‘’As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.’’
Leonardo da Vinci
Quando o céu de Ekaris se partiu pela primeira vez, não soaram alarmes. A ruptura rasgava o firmamento em espirais vermelhas, mas os sensores da cidade flutuante somente piscavam em silêncio, incapazes de medir a gravidade do que não era deste mundo. Um brilho se derramava da fenda como memória líquida, e onde tocava, a realidade cedia — os espelhos paravam de refletir, os relógios esqueciam os minutos, os pássaros mergulhavam sem destino.
No observatório em cúpula, Gabriel pressionava teclas com precisão quase cruel. Seus olhos percorriam não apenas linhas de código, mas esquemas vibracionais ocultos entre os circuitos. A língua zanker surgia em sua mente com fluência ancestral, cada ideograma um feixe de lógica entrelaçado ao caos. A vibração nos sensores não era anomalia, mas um chamado. Ele ergueu os olhos quando sentiu a presença dela: passos firmes, aroma de terra molhada e uma calma que parecia anterior ao próprio tempo.
Samara trazia nas mãos um instrumento esculpido em ossidiana, não criado, mas descoberto. A flauta respondia à alma e não ao sopro, afinada não com dedos, mas com a verdade. Para que o mundo não colapsasse sob as camadas distorcidas de realidade, aquela música precisava existir. Ele manipulava frequências como um maestro de algoritmos. Ela, com a delicadeza de quem compreende o ritmo do corpo e da dor, oferecia intenção. Entre os dois, formava-se uma ponte que não podia ser construída com pedras ou lógica.
O primeiro desequilíbrio surgiu nas planícies do sul, onde uma vila parecia repetir o mesmo instante sem fim. Os moradores sorriam de olhos vazios, presos em um fragmento temporal que se recusava a seguir adiante. O engenheiro lançou seu drone linguístico ao céu; a esfera girava em torno de si, captando padrões de tempo dissonantes. Enquanto isso, a médica ajoelhava-se junto a uma menina cuja pele parecia feita de areia prestes a se desfazer. Ela tocou o coração da criança como quem encontra o centro de um labirinto e cantou em tom baixo, algo entre suspiro e oração. O tempo, até então estilhaçado, soltou um único estalo e voltou a pulsar.
Na noite seguinte, as raízes da Cidade Submersa começaram a emergir, arrastando consigo estátuas sem rosto e cidades inteiras esquecidas pela história. Eron Vhal, ser sem origem definida, movia-se por entre as rachaduras da realidade como uma fome viva. Ele não desejava poder, mas sim dissolver a fronteira entre matéria e memória. O analista de sistemas enfrentou o vírus informacional deixado pelo invasor: um código de negação pura, onde cada linha anulava a anterior. Durante horas ele enfrentou paradoxos como quem atravessa um deserto sem bússola. Ao mesmo tempo, a curadora desceu às ruínas para negociar com ecos de consciências quebradas. Com voz firme, não suplicou, mas propôs acordos através da música. Os espectros hesitavam. Em troca de notas verdadeiras, ofereciam pedaços de si que ainda lembravam o que significava ser inteiro.
No alto do Farol de Íska, onde o próprio ar se recusava a obedecer às leis da física, o horizonte parecia tremular como um véu prestes a se desfazer. O inimigo agora era forma e ausência, feito de sombras e cálculos errados, um aglomerado de tudo o que sobra quando o amor é arrancado das equações. A musicista estendeu a flauta. A melodia precisava nascer antes que a fenda se tornasse ferida mortal. Mas ele hesitou. O raciocínio analítico travava diante do abismo que não se explicava. O problema não era técnico. Era silêncio.
Ela fechou os olhos e entregou-se. A primeira nota vacilou, mas não quebrou. Ele a acompanhou, não com teclas, mas com presença. Suas mãos tocaram as dela, e juntos sopraram uma canção sem linguagem, feita de pulsação e memória. A melodia invadiu a realidade como raiz em solo rachado, restaurando o que havia sido desfeito. O vilão não gritou. Apenas cedeu. Sua forma se desfez na música como sal na água, dissolvido por algo que jamais tentou compreender.
O mundo respirava de novo. A cidade permaneceu suspensa, os rios retornaram ao curso, os espelhos lembraram seus reflexos. No cume do Farol, os dois observavam o céu, agora intacto, e sabiam que nenhuma estátua seria erguida. Nenhum poema os mencionaria. E ainda assim, tudo havia mudado.
Entre eles, silêncio. Não o da ausência, mas o de quem já disse tudo com um gesto. A canção não era mais necessária. Mas ela permanecia, invisível, embutida na própria respiração do mundo. Quando lógica e compaixão se entrelaçam sem resistência, não resta espaço para o mal permanecer.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto,amor. Suas palavras são ainda mais lindas ,quando dedicadas para mim.
ResponderExcluirÓtimo texto!
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