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Mostrando postagens de março, 2025

SINFONIA TEMPORAL

  ‘’A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.’’ Roger Bussy-Rabutin O céu de Resty trocava de cor a cada mudança temporal, oscilando entre tons de azul profundo e dourado espectral. A cada hora, a realidade era rasgada e refeita, apagando registros, transformando ruas conhecidas em becos e virando aliados em estranhos. No laboratório flutuante, Gabriel percorria freneticamente linhas de código holográficas, seus olhos correndo pelas sequências em busca da brecha que os levaria ao núcleo da ameaça. Com sua destreza como hacker do espaço e sua habilidade em decifrar linguagens nativas, ele era a última linha de defesa contra o colapso total. Samara, morena de cabelos volumosos e cacheados, mantinha os olhos fixos nos cálculos gravitacionais projetados à sua frente. Seu dom surpreendente para números matemáticos e seu conhecimento avançado no tratamento de doenças planetárias nível 10 faziam dela uma especialista inigualá...

ENTRE SOMBRAS E SILÊNCIO

 ''O mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender.'' Neil Armstrong      O céu estava carregado de nuvens espessas, um manto cinza que parecia sufocar qualquer resquício de luz. O vento frio serpenteava entre os poucos presentes, arrepiando peles e provocando tremores involuntários. A terra úmida absorvia lentamente as lágrimas que caíam, misturando a dor dos vivos à solidão dos mortos.      Ao redor do caixão fechado, rostos velados pela incerteza observavam em silêncio. Ninguém ousava dizer em voz alta, mas todos compartilhavam a mesma suspeita: Arthur estava realmente morto? Seu corpo não fora encontrado. Somente seu veículo, despedaçado no fundo do penhasco, e um documento chamuscado, prova frágil de uma identidade talvez apagada pelo acaso ou por algo muito pior.      A mãe de Arthur soluçava, segurando entre os dedos trêmulos um lenço amarrotado. Seu olhar vagueava, buscando no horizonte al...

O ÚLTIMO ATO

 ''A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.'' H.P. Lovecraft          Meu nome é Eduardo, mas isso já não importa mais. Passei os últimos trinta anos como zelador do Teatro Imperial, o mais antigo da cidade. Dizem que ele foi inaugurado em 1872, mas a verdade é que ele é mais velho do que isso. As fundações escondem segredos que ninguém quer lembrar, mas eu, por obrigação ou por castigo, fui obrigado a conhecê-los.      Trabalho sozinho. Sempre trabalhei. Outros vieram antes de mim, mas não duravam. Quando assumia o cargo, o antigo funcionário desaparecia. Como se o prédio exigisse exclusividade. Como se fosse um ciclo inevitável.      As noites eram longas dentro daquele casarão escuro, cheio de cortinas de veludo e poltronas cobertas por poeira. Durante os ensaios e apresentações, as luzes davam vida ao lugar, mascaravam o que se es...

BELEZA PROGRAMADA

 ''Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo.'' Confúcio      A luz azulada da tela piscou uma última vez antes do contrato se fechar. Somente alguns cliques, e eu estava oficialmente dentro. "Resultados visíveis em 48 horas", dizia a propaganda. Não era um milagre, era tecnologia de ponta. Uma cama revolucionária que prometia moldar meu corpo enquanto eu dormia, comprimindo meses de treinamento intenso em poucas noites de sono. Tudo que eu precisava para estar impecável na sexta-feira.      O pacote chegou na quarta. O entregador me lançou um olhar curioso ao ver o enorme caixote metálico deslizando pela porta. Toquei a superfície fria do equipamento. O design cromado brilhava sob a luz do teto, emitindo uma vibração quase imperceptível ao toque, como se estivesse vivo. O visor no encosto exibia gráficos detalhados do que aconteceria comigo durante as próximas noites. Entre promessas e algoritmos, a garantia era cl...

AULA FINAL

''Excesso de expectativa é o caminho mais curto para a frustração.'' Martha Medeiros      A sala era sempre a mesma. As carteiras desalinhadas, os rabiscos nas mesas, os olhares vazios. Décadas haviam passado, mas a indiferença dos alunos era a única coisa que nunca mudava.      Naquela manhã, atravessou o corredor sentindo o peso invisível das palavras que nunca dissera. A última aula. O fim de uma trajetória que, por muito tempo, acreditou ser um chamado, mas que agora parecia somente uma obrigação.      Quando entrou, os estudantes mal notaram. Alguns mexiam no celular, outros rabiscavam cadernos sem propósito.      Ele apagou o quadro, pousou o giz, cruzou os braços e respirou fundo.      — Hoje, não vou pedir que copiem nada.      Duas cabeças se ergueram. Alguém no fundo riu.      — Também não tem prova.      Mais alguns levantaram os olhos. ...