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Mostrando postagens de julho, 2025

QUANDO O TEMPO SE DOBRA

  ‘’As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.’’ Leonardo da Vinci     Gabriel e Samara. Dois nomes que, à primeira vista, não pareceriam destinados a cruzar linhas temporais ou impedir o fim da humanidade. Mas ali estávamos, no limite do real e do impossível, movidos por pulsos diferentes, mas perfeitamente sincronizados. Ele, jurista e historiador, olhos escuros como manuscritos queimados, mente treinada para destrinchar tratados antigos e interpretar silêncios entre linhas. Ela, médica de urgência, obcecada por física quântica nas madrugadas, mergulhada no estudo de partículas que dançam quando não são observadas. Quando o tempo começou a ranger, fomos os primeiros a ouvir. E os únicos a entender. Tudo começou com falhas discretas: relógios parando por três segundos exatos, pacientes em coma murmurando fórmulas, campos eletromagnéticos pulsando em harmonia com batimentos cardíacos. Enquanto os outros descartavam como coincidência, vimo...

MANUAL DE AUTODESTRUIÇÃO HUMANA

"O homem pós-moderno trocou Deus pelo terapeuta, a alma pelo bem-estar e a transcendência pelo consumo." Luiz Felipe Pondé        Caí aqui não por escolha, mas por falha mecânica. Minha nave, um modelo de infiltração orbital sombra, perdeu a propulsão sobre um amontoado de concreto e vaidade chamado Campinas. Um pouso de emergência num estacionamento de mercado ecológico me garantiu o anonimato. Ninguém estranhou. Afinal, os humanos agora aceitam qualquer coisa que pareça “conceitual”. Adotei forma humana, uma figura baixote, cinzenta, olhos protuberantes, com a boca eternamente moldada numa linha fina de sarcasmo silencioso. Tinha algo de familiar com aquele antigo simulador intergaláctico de conquistas planetárias que joguei por tédio durante minha formação militar¹. Se encaixava perfeitamente aqui.      A primeira impressão foi desconcertante: pelas ruas, carrinhos de bebê deslizavam em calçadas esburacadas. Mas não havia bebês. Somente cães. Pe...

A TROCA

"A memória é um caderno cujas páginas são reescritas por mãos alheias.'' Gabriel García Márquez                O cheiro de óleo queimado ainda grudava nas minhas narinas semanas depois do "milagre" na subestação. O médico chamou de sorte, mas eu sabia que era outra coisa. Começou com pequenos deslizes, coisas que meu corpo fazia sem minha permissão. O café, sempre preto e forte, de repente adoçado por mãos que não pareciam minhas. O sabor me enojou, mas uma onda de calor percorreu minhas veias, como se algo dentro de mim estivesse se alimentando daquele açúcar. Joguei o líquido fora, convencido de que era somente estresse pós-traumático. Então veio o violão.           Encontrei o instrumento velho no sótão, empoeirado e esquecido. Nunca toquei na vida, sempre odiei música. No entanto, quando o peguei, meus dedos se moveram com uma familiaridade assustadora. Um acorde dissonante ecoou pela casa, e eu o soltei co...

PULSO EM FUGA

 ''Todas as grandes mudanças são como a morte.''   Michael Crichton      Meu nome é Kael Verno, e se você está ouvindo isso, ou lendo, ou sonhando comigo, é porque meu coração ainda insiste em bater. Não sei por quanto tempo mais. Ele é teimoso, feito eu. Ele pulsa com um propósito estranho, doente, como se estivesse preso a uma máquina invisível que só funciona sob ameaça .      Vivo porque preciso. Porque o sangue só corre quando há medo. Na República de Hysia, viver virou um jogo, um ritual de dor, e toda vez que fecho os olhos sou arrastado de novo para dentro dele. Porque a memória, ao contrário da morte, não cessa nunca. Não há como escapar do que nos moldou. E eu fui moldado sob aço, suor e correria. Fui moldado sob o olhar atento de um chip que não me pertence, inserido no fundo do meu crânio antes mesmo que eu soubesse meu nome completo .      Era assim com todos nós. Aos três anos, uma seringa comprida...

ÀS MARGENS

''Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.''  Mahatma Gandhi      Todo dia quinze eu volto lá. Sempre sozinha, sempre sem avisar ninguém. Não é ritual  pelo menos não daqueles que têm regra. É só um chamado mudo, como quando você escuta seu nome dentro da água, mesmo sem som. Desde aquela vez, meses atrás, quando entrei por acaso naquele portão gasto e achei o lugar. Ou talvez o lugar tenha me achado. Nem sei dizer.      É um espaço pequeno, escondido entre duas construções, no fundo do campus antigo. Nem parece da universidade. Um tanque raso, um banco de pedra, árvores que largam sombra como quem cuida. Tem dias em que o sol nem chega ali direito. Só paira por cima, como um olho fechado. Eu sento, abro o livro que carrego  o mesmo desde o começo do semestre  e leio. Mesmo quando não entendo, eu leio. Algumas páginas são secas, duras. Outras, quase úmidas de tanto que mexem dentro. Tem uma marcação na borda de uma delas: “nem...

CÓDIGO DO CAOS

  ‘’As pessoas sempre fazem coisas malucas quando estão apaixonadas.’’ Meg (Hércules)     A cidade arde. Umidade ácida escorre pelos cabos que serpenteiam os prédios, e a chuva — preta, oleosa — tamborila no capacete como dedos de um deus entediado. Nas placas de LED, rostos mortos piscam propaganda de órgãos cultivados em laboratórios clandestinos. Alguém grita, longe, e ninguém responde. Neon azul reflete no chão coberto de sangue seco e silicone esmagado. O caos não é novidade. Mas essa noite, o fim tem nome: K-99. Samara entra no beco como quem invade um código — fluida, decisiva, pronta pra quebrar o mundo se precisar. O cabelo, preso em um nó alto, brilha molhado sob a luz púrpura. Ela segura duas ampolas entre os dedos com a delicadeza de quem equilibra explosivos sentimentais. A máscara no rosto não consegue esconder o sorriso curto, clínico. Sabe que vamos correr. Sabe que talvez a gente morra. Mesmo assim, ela sorri. — Tem um drone atrás de você — diz...