‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust Quando abri os olhos, o chão sob meus pés era feito de papel que se movia como areia viva. As letras tremulavam, escapando das páginas e flutuando no ar, formando constelações de tinta que giravam acima de mim. O ar tinha cheiro de capa antiga e maresia, como se o oceano houvesse se infiltrado na biblioteca. Cada respiração trazia um fragmento de história, e as palavras dançavam sob minha pele como pequenas centelhas de sentido. O horizonte, feito de volumes abertos, respirava comigo, pulsando como se fosse lido por alguma entidade invisível. Foi então que percebi: aquele não era um sonho, mas um universo tecido por narrativas, e eu, o intruso, caminhava sobre páginas vivas. “Gabriel.” A voz soou suave e firme, vinda de uma colina feita de volumes russos encadernados em couro e neve. Lá estava Samara , morena, de cachos revoltos como vírgulas que se recusavam a obedecer à sintaxe...
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