''Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.''
Toda sexta-feira é igual. Acordo mais cedo do que o habitual, tomo o mesmo café requentado, encaro o mesmo trajeto sufocante de duas horas até o trabalho. Não reclamo, ao menos não em voz alta. Atuo em algo razoável, ganho o suficiente para manter uma vida estável e me sustentar sem dívidas. Sou solteiro. Minha única companhia é a música repetitiva como os dias e um hamster marrom com branco que me observa com seus olhos minúsculos e vivos, animando meus momentos de esgotamento. Vivo a rotina sem desvios. Os dias passam como arquivos duplicados, sobrepostos até que todos se tornem cópias uns dos outros. Estou preso a um ciclo cinzento, arrastado pela corrente de uma existência medíocre.
Foi em um sábado à tarde, após uma semana particularmente pesada, que algo incomum aconteceu. Deitado no sofá, com as luzes apagadas e os olhos semicerrados, recebi um e-mail marcado como spam. O título, agressivo e direto, saltava diante da visão cansada: "Cansado da sua vida medíocre? Venha conhecer nosso projeto e viver de verdade somente uma vez. IMPORTANTE: leia o contrato e as letras pequenas." Abri. Não sei bem por quê — talvez por curiosidade, talvez por desespero. Na tela surgiu um pôster digital com estética militar futurista, anunciando o Exército Interdimensional. Os salários eram astronômicos. Os benefícios, inacreditáveis. Mas duas cláusulas vinham em letras miúdas no rodapé, quase desaparecendo: a morte em missão resultaria em falecimento real; e o tempo passado em campo alteraria gradualmente a estabilidade geográfica da Terra. Havia ainda um limite: cinco mil horas de serviço, ou algo cederia. Não hesitei. Apertei o botão verde que piscava no canto inferior direito.
Em segundos, fui transportado para outro lugar. Não houve transição apenas um apagão súbito e o despertar em um centro de operações de aparência estéril e mecânica, onde tudo cheirava a metal e carne moída. Imediatamente começaram os procedimentos. Fui despido da minha identidade civil, reduzido a um número, uma função, um propósito. Meus olhos passaram por correções a laser; enxergar passou a significar mais do que distinguir formas agora eu via espectros, ondas, partículas. Minha pele foi recoberta por uma película bio-cerâmica, resistente e camaleônica, capaz de suportar temperaturas extremas e se adaptar ao ambiente. Implantes internos ampliaram minha resistência, força, velocidade e tempo de reação. Recebi um chip neural que conectava meu cérebro a cada músculo com precisão total. Me tornei, enfim, um sistema um hardware humano rodando um software de guerra.
Idiomas deixaram de ser obstáculos. Por meio de implantes linguísticos, fui capacitado a compreender e comunicar qualquer idioma, código ou dialeto, até mesmo inscrições ancestrais ou padrões vibratórios primitivos. Dispositivos sensoriais garantiam que minha vigilância jamais vacilasse; ao menor sinal de ameaça, estímulos elétricos me preparavam para o combate, mesmo em repouso. Por fim, fui exposto a um gás alegadamente anestésico — que, na realidade, introduzia compostos neuromoduladores em meu organismo. Eram projetados para suprimir qualquer impulso de desobediência, incutindo obediência e um nacionalismo programado, absoluto. Um soldado que odeia sua pátria é um erro que o sistema não aceita. Era mais eficaz nos transformar em cães leais, ainda que despidos de alma.
Minha missão inaugural foi em um planeta chamado Lunar Estrela V. O nome, poético, não refletia a brutalidade do lugar. Um mundo de topografia mutante, onde a gravidade oscilava entre a pressão esmagadora e a leveza sufocante. As paisagens se transformavam conforme o ciclo rotacional: florestas metálicas ao amanhecer, desertos congelados ao entardecer, rios de areia viva à noite. Criaturas aladas dominavam céu e terra; eram hostis, velozes, implacáveis. Durante o pouso, perdemos o capitão em um ataque aéreo. Ele nem teve tempo de gritar. Lá, aprendi minha primeira lição: não se deve verter lágrimas por um companheiro abatido. Sentir é perda de tempo; honrá-los é continuar lutando e enviar as criaturas de volta ao inferno de onde emergiram.
Terminei aquele primeiro dia pintado de vermelho como Carrie no baile. Escoriações, fraturas leves, o ouvido esquerdo surdo por dias. Mas sobrevivi. E isso bastava. As missões seguintes foram uma escalada de horror e complexidade. Fomos enviados as realidades onde o tempo era líquido e escorria pelas fendas das montanhas, enfrentamos entidades que existiam somente em estados de transição, resgatamos aldeias humanas que haviam sido sequestradas e transladadas para servirem de oferenda em rituais de civilizações extratemporais. Aprendemos a manipular portais, a lutar em silêncio, a respirar atmosferas saturadas de ferro incandescente. A dor deixou de ser limite. O medo foi extinto.
No fim, restávamos somente cinco. O contador em nossos chips marcava 5.014 horas. Havíamos excedido o limite. Quando regressamos à Terra, não sabíamos mais o que encontrar. Mas não estávamos preparados para o que vimos. A realidade se fragmentava diante de nossos olhos. Os céus estavam rachados, como se o próprio tecido do mundo estivesse se rompendo por dentro. Cidades inteiras desapareciam em abismos gravitacionais. O tempo, antes linear, agora vacilava: bebês nasciam e faleciam em segundos, adultos envelheciam e rejuvenesciam em ciclos insanos, o espaço geográfico da Terra se alterava a cada instante. A humanidade estava à beira da extinção.
Meu apartamento... não existia mais. Meu hamster? Nenhuma evidência de que um dia esteve ali. A música? Silêncio absoluto. Até a ideia de melodia parecia esquecida. Fomos convocados para uma última operação. O Comando Interdimensional revelou sua derradeira estratégia: um salto suicida, uma travessia interdimensional capaz de apagar nossa existência do plano físico, estabilizando as rachaduras temporais. Não haveria retorno. Mas o planeta talvez resistisse por mais algumas eras. Milênios, ou unicamente dias. Era tudo que restava.
Houve hesitação. Alguns solicitaram tempo para decidir. Eu não. Minha escolha havia sido feita desde o instante em que aceitei aquele convite. Se alguém deveria ir, era aquele que já não tinha mais onde retornar. Caminhei até o portal. Não disse nada. Ninguém falou. Não houve cerimônia, nem despedidas. Só o som do portal se abrindo e o tempo desmoronando atrás de mim.
Talvez a missão tenha surtido efeito. Porventura o planeta tenha se reconstituído. Talvez, em algum lugar, meu hamster ainda corra em sua rodinha, e a música volte a tocar em um apartamento iluminado pela luz dourada de uma sexta-feira. Ou talvez tudo tenha sido em vão. Mas, enquanto atravesso o vazio que existe entre tudo e nada, uma certeza me sustenta: mesmo que a Terra jamais se lembre de mim, mesmo que meu nome se dissolva no esquecimento, haverá um canto do universo onde ainda ecoa a lembrança de que fui o mais audacioso soldado daquele pelotão.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um homem preso à rotina entediante recebe um convite misterioso que promete sentido e transformação. Ao aceitar, é lançado em uma guerra interdimensional onde o corpo e a mente são moldados para servir. Entre batalhas épicas e mundos colapsando, ele busca algo além da sobrevivência: um propósito. No fim, a linha entre heroísmo e esquecimento se dissolve. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
LIVROS:

Parabéns pelo texto,amor. Gostei do seu retorno à ficção científica.
ResponderExcluirExcelente texto,meu amigo! Sua escrita prende,desafia a mente! Experiência literária rica e impactante!
ResponderExcluirTexto instigante, prende do começo ao fim👏
ResponderExcluir