''E por vezes me sinto tão cansada que até deitar para dormir se torna cansativo.''
Toda sexta-feira à noite é o melhor momento da semana, pois estou distante do trabalho, especialmente de quem me causa problemas. O ambiente tóxico da escola suga minhas forças; sinto-me como se estivesse em Azkaban¹. Geralmente, na noite de domingo, meu descanso nunca é tranquilo. Escuto, em minha mente, as vibrações das turmas caóticas, o estudante pouco afeito ao estudo reclamando da nota e ameaçando levar seus responsáveis para contestar o básico de educação que peço dentro de sala.
Infelizmente, preciso do emprego para pagar as contas, mas minha verdadeira realização está na música. Em cima dos palcos, sinto-me verdadeiramente realizado; é o único barulho que me proporciona eterna paz, inclusive internamente.
Na segunda-feira, o único aspecto positivo é não precisar escutar abobrinhas e eventos irrelevantes que em nada contribuem para eu concluir mais um bimestre. Não tenho interesse em saber qual dia será a festa junina ou o interclasse, pois esses eventos só representam mais trabalho e responsabilidade fora de sala. O único alívio é não ter que ministrar aulas, um leve descanso do ambiente escolar. Todavia, a pior parte é, posteriormente, ter que registrar nos diários a frequência dos estudantes de maneira individual. Para mim, esse é um dos poucos lados positivos da escola, já que é a única maneira pela qual o estudante não consegue escapar da reprovação, considerando a quantidade de faltas.
Além disso, outro fato que me faz assemelhar ao Garfield não é apenas o desgosto pelas segundas-feiras, mas também pelas turmas caóticas que preciso enfrentar. Talvez, por ter maratonado mais de dez vezes o seriado House, acabei adquirindo o sarcasmo do personagem principal. Sempre há adolescentes indagando quando vou entregar a nota do trabalho, perguntando quantas linhas devem pular, se devem copiar do quadro... "aborrecentes" que não gostam de cumprir ordens de uma autoridade em sala.
Sempre que volto de ônibus para casa, cochilo levemente e me encontro, novamente, na "turma de ouro", estampada em cima da porta: 7I, a melhor turma que já conheci, tanto em notas quanto em comportamento. É uma das poucas salas em que o acolhimento ao docente faz falta. Engraçado ressaltar que, neste ano, essa turma não existe.
No sábado, tive outro show marcado em um bar famoso da cidade. Chegando lá, pude visualizar ao longe alguns bons alunos. Naquele lugar, não me sinto apenas internamente, mas também fisicamente mais feliz e com vontade de exercer meu ofício na área. Ao final da minha apresentação, geralmente deito, solando uma música de rock pesado na guitarra, e todo o público aplaude. Engraçado: após terminar a apresentação, enquanto guardava os instrumentos, dois alunos e uma aluna se aproximaram, junto com seus pais, elogiando a performance. Um deles deixou um desenho que fez de mim tocando; até hoje guardo esse registro com carinho.
Infelizmente, esse pequeno grupo de estudantes ainda não é maioria, o que seria necessário para me motivar a continuar nessa área. As dores não são apenas no aspecto mental, mas também refletem o estado de estar totalmente cansado e desanimado com os alunos. Infelizmente, não pude escolher continuar ministrando aulas para os estudantes do ano passado. Esse grupo, sim, foram os melhores.
Quando eu deixar essa área, é capaz de nem meus colegas de trabalho descobrirem qual será meu novo ofício, muito menos os alunos. Só irei avisar ao RH, no dia em que as coisas melhorarem na música e eu conseguir pagar as contas. Até lá, ela não serve apenas como complemento na renda, mas também como minha eterna terapia.
Recentemente, foi divulgado um indicativo de greve; eu mesmo quase aderi, apenas para descansar a mente dos "abençoados". Por isso, em cada show e evento que participo, oro em silêncio para que o próximo dia em sala seja o último. Assim, conseguirei o que almejo na música e nunca mais pisarei novamente em uma escola, exceto para palestras. Mas em sala de aula, não. Isso não é vida digna, sem o risco de adquirir sequelas irreversíveis no futuro.
Aproveitando ainda ser jovem, sei que tenho tempo para mudar e viver, enfim, descansando no melhor trabalho de todos: aquele que você exerce sem qualquer peso ou obrigação sobre os ombros. Um dia, me sentirei realizado, e não será apenas em cima de um palco.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, desabafo sincero de um professor que enfrenta diariamente a exaustão física e mental provocada pelo ambiente tóxico da escola, caracterizado por turmas indisciplinadas e burocracias desgastantes. Apesar da necessidade financeira que o mantém na profissão, ele encontra sua verdadeira realização na música, sentindo-se plenamente feliz apenas quando está no palco. Entre o cansaço das aulas e os momentos de alívio nos shows, o narrador expressa seu desejo de um dia abandonar o magistério para viver exclusivamente daquilo que ama, buscando uma vida mais digna, leve e plena. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
¹Referência à prisão fictícia de Harry Potter, conhecida por sugar as forças e a alegria dos prisioneiros.

Gostei o texto ,amor. Aquele dilema entre a paixão pela arte/ música e as responsabilidades ordinárias.
ResponderExcluirBelíssimo argumento no texto. Palavras que mostram ao leitor boa parte de verdade que paira sobre si. Parabéns!!!
ResponderExcluirAh, se a vida fosse vivenciada por nossas paixões, como ela seria? Ótima reflexão, Gabriel!
ResponderExcluirAdorei o texto, reflexões pertinentes!
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