqui nunca terminam da maneira correta. Viro uma esquina que deveria levar ao refeitório e encontro a porta do Poço, aquele vão de manutenção proibido. A placa de “PROIBIDO O ACESSO” está riscada, e alguém escreveu por cima, com algo escuro e ressecado: “ELE OUVE”.

  Ontem, o sistema de som público, inativo há anos, sussurrou. Não eram palavras. Era o som de alguém tentando formar uma, com a língua presa e os pulmões cheios de líquido. Uma voz que conheci. A minha, mas antiga. Amedrontada.

  A umidade aqui é uma segunda pele, pesada e gelada. Os troncos das árvores se inclinam de maneira não natural, como se tivessem congelado no meio de um espasmo de dor. O ar cheira a flor podre e terra revolvida. O demônio da vila não se mostra. Mostra seus efeitos.

  Encontramos o primeiro membro do esquadrão, Carson, pendurado pelos tornozelos em um galho baixo. Seu rosto estava intacto, calmo. Abaixo da linha da mandíbula, porém, sua pele e músculos haviam sido removidos com precisão cirúrgica. Seus órgãos pendiam, limpos e brilhantes sob a luz das lanternas, ainda fumegando no ar frio. Não havia sangue no chão. Nenhum.

   Agora, andamos em silêncio. Qualquer som parece atrair a atenção dEle. Rickson, o ex-militar, pisou em um galho. O estalo ecoou como um tiro. Minutos depois, um sussurro veio da copa das árvores, à nossa direita. Era a voz de Carson, distorcida e infantil, cantarolando a canção de ninar que Rickson confessara, na noite anterior, que sua avó cantava.

  “Vem… brincar… nas… raízes…” Rickson não gritou. Seus olhos esbugalharam. Ele levou a arma à boca e puxou o gatilho. O estrondo nos deixou surdos. No silêncio ensurdecedor que se seguiu, o sussurro veio novamente, desta vez atrás de nós, satisfeito: “Obrigado.”

  O vácuo não tem cheiro. A Geryon sim. Um odor adocicado e metálico de carne aberta que impregna até o interior dos trajes. O sangue nas paredes não respingou. Escorre formando padrões geométricos precisos. Espirais que fazem os olhos doerem se observadas por muito tempo.

   Encontramos o diário do Dr. Argos. Suas últimas palavras, rabiscadas com força quase suficiente para perfurar o metal: “NÃO DORMIREM. O SONHO É A PORTA E A CHAVE. ELE ENTRA PELOS SEUS OLHOS FECHADOS.” Foi então que as portas começaram a se mover.

   A porta do depósito, à nossa esquerda, deslizou aberta sozinha com um silvo hidráulico. Lá dentro, somente escuridão. A porta do laboratório, atrás de nós, fechou-se com um baque surdo. O ar ficou pesado, carregado de estática.

   Do sistema de comunicação, uma voz gaguejou. Era um composto de fragmentos de todas as nossas vozes, unidas em um coro de agonia: “James… está… quaaase… pronto.” As luzes se apagaram.

   A lanterna do meu traje penetrou a escuridão viscosa. E então, do duto acima do corredor, algo começou a cair. Pedaços. Pedaços moles e úmidos que batiam no chão com um ruído baço. Eram órgãos. Ainda frescos, ainda palpitantes.

   Eles não caíam aleatoriamente. Rolavam. Se arrumavam. Formando um caminho que levava à escotilha do compartimento de escape.

   Dentro do compartimento, sentado na única cadeira, estava um homem de costas. O macacão era do Dr. Argos. A cabeça se virou lentamente, com um rangido de vértebras secas.

  O rosto não era um rosto. Era uma superfície lisa e pálida, como porcelana não pintada. Onde a boca deveria estar, a pele se distendeu e se rasgou em uma fenda úmida. Dela saiu não um grito, mas o som perfeitamente reproduzido do estalo do galho na floresta, seguido pelo tiro de Rickson, e então pelos meus próprios gemidos abafados no abrigo subterrâneo.

   A criatura se levantou. Seus movimentos eram erráticos, angulares, como um vídeo com quadros faltando. E começou a caminhar em minha direção, não pelo chão, mas pelas paredes, seu corpo contorcendo-se contra a gravidade com um som de osso quebrando e metal retorcido

   Não há mais transição. Estou aqui. O céu é um teto baixo de concreto do bunker, rachado, por onde crescem galhos negros da floresta, entrelaçados com cabos elétricos expostos que cospem faíscas azuladas. O chão é uma colcha de retalhos de metal da nave, terra da floresta e azulejos do laboratório. Tudo pulsando suavemente.

   As criaturas estão aqui. Não atacam. Somente executam. O Cientista-Sombra segue meus passos, anotando em uma prancheta. Sempre que paro, ele aponta para um objeto no chão: o galho que Rickson pisou. A trava arranhada da porta do abrigo subterrâneo. Uma ferramenta ensanguentada do compartimento de escape. Ele não fala. Seu julgamento está na precisão clínica de seu gesto.

  A Coisa das Raízes brota do chão, formando barreiras vivas que me direcionam. Seus galhos são entrelaçados com fios de cobre e tiras de uniforme. Dela escorre uma seiva pegajosa que cheira ao adocicado da Geryon.

  O Resgatador está sempre à distância, sua silhueta distorcida vista através do nevoeiro que emana dos dutos quebrados nas paredes. Ele segura uma lanterna. Às vezes, a luz pisca em um código que reconheço: o sinal de socorro da Geryon. Outras vezes, ilumina brevemente o caminho à frente, revelando portas que levam de volta ao bunker, à floresta, à nave.

   Portas que começam a se abrir sozinhas. Estou cansado. Meu corpo é um mapa de dores de todos os lugares. Sinto o frio do espaço nas juntas, a umidade da floresta nos pulmões, a pressão do subsolo nos ouvidos.

  E então, em um largo composto de todos os meus horrores, vejo uma figura sentada em uma cadeira de rodas de metal enferrujado. Ela está de costas. Seus cabelos são finos, brancos. Reconheço o casaco. É o mesmo que eu usava no consultório, na vida que talvez nunca tenha existido.

  A cadeira começa a girar lentamente. Os pneus rangem no chão de terra e metal. Não quero ver o rosto. Sabe-se lá o que ele se tornou. Viro para correr, mas minhas pernas não respondem. Estão enraizadas no chão, não por galhos, mas por cabos de fibra óptica que saem das minhas panturrilhas e mergulham na terra pulsante.

A cadeira para. A figura está agora de frente para mim. Levanta a cabeça. E eu… eu…




INSPIRAÇÃO

 
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente,  Em um espaço onde a lógica do mundo parece ter se rompido, um homem desperta preso entre ruínas de diferentes realidades. Cercado por vestígios tecnológicos e sinais de algo antigo e orgânico, ele tenta compreender onde está e o que ainda significa sobreviver. A atmosfera é silenciosa, opressiva e carregada de tensão. Algo observa, paciente, enquanto a verdade permanece fora de alcance.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei “Imagem hiper-realista, cinematográfica, como um frame de filme de terror psicológico e ficção científica: um homem solitário (James) em roupas civis rasgadas e sujas permanece no centro de um espaço interior impossível, onde um teto baixo de concreto brutalista cobre um chão de floresta antiga misturado a destroços de consoles de nave espacial e fungos bioluminescentes azul-esverdeados; a cena é envolta em névoa densa, com iluminação baixa e direcional, alto contraste e sombras profundas, enquanto figuras humanoides distorcidas, parcialmente fundidas a raízes, concreto e sombra, observam silenciosamente à distância, criando uma atmosfera opressiva, surreal e existencial. " e obtive esse resultado.
 
     
Você disse

O ChatGPT




Comentários

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...