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Mostrando postagens de agosto, 2025

CORAÇÕES EM ÓRBITA

 ''Como são sábios aqueles que se entregam às loucuras do amor!''   Jo. Cooke      O motor da nave vibrava com uma intensidade que fazia meu peito estremecer, como se cada batida fosse um aviso de que a noite cósmica não nos daria tréguas. O espaço diante de nós parecia quieto demais, um lago sereno que escondia criaturas famintas nas profundezas. Gabriel, ao meu lado, inclinava-se com seu jeito inconfundível, carregado de uma autoconfiança quase insolente, como se o próprio universo fosse apenas mais uma pista de corrida à espera de sua ousadia. Os olhos dele faiscavam como estrelas famintas, prontos para rasgar qualquer limite. Conhecia-o o suficiente para perceber que a calma aparente só o excitava, pois o piloto mais rápido da galáxia vivia em busca de tempestades.      Samara Fernandes, com sua postura firme e calma de cirurgiã, dominava os painéis médicos e auxiliares, os dedos finos dançando entre cálculos e diagnósticos como se manu...

TEOREMAS DO CAOS COTIDIANO microcontos

           ''Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.''  Albert Camus        Um buraco na rua engoliu a roda dianteira do carro de Dona Marta. O guincho demorou 4 horas. Ela perdeu a consulta com o dentista. O dentista, sem ninguém para atender, foi almoçar e comeu um camarão estragado. Passou mal e cancelou todos os outros pacientes. Um desses pacientes era o cobrador do prédio de Dona Marta, que, sem ter como pagar a conta do dentista, aumentou a taxa condominial. O buraco, impassível, continuou lá, consumindo almas e pneus.            Paulo postou uma foto naquele novo bar hipster, marcando o local. "Momento de descontração! #VibesBoas". Na mesma hora, seu chefe curtiu a foto. O suor frio escorreu por suas costas. Ele havia inventado que estava com uma virose. Passou a noite inteira criando mentiras elaboradas no grupo do trabalho, enquanto seus amigos genuínos riam da piada que ele ...

COMBUSTÍVEL DO MEDO

 ''A alma não tem segredo que o comportamento não revele.''  Lao-Tsé      Há vinte e cinco anos exerço meu ofício com precisão impecável. O reconhecimento pelo meu trabalho, confesso, me seria gratificante, mas escolhi viver na sombra, numa existência de aparente anonimato. No entanto, basta abrir qualquer jornal: meu nome surge na primeira página, repetido como um eco inevitável. Indiretamente, sou famoso, não por mim, mas pelas circunstâncias, pelos outros. Talvez você, leitor, tente agora adivinhar em que ramo atuo. Cinema? Política? Música? Sorrio diante dessa dúvida. Nada disso me parece suficiente para moldar a fama verdadeira. Minha vida sempre oscilou entre a margem e os holofotes, entre a escuridão e a luz crua que ilumina somente o que precisa ser visto.      Meu pai, Harry¹, foi meu primeiro mestre. Ex-militar, rígido, exigente. Ensinou-me a rastrear, a caçar, a despedaçar presas sem deixar vestígios. Sua disciplina era absoluta. Dizi...

FRAGMENTOS DA IDENTIDADE

  ''A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.''  Marcel Proust           O copo caiu da beirada da mesa e rolou pela borda, como se obedecesse a uma coreografia, mas não se quebrou. Silas o pegou ainda quicando, os dedos firmes no vidro molhado. O barulho seco da madeira no chão da cozinha ecoou como um aviso que só ele ouviu. Sentiu a pele do braço arrepiar, não pelo acidente evitado, e sim pela frequência com que esses episódios se repetiam. Chuva torrencial na rua e sempre havia um táxi vazio na hora exata. Portas emperradas cediam com um toque. Pedras na calçada nunca o faziam tropeçar. Ele percebia o padrão, embora fingisse não perceber.           No início, a sensação veio como um consolo. Depois do acidente na fábrica, as contas se empilhavam e a sorte repentina parecia um presente. Um chefe de oficina que des...

FRAGMENTOS DE MIM

''A memória é um labirinto onde os fantasmas do passado nos sussurram segredos distorcidos." Carlos Ruiz Zafón        O asfalto da estrada ardia sob o sol, e o calor subia em ondas que embaralhavam a paisagem. Meus passos eram o único som que resistia no silêncio daquele lugar. No bolso, uma fotografia antiga e amassada, mostrando o rosto de uma senhora que nunca vi pessoalmente, mas que, segundo me disseram, ainda me conhecia. Ela era a última pessoa que lembrava que eu existia, e a cada quilômetro, o medo de chegar tarde demais pesava mais do que a mochila nas minhas costas. O vento seco trazia cheiro de poeira e mato queimado, como se o mundo estivesse se desfazendo antes de mim.      A cidade onde ela vivia parecia suspensa no tempo. Ruas estreitas, calçadas rachadas, portas descascadas. O cheiro de terra úmida se misturava com o de pão amanhecido vindo de uma padaria adormecida na esquina. Caminhei devagar, tentando adivinhar qual seria a casa d...