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Mostrando postagens de outubro, 2025

O REINO DAS PALAVRAS

  ‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’   Marcel Proust   Quando abri os olhos, o chão sob meus pés era feito de papel que se movia como areia viva. As letras tremulavam, escapando das páginas e flutuando no ar, formando constelações de tinta que giravam acima de mim. O ar tinha cheiro de capa antiga e maresia, como se o oceano houvesse se infiltrado na biblioteca. Cada respiração trazia um fragmento de história, e as palavras dançavam sob minha pele como pequenas centelhas de sentido. O horizonte, feito de volumes abertos, respirava comigo, pulsando como se fosse lido por alguma entidade invisível. Foi então que percebi: aquele não era um sonho, mas um universo tecido por narrativas, e eu, o intruso, caminhava sobre páginas vivas. “Gabriel.” A voz soou suave e firme, vinda de uma colina feita de volumes russos encadernados em couro e neve. Lá estava Samara , morena, de cachos revoltos como vírgulas que se recusavam a obedecer à sintaxe...

LINHAS DO PASSADO

 ''É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio.''  Henri Lacordaire        O sol da tarde entrava pela vitrine da pequena loja, iluminando o pó que dançava sobre os rolos de linho e seda. Minhas mãos, calejadas por anos de agulhas e tesouras, trabalhavam num vestido de noiva encomendado para o sábado. A costura era meu refúgio, o ponto reto que mantinha minha vida em ordem. Procurei na caixa de utensílios antigos da vovó Anita uma agulha mais fina para o véu. Encontrei uma, enferrujada e curiosa, guardada num estojo de madeira desgastado. Ignorei o aspecto e a usei para cerzir um pequeno rasgão no forro.      Assim que a ponta de metal perfurou o tecido, um calafrio percorreu minha espinha. O cheiro de terra molhada após a chuva encheu minhas narinas, substituindo o aroma do café. Ouvi risos infantis, nítidos e próximos, e por um instante vislumbrei um jardim verdejante onde minhas paredes deveriam estar. A agulha esc...

MEMÓRIA DE VIDRO

  ''A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem.'' -  Epicuro        Sopra vento metálico pelas ranhuras da cidade enquanto eu me aproximo da varanda. Lá embaixo, a iluminação pública desenha um mapa de manchas alaranjadas sobre o concreto. Respiro o cheiro de ozônio que sobe dos trilhos e lembro do último riso da minha filha. O som corta como lâmina. A memória vira punhal e eu aperto os dedos no corrimão até a pele doer.      Minha mão não treme quando eu começo. Não escrevo código; moldo histórias. Entro nos arquivos de uma mente como quem entra numa casa abandonada, abrindo gavetas, trocando fotos de lugar, deixando bilhetes que só ela encontra. Não explico como atravesso a defesa dos implantes. Não interessa ao que resta de humanidade saber os passos; interessa que entro, encontro a verdade que carrego no peito e a torço até virar arma.      Ele pertence ao topo d...

O CICLO INVERTIDO

 ''O horizonte está nos olhos e não na realidade.''   A. Ganivet           O mar respirava em ondas densas, carregando o sal que grudava na pele e fazia os lábios arderem. Elisa girava o copo de vidro entre os dedos, o gelo derretendo devagar, como o fim das férias. Ao redor, as vozes se misturavam ao violão e ao crepitar da fogueira que cuspia faíscas contra o vento morno. O sol descia preguiçoso, pintando de cobre o rosto dos que observavam em silêncio. Era um fim de tarde tão perfeito que ninguém ousava falar mais alto que o mar.      Quando o disco de fogo tocou o horizonte, algo se quebrou na ordem natural do instante. Um lampejo percorreu o oceano, distorcendo o reflexo das ondas, e o pôr do sol hesitou, como se esquecesse de morrer. Então, diante dos olhos incrédulos, o astro começou a subir. As nuvens se desfizeram em espirais invertidas, sugadas pelo próprio brilho. As sombras correram de volta às pessoas, costurand...

ECO DAS CHAMAS

 ''Nada paralisa mais a imaginação que o apelo à memória.''   Stendhal        Chovia quando alcancei a rua de pedras que levava à casa. A neblina, espessa como lembrança, se erguia diante de mim, e o ar exalava um cheiro amargo de madeira queimada. Caminhei devagar, cada passo pesado pela certeza que tentava negar. O portão, outrora pintado de verde, estava retorcido, enegrecido pelas chamas que haviam devorado o que um dia fora meu refúgio. Aquele lugar, onde o tempo parecia adormecer, agora era somente cinza e sombra. Ainda assim, avancei; havia deixado algo lá dentro: não um objeto qualquer, mas um pedaço de mim que o fogo não poderia apagar.      O vento assobiava entre as janelas quebradas, e eu quase podia ouvir risadas antigas misturadas ao estalar dos restos carbonizados. Cruzei o que restava da varanda, e o piso cedeu levemente sob meu peso. O cheiro de fuligem me envolveu, e senti os olhos arderem. Lembrei...

O REINO DAS DUAS LUAS

  ‘’As pessoas sempre fazem coisas malucas quando estão apaixonadas. ‘’ Meg        Sob o céu púrpura de Elandor, um reino mágico onde ambas as luas brilhavam como sentinelas do destino, vivia Samara, uma jovem de cabelos cacheados cor de noite e olhos castanhos que refletiam a luz das estrelas. Dotada do dom raro da Luz da Terra, ela possuía a habilidade ancestral de conversar com a natureza, despertar plantas adormecidas e curar feridas com um simples toque. Sua presença era como a brisa quente de um amanhecer, trazendo esperança em tempos de escuridão. Ao norte, em uma vila cercada por pinheiros eternos, morava Gabriel, um rapaz de pele alva, cabelos negros e óculos de cristal lunar que ampliavam sua visão mágica. O jovem era mestre na Arte dos Ecos, um poder mental que lhe permitia manipular sons e vibrações, criando ilusões ou desferindo ondas sonoras capazes de derrubar muralhas. Diferente da curandeira, sua força estava na estratégia, na precisão e...