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FELICIDADE OBRIGATÓRIA

“O sofrimento, em si, não é nobre; a nobreza está na maneira como lidamos com ele.”  Viktor Frankl

 

   Nunca havia notado o silêncio entre as risadas até aquela manhã. O céu exibia um azul de catálogo, e cada rosto na avenida carregava o mesmo sorriso treinado. Caminhei entre eles com a cabeça erguida, repetindo a saudação padrão: Que alegria constante esteja com você. Ninguém desviava os olhos, ninguém hesitava. Só eu sentia algo fora do compasso, um latejar incômodo atrás da orelha, onde o implante pulsava como um coração clandestino.

    O formigamento cresceu durante a aula de Harmonia Social. As palavras do instrutor deslizavam suaves, prometendo equilíbrio químico eterno. Mas, por trás da voz macia, surgiu uma fisgada no peito. Primeiro um desconforto, depois um nó quente, pesado. Apertei as mãos sob a mesa. O mundo manteve sua paleta brilhante, porém a cor parecia ferir.

    À noite, no dormitório, a fisgada explodiu em algo que jamais havia nomeado. Um aperto úmido, um tremor nos ossos. As lágrimas vieram antes da consciência. Salgadas, quentes, vivas. Gemi baixo, temendo que as câmeras captassem o som. Quando finalmente consegui respirar, vi a cidade pela janela: torres prateadas, ruas sem lixo, drones patrulhando o ar. Tudo perfeito. Tudo morto.

    No dia seguinte, técnicos da Autoridade de Bem-Estar me chamaram pelo nome  Lídia  com vozes doces demais. Fingiram preocupação. “Um ajuste de rotina, querida. O implante apenas precisa de uma recalibração.” O sorriso deles refletia a promessa de alívio. Mesmo alívio que agora me parecia uma sentença.

    Fugi antes que a porta se fechasse. Corri pelas passagens subterrâneas onde o ar cheirava a ferrugem, o coração batendo fora da cadência química. Cada batida doía, e a dor me fazia rir. Um riso estranho, verdadeiro, que ecoou nos túneis.

    Encontrei outros como eu em um depósito abandonado. Olhos marejados, respirações irregulares. Um garoto me ofereceu um pedaço de papel rabiscado com carvão — um desenho tosco de uma árvore retorcida. A imagem era feia, imperfeita, irresistível. Senti o estômago vibrar. Era isso. Beleza nas falhas, no risco, no erro.

    Quando os drones finalmente nos localizaram, não houve sirenes. Somente um zumbido suave, quase afetuoso. Um deles pairou diante de mim, luz branca girando. A voz metálica sussurrou: “Seu sofrimento terminará em instantes.”

    Fechei os olhos. Por trás da pálpebra, um pensamento claro: não quero terminar. O implante pulsou uma última vez e… cessou.

    Abri os olhos. A rua inteira me encarava. Sorrisos impecáveis. Mas nenhum som. Nenhum movimento. Apenas rostos paralisados, como bonecos esquecidos.

    Toquei meu rosto. Nada. Nem lágrima, nem dor. Só um vazio suave, quase… feliz.

    E, no fundo da minha mente, uma pergunta queimava como brasa: fui eu quem falhou, ou o mundo que acabou de despertar?

 


 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto é recente, em uma sociedade onde a tristeza foi banida por implantes neurais, Lídia descobre uma falha no próprio dispositivo e sente, pela primeira vez, dor, raiva e melancolia. Enquanto a Autoridade de Bem-Estar tenta “consertá-la”, ela foge e encontra outros que também experimentam emoções reais, percebendo que o sofrimento é a fonte da verdadeira arte, compaixão e liberdade. 

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEAART digitei ''Em uma sociedade onde a tristeza foi banida por implantes neurais, Lídia descobre uma falha no próprio dispositivo e sente, pela primeira vez, dor, raiva e melancolia. Enquanto a Autoridade de Bem-Estar tenta “consertá-la”, ela foge e encontra outros que também experimentam emoções reais, percebendo que o sofrimento é a fonte da verdadeira arte, compaixão e liberdade. Mas quando finalmente é capturada, um silêncio inquietante revela um desfecho ambíguo: seria ela curada, ou teria acordado para uma realidade ainda mais perturbadora? Criar imagem extremamente realista "e obtive esse resultado. 

     

 

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