Não importa onde você esteja, você sempre estará olhando para a mesma lua que eu. (Querido John)
Meu refúgio não era um lugar grandioso ou mágico aos olhos de qualquer outro. Era um jardim abandonado nos limites da cidade, onde as rosas cresciam com pétalas de vidro fino e sussurravam canções de ninar quando a lua as beijava. Foi entre essas belezas perigosas que o vi pela primeira vez.
Gabriel parecia deslocado, um ponto de interrogação humano em um mundo de exclamações naturais. Seus óculos repousavam sobre um nariz franzido em concentração, os olhos escuros por trás das lentes estudando uma trepadeira de jasmim-estrela, cujas flores pulsavam com uma luz suave. Seus cabelos negros e lisos caíam sobre sua testa, quase tocando a armação dos óculos. Ele não me viu, não imediatamente. Estava demasiado absorto a decifrar a música da flora.
Eu, acostumada a dançar entre os espinhos das rosas de cristal sem um arranhão, congelei. Ninguém encontrava este lugar. A magia do jardim escondia-o dos olhos desatentos. Mas o jovem de cabelos corvo não era desatento. Cada movimento seu era meticuloso, cada olhar, uma pergunta silenciosa. Ele ergueu finalmente o rosto e seus olhos encontraram os meus. O mundo parou. As rosas interromperam seu sussurro melódico. Nos seus olhos, vi o reflexo do meu próprio cabelo, uma coroa de cachos escuros e rebeldes que me valera, em outro tempo, o apelido de "a garota da tempestade". Ele não sorriu. Apenas inclinou a cabeça, como um estudioso diante de um novo fenômeno.
"Elas cantam em sustenido quando a brisa vem do leste", ele disse, sua voz mais suave do que eu esperava. Não era uma declaração, era uma oferta. Um pedaço de conhecimento trocado na soleira de um mundo secreto.
A partir daquele dia, o jardim tornou-se nosso. A morena dos cabelos cacheados e o estudioso de óculos. Eu lhe mostrava os segredos perigosos: as folhas de prata que cortavam como lâminas, o lago que refletia não o rosto, mas a alma de quem nele se debruçava. Ele, por sua vez, trazia livros de teorias que tentavam explicar a inexplicável física daquele lugar, suas anotações eram mapas de uma lógica aplicada ao ilógico.
Nossas mãos se encontraram pela primeira vez ao colher uma flor de lua, uma orquídea pálida que só desabrochava sob a luz astral e que poderia, se tocada com rancor, murchar instantaneamente. Seus dedos, longos e cuidadosos, envolveram os meus para guiar o movimento. Não houve choque, não houve fagulhas dramáticas. Apenas um calor, uma certeza silenciosa que se infiltrou na minha pele como a luz da lua nas pétalas. O toque do rapaz de cabelos de ébano era a antítese de todo o meu ser impulsivo, e por isso mesmo, seu equilíbrio tornou-se meu porto seguro.
O amor não veio como um furacão. Veio como o crescimento das raízes do salgueiro-prateado: lento, profundo, inquebrável. Aprendi a ler o cansaço nos seus ombros antes que ele pronunciasse uma palavra. Ele decifrava os meus silêncios, sabendo quando a tempestade interior ameaçava, e acalmava-a com uma simples pressão da sua mão sobre a minha. A maior magia não estava nas flores cantantes ou nas árvores que contavam histórias. Estava no modo como o mundo exterior, com suas regras rígidas e sua falta de melodia, desaparecia quando estávamos juntos. Ele, com sua mente analítica, não queria dissecar a magia, mas sim aprender sua linguagem. E eu, criatura daquele lugar, aprendi com ele a ver a poesia na precisão, a beleza num diagrama cuidadosamente desenhado num caderno.
Uma noite, sob o carvalho ancestral cujas folhas tinham veios de ouro, ele não trouxe livros. Somente ficou parado, suas lentes refletindo a luz das flores de vidro. "O jardim está ficando menor", ele sussurrou, e sua voz carregava um peso que me fez estremecer. Olhei em volta e a verdade atingiu-me como um golpe físico. As árvores na borda do claro estavam desbotando, tornando-se translúcidas. A magia estava se esvaindo. O refúgio que nos abrigara exigia um preço que não conhecíamos.
"É porque partilhamos o segredo", eu disse, o coração, um nó de gelo na garganta. "A magia de esconder-se morre quando é cobiçada." O olhar do meu amor não vacilou. "Não a cobiçamos. Nós a honramos." Ele tirou os óculos, limpando-os num gesto familiar antes de me encarar, seus olhos desprotegidos e intensos. "Talvez a magia não precise de um esconderijo, mas de um guardião. De uma razão para permanecer."
E então, o jovem de mente lógica fez a coisa mais irracional e perfeita. Ajoelhou-se não perante mim, mas perante o próprio jardim. E com as palavras simples e certas que só ele possuía, não pediu a minha mão. Pediu ao jardim que nos permitisse ser seus guardiões, a ponte entre o seu mundo de maravilhas e o mundo lá fora. Ofereceu não exploração, mas proteção. Ofereceu a nossa história como a semente para uma nova era.
As rosas de vidro tilintaram, uma sinfonia aguda e linda. As árvores que desfaleciam solidificaram-se, seus troncos ganhando uma cor mais profunda. O jardim não estava apenas aceitando; estava respondendo.
Quando ele se levantou e suas mãos encontraram as minhas novamente, não era mais o estudioso e a filha da tempestade. Éramos o primeiro verso de uma nova canção que as flores aprenderiam a cantar. E naquele toque, senti não somente o calor do amor, mas o pulso firme e eterno da própria magia, renascida.
INSPIRAÇÃO

Que lindo !
ResponderExcluirGab… que texto lindo, poético, imaginativo, cheio de alma e com uma estética que lembra Clarice misturada com fantasia moderna.
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