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O PINCEL RESPIRA

 ''Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma.''  George Bernard Shaw

    Rafaela observava o relógio de ponteiros grossos no alto da parede enquanto pintava o último traço azul-esverdeado sobre a tela branca que repousava sobre o cavalete. Ela suava um pouco, os dedos manchados de tinta, a respiração pesada. Ao lado, Miguel ajeitava o rolo de lona no chão, pressionava os pés na madeira dura e observava. Eles disputavam a bolsa de residência artística da Casa Almeida Silva. Vitória garantia visibilidade internacional, exposição no exterior, convites e bolsas comissionadas para projetos. Perder custaria a Rafaela ficar invisível durante anos, seria mais tinta desperdiçada, cadernos em branco. Miguel pensava parecido, embora fingisse desprezo.

    Miguel lançou um risinho contido quando viu a aliança de ouro no dedo de Rafaela. Tanto esforço para pintar flores imortais, dizia, e ainda presa a símbolos comuns de casamento. A pintora sentiu a faca do comentário atravessar-lhe o peito, mas continuou pintando. A casa lotava de sons, pincel tocando tela, papéis sendo virados, respingos secos de tinta no alfinete colocado na gola da bata. Eles pisavam o chão pontilhado de lama por chover a madrugada inteira. A artista percebeu uma mancha turva no azul que deveria brilhar limpo.

    Ela murmurou para si: Ambição exige sacrifício, diziam os livros antigos. O concorrente respondeu alto: alguns sacrifícios ficam baratos quando voltam em aplausos. As palavras dele ecoaram no salão cúmplice. A jovem parou, respirou fundo, viu as gotas de pigmento se misturarem e escorrerem. O pincel tremia em sua mão. Havia pensado em desistir se o rival vencesse, se julgasse que todo aquele martírio não servia para nada.

    O rapaz recobrou o quadro que a competidora deixara abandonado algumas horas antes, carregou sob o braço, observou cada detalhe. Versos riscados no caderno dela falavam de noites mal dormidas, de esperas por reconhecimento. O pintor sorriu, achou graça na melancolia da oponente. Ele próprio ignorava lágrimas guardadas nos pincéis.

    Quando o prazo da entrega espreitou, a criadora varreu a tinta com a palma da mão, limpou o rosto sujo, esperou o sol se infiltrar pelas janelas altas. Ela sabia que a bolsa valia não só troféus, valia prestar conta no espelho. E o artista sabia também que, se ganhasse, suas telas viajariam longe, mas talvez pagasse um preço invisível: perder-se na vaidade.

    No dia do resultado, a sala encheu-se de rostos tensos. A mulher sentou-se perto da porta liberada, apalpou o envelope com as mãos úmidas. O competidor cruzou os braços, afastou o olhar do público. O diretor leu os finalistas. A aspirante sentiu o coração rachar quando não ouviu seu nome. O jovem estremeceu, pensou que tinha vencido. O apresentador chamou outro nome, alguém que não era nenhum dos dois rivais principais. O nome soou estranho, quase desconhecido.

    Silêncio pesado. A pintora parou de respirar. O rapaz arregalou os olhos. Chamaram a terceira candidata, Vanessa, jovem tímida de olhar assustado. A estreante tremia. Fizera uma colagem de imagens antigas, pinceladas de improviso, costuras sobre telas rasgadas, perfumadas de chuva e memórias. A novata chorou, sorriu. Não acreditava.

    A competidora sentiu uma fúria morna subir-lhe pelo peito. O desafiante sentiu um alívio estranho. Ele sorriu somente porque não quis demonstrar que desapontava-se consigo mesmo. A vencedora subiu ao palco com paleta na mão, o público bateu palmas. A mulher pensou: ambição que consome não deixa espaço para sonho porque sonho exige humildade. O rapaz, olhando para a nova premiada, percebeu que fora tão concentrado em superar a rival que esqueceu de criar algo genuíno.

    Na volta para casa, a artista calçou os sapatos gastos, o concorrente vestiu o casaco escuro. A jovem laureada fingia chorar detrás da cortina luminosa da galeria. A pintora mantinha o olhar fixo no céu escuro, nas luzes acesas nos prédios. O desafiante notou uma rua molhada, reflexos tremendo nas poças. Pensou que talvez os reflexos espelhassem as ambições desordenadas de quem busca valor somente em troféu.

    Dias depois, a criadora revisitou sua tela abandonada, limpou o azul-escuro e recomeçou o traço mais suave, mais dela. O artista destruiu parte de sua pintura perfeita, tirou as camadas que mais se orgulhava, mas ficou sem saber o que pôr no lugar. A recém-premiada? Essa continuou a pintar de madrugada, colagens respiravam vida, sua filha namorada de uma tia, seu medo, alegria, memórias que ninguém solicitou.

    No espelho da competidora refletiam-se olhos diferentes: menos exigentes com os outros, mais honestos com si mesma. O rival tocou a tela apagada, lembrou-se do eco de aplausos que buscara, descobriu que esse som não enchia o peito. A jovem coroada sorriu, ofereceu a tela ardente ao júri, ofereceu-se inteira.

 


 

 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto é recente, Em meio à preparação para uma importante seleção artística, dois pintores trabalham lado a lado, cada um devorado por desejos de reconhecimento e medo do fracasso. O ateliê torna-se um campo de tensão silenciosa, onde cada traço revela ambições, inseguranças e a busca por um valor que vai além de prêmios ou aplausos.

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei ''Uma galeria iluminada por claraboias, com piso de concreto polido, abriga três artistas diante de suas obras. A figura central, vestindo avental manchado de tinta e expressão intensa, encara o vazio da sala; à esquerda, um homem observa uma pintura abstrata de tons azuis; ao fundo, uma jovem tímida se posiciona próximo a uma colagem repleta de texturas e cores, todos envolvidos por uma luz suave que destaca o contraste entre suas emoções. "e obtive esse resultado. 

 





 

    


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