“Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” George Orwell
No início, chamava-se Elias Navarro. Filólogo obsessivo, buscava vestígios de línguas extintas como quem cava em tumbas esquecidas. Seu escritório, no porão do Instituto de Linguística Antiga, era uma caverna de livros embolorados, onde o tempo andava em círculos. Ali, entre glosas deterioradas e códices apócrifos, encontrou o manuscrito.
As páginas, espessas e flácidas, pareciam pele humana curtida. A costura, feita de algo que lembrava tendões ressecados, apertava os cantos com crueldade. Nenhum idioma conhecido preenchia aquelas linhas. No alto da primeira página, as letras tremulavam como se respirassem: Na’arheth K’zul.
Nos primeiros dias, acreditou tratar-se de uma língua ritual, talvez fragmentos de um culto desaparecido. Mas à medida que decifrava fonemas e articulava sílabas, sentia a pressão do impossível tomar forma. Ao ler em voz baixa uma construção aparentemente simples, percebeu a ausência.
O zelador, que diariamente lhe trazia café, não retornou. Tampouco atendeu às ligações. Nem mesmo nos registros do prédio constava seu nome. Fotografias onde ele aparecia estavam em branco, como se a memória física do mundo tivesse sido corrompida.
Tentou ignorar. Seguiu traduzindo, agora com receio. A cada som, algo sumia. A bibliotecária da sessão de etimologia. O professor de semiótica da sala ao lado. Um estagiário do segundo andar. Um após o outro, apagavam-se como brasas na chuva, até só restarem suas lembranças vacilantes.
O linguista começou a testar. Lia palavras isoladas, esperando pelo efeito. Os olhos tremiam, o corpo suava. A assistente do laboratório olhou para ele, confusa, antes de se desfazer na metade de uma frase. Um instante antes havia um ser humano. No seguinte, somente ar e poeira.
O medo cresceu, mas a tentação também. Aquilo que descobrira não era uma língua. Era uma arma. Um instrumento primal, anterior à razão. Não nomeava desfazia. Não comunicava — anulava. O léxico da morte, conjugado com saliva e desespero.
Começou a usar. Por raiva, por impaciência. Um motorista de ônibus o fechou no trânsito. Ele sussurrou um termo. O veículo seguiu vazio, como se o condutor jamais tivesse existido. Uma ex-namorada o bloqueou sem explicação. Bastou uma frase. A mensagem sumiu, seguida da conta inteira.
Mas então, na vigésima noite, a loucura tocou a margem da consciência. Em frente ao espelho, discutia com o reflexo que já não era seu. O rosto distorcido repetia frases em Na’arheth K’zul, zombando, cuspindo sons que o atormentavam. O linguista gritou.
— Eu sou Elias Navarro! O eco da frase não voltou. As paredes estremeceram. As lâmpadas estalaram com ruídos úmidos. O espelho escureceu até virar pedra. Algo o puxou de dentro, como um anzol invisível cravado na alma. Sentiu o nome sendo devorado — não por fora, mas de dentro da realidade.
Tombou sobre os papéis. O chão frio já não o reconhecia. As digitais não respondiam. A senha do sistema negava acesso. Documentos com sua foto estavam vazios. Nas mensagens, ninguém lembrava quem ele fora. Ele rastejou até o manuscrito. Mas não havia mais letras. As páginas agora estavam lisas, como carne cicatrizada. A língua cumprira sua função. Apagara tudo. Apagara todos. Inclusive aquele que ousou pronunciá-la.
E no canto da sala, sob uma rachadura no concreto, algo ainda sussurra.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um linguista descobre uma língua extinta que, ao ser falada, apaga pessoas da realidade. Ele precisa decidir se continua estudando ou destrói o único registro restante enquanto começa a esquecer quem ele mesmo é. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
Aniquilação (Annihilation, 2018) Direção: Alex Garland: Uma bióloga se junta a uma expedição a uma zona isolada onde as leis da natureza foram alteradas por uma força alienígena. Conforme o grupo avança, a realidade se fragmenta e a identidade de cada membro começa a se dissolver. O desconhecido não apenas transforma o ambiente, ele transforma quem o observa.

Ótimo texto, amor.Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirÓtimo texto 👏
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