''A Realidade do Rio de janeiro Supera qualquer Ficção.'' Rodrigo Pimentel
Acordo com a sensação de que a noite me observa pelas frestas da janela, como se quisesse avisar que não terminou comigo. Escovo os dentes devagar, observando meu reflexo enquanto tento decifrar se o cansaço vem do corpo ou da alma. A água fria do tanque escorre pelos meus braços e sinto o choque térmico me acordar melhor do que café. A farda descansa sobre a cadeira como um convite e uma sentença ao mesmo tempo. Eu a visto peça por peça, sentindo o peso acumulado dos anos, lembrando que cada fiapo de tecido já carregou suor, medo, sangue e teimosia. Enquanto prendo o colete, penso no salário que mal acompanha o custo de viver, na falta de equipamento, nas decisões de quem nunca pisou num beco dizendo como devo entrar nele. E mesmo assim, algo dentro de mim insiste em seguir. Talvez seja loucura, talvez seja coragem. Talvez não exista diferença.
Quando chego ao quartel, o corredor exala café requentado e tensão recém-escondida. Andrade acena com a cabeça sem sorrir, o tipo de cumprimento que só quem vive na beira do abismo entende. Serafim alonga o pescoço, tentando aliviar a dor que carrega desde a última operação. Benício confere o armamento com movimentos rápidos, precisos, quase automáticos. Lopes observa a porta como se esperasse que ela explodisse a qualquer segundo. Nogueira testa a lanterna montada no fuzil, e a luz percorre o teto com a mesma inquietação que sentimos no peito. O comandante nos passa as informações, poucas e vagas, como sempre. Uma área dominada por grupos rivais, disputa por território, interesses que se misturam tanto que a polícia vira intrusa até quando tenta proteger. Sinto a irritação crescer enquanto ouço sobre ordens restritas, limites judiciais, protocolos que mudam conforme o vento político. E apesar de tudo, seguimos para a viatura, porque hesitar não combina com sobrevivência.
A comunidade nos recebe com silêncio desconfiado, como se o próprio chão tentasse avisar que algo ali já deu errado antes mesmo de sabermos. A viela estreita parece comprimir o ar, e a luz do sol mal se atreve a entrar entre as casas tortas. Crianças observam da janela, mães recolhem sandálias das portas, e alguns olhares nos atravessam como lâminas afiadas. O cheiro de comida velha mistura com o odor de óleo queimado, e sinto meus sentidos se aguçando de maneira automática. De repente, um disparo ecoa ao longe, um estouro seco que rompe o equilíbrio frágil. Em seguida, as rajadas surgem como enxame. Me jogo para trás de uma caixa d’água enferrujada, e os cartuchos saltam ao redor como pequenos fogos metálicos, ricocheteando no chão quente. Sinto a vibração dos impactos no corpo, e meu peito aperta com uma mistura de foco absoluto e medo ruminante que nunca desaparece.
O confronto se intensifica quando dois grupos armados surgem de lados diferentes, gritando ordens e insultos enquanto avançam pelos becos. Escuto alguém gritar para apagar os policiais antes que cheguem os blindados, e isso me diz tudo sobre o tipo de emboscada que enfrentamos. Andrade responde com disparos curtos, precisos, enquanto oferece cobertura para Lopes, que tenta assumir uma posição mais alta. Fragmentos de concreto caem sobre nossos capacetes. O ar fede a pólvora, suor e adrenalina. Pessoas gritam nas casas, algumas batem portas, outras chamam pelos filhos. A rua vira um organismo vivo, um caos pulsante onde ninguém controla mais nada. Quando uma garrafa com pavio aceso voa na nossa direção, eu puxo Benício para o canto e sinto o calor da explosão lamber o ar ao nosso lado. O estrondo ecoa nos meus ossos, e a fumaça densa me obriga a piscar várias vezes até entender por onde avançar.
A tentativa de recuar falha quando um grupo posiciona barricadas improvisadas na saída. Escuto risadas mescladas com desafio, palavras fortes que tentam nos desestabilizar, ameaças sobre corpos que não sairão dali. Minha mente corre mais rápido do que minhas pernas, avaliando cada canto escuro, cada janela que se move, cada sombra suspeita. Sinto meu coração batendo no estômago. Os tiros continuam, e cada disparo que faço pesa como se arrancasse algo de mim. Quando Serafim sofre um impacto no colete e cai de joelhos, corro em sua direção, pego-o pelo braço e o coloco atrás de uma mureta trincada. O barulho dos cartuchos quicando no chão se mistura ao som das sirenes distantes. Um artefato explosivo de fabricação caseira é lançado próximo de Nogueira, que, em um gesto ágil, chuta o dispositivo para longe antes de sua detonação. A explosão ergue poeira e gritos. Por um segundo, acho que não veremos o próximo minuto.
As horas se estendem como fios de arame farpado, cortando a resistência mental e física de todos nós. Minha visão treme quando tento mirar. As mãos de Lopes escorregam de suor. Benício respira como se carregasse o peso de uma parede nas costas. O sol desce e a comunidade fica mais perigosa, porque a noite oferece abrigo a quem conhece cada viela. Enquanto seguramos a posição com o pouco de munição que resta, penso na ironia cruel do sistema. A gente arrisca a vida em locais onde o Estado aparece só ocasionalmente, e mesmo assim somos cobrados por decisões tomadas longe da linha de tiro. Sinto uma raiva silenciosa ferver dentro de mim, uma raiva dirigida ao abandono, à desigualdade enraizada, à forma como cada cidadão ali paga por escolhas que não fez. E percebo que nós, policiais, somos somente mais uma peça frágil nesse tabuleiro torto.
Quando já quase não enxergo pela fumaça e do cansaço, o ronco profundo dos blindados chega como uma promessa. A vibração invade o chão, sobe pelos meus pés e sacode meus ossos. Os criminosos percebem o movimento e tentam um último ataque, mais desesperado que estratégico. Avançam com pressa, atiram sem mira, soltam gritos para nos desestabilizar. Puxo Serafim, que ainda mancando, tenta me dar cobertura. Sinto fragmentos atingirem meu braço, mas continuo avançando. O estrondo de uma explosão caseira perto da parede me faz cair de lado. O mundo gira por alguns segundos. A poeira sobe. A luz dos blindados corta o beco como um farol no meio de um naufrágio. Finalmente, o cerco se rompe. O barulho diminui. O silêncio surge como um animal raro, tímido, quase irreal. A exaustão cai sobre nós como uma lâmina fria. Meus homens se apoiam uns nos outros, respirando como quem volta de um lugar escuro demais.
Quando entro em casa horas depois, sinto minhas pernas hesitando como se ainda esperassem tiros atrás das paredes. Minha filha corre até mim com passos pequenos e rápidos, segura minha camisa e encosta o rosto no meu peito suado sem se importar com o cheiro de fumaça e rua. Abraço aquela vida pequena com todos os músculos do meu corpo, e pela primeira vez no dia meu coração bate sem medo. Minha esposa se aproxima com olhos que entendem o que nem eu consigo falar. O silêncio dela me devolve o equilíbrio que o mundo tentou arrancar. Eu os envolvo com os braços, sentindo o calor da família empurrar a guerra para fora de mim. E nesse instante sei que, por mais que a cidade tentasse me engolir inteira, era ali, naquele lar, que eu recuperava o que a rua tentava roubar.
INSPIRAÇÃO
REFERÊNCIAS
Filme Tropa de Elite: Lançado em 2007 e dirigido por José Padilha, o filme acompanha um capitão do batalhão de elite da polícia carioca designado para “pacificar” uma favela dominada pelo crime, enquanto lida com pressão pessoal, incluindo o medo de deixar a família desamparada, e o dilema moral da violência institucional. O enredo aborda cruamente a brutalidade das operações policiais, os conflitos internos dos agentes, a estrutura do tráfico e das milícias, a corrupção latente e o desequilíbrio social que impulsiona o crime, retratando o impacto humano da guerra urbana no Rio.

Ótimo, texto,amor.
ResponderExcluirAnsiosa para os próximos.
Excelente !
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