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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

MELODIA DO DESTINO

  ‘’A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.’’ Roger Bussy-Rabutin   Fui encarregado de proteger a caravana real rumo à capital para o Festival da Paz. O evento anual celebrava a harmonia do reino, e entre os viajantes estava Lady Samara, uma cantora cuja voz encantava multidões. Sua presença trazia luz à jornada, tornando cada passo menos árduo. Sua melodia parecia dissipar o cansaço e fortalecer os corações daqueles que viajavam ao seu lado. O perigo surgiu ao entardecer. Mercenários surgiram das sombras, espadas brilhando sob o crepúsculo. O ataque foi rápido e impiedoso, forçando-nos a fugir para a floresta. Sir Gabriel, guiado pelo instinto e pela promessa de lealdade ao reino, conduziu a trovadora para um refúgio entre as árvores densas. Durante a fuga, os sons da batalha ecoavam ao longe, misturando-se ao som abafado da respiração acelerada e dos galhos estalando sob os pés. Enquanto procurávamos refúgio, encontr...

ECO DO SILÊNCIO

 ''Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto.'' Francis Bacon      Acordei antes do sol, com o som do mar estalando lá fora, como uma respiração lenta e regular, mas que não parecia minha. O ar estava pesado, impregnado de sal e umidade, e a casa de praia, com suas paredes desbotadas e móveis antigos, parecia suspensa entre o mundo e o nada. Era a minha primeira vez      sozinho, sem a rede de vozes familiares, sem o eco de risos compartilhados. Sozinho. Uma palavra que parecia mais cheia do que vazia.      Caminhei até a janela, puxando a cortina que rangia como um velho confessando segredos. A paisagem era uma aquarela desbotada: céu cinzento, areia fria, ondas quebrando como se fossem carregadas de algo que não conseguiam segurar. Respirei fundo, mas o ar parecia entrar irregularmente, como se minha própria respiração discordasse de mim.      Trou...

METAMORFOSE SOMBRIA

 ''O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado.'' William Shakespeare        Eu sabia que devia ter desligado a máquina de teletransporte¹. Depois de um dia exaustivo, a mente confusa e os olhos pesados me arrastaram para o sofá. Não pensei que um simples descuido pudesse mudar tudo.    Acordei com uma sensação pegajosa em meu rosto. Primeiro, veio a textura — algo viscoso, úmido, errático. Depois, o cheiro — um misto de maresia pútrida e carne em decomposição. Meu coração disparou, e eu me afastei instintivamente, tropeçando nos próprios pés até bater contra a parede.      Diante de mim, a coisa me encarava. Metade do corpo ainda conservava as feições do meu velho companheiro de anos, mas o resto... Oh, Deus! O resto era uma aberração. Tentáculos gelatinosos saíam de sua coluna, pulsando como órgãos expostos. O olho esquerdo, agora maior e de um amarelo doentio, girava em direções impossíveis. A boca, outror...

CLONE

 ''A liberdade é mais importante do que o pão.'' Nelson Rodrigues        Despertei com um sobressalto, imitando a rotina que meu humano repetia todas as manhãs. Acordei assustado, respiração ofegante, levando a mão à testa, como se estivesse lidando com um pesadelo recorrente. Meu coração, ou o equivalente a ele, batia forte dentro do meu peito artificial. Estava absorvendo as últimas nuances do comportamento do meu hospedeiro, captando cada trejeito, cada gesto inconsciente. Era meu dever imitá-lo perfeitamente. Mas havia um problema. Um problema grande.      Meu humano era o ser mais estranho que já existiu. Quando fui ativado, recebi as diretrizes claras: estudar, espelhar, substituir. Meu código genético era idêntico ao dele, minha estrutura física inquestionavelmente idônea. No entanto, nada poderia ter me preparado para a mente bizarra que eu deveria replicar.      Ele passava horas deitado no chão olhando para o teto, murm...

O SOM DA RECONCILIAÇÃO

''O que é verdadeiro volta? Não. O que é verdadeiro não vai. O que é verdadeiro, permanece.'' Querido John      A casa guardava o cheiro do tempo. O pai vivia ali sozinho, cercado por móveis que um dia serviram a uma família completa, mas que agora sustentavam apenas lembranças. A sala, antes ecoando risos e discussões, agora era um espaço dominado pelo silêncio, onde apenas o ranger da cadeira ao final do dia pontuava sua solidão.      No dia em que o filho partiu, a despedida não foi feita de abraços ou lágrimas, mas de palavras truncadas e uma carta deixada sobre a mesa de jantar, aquela que um dia fora o coração do lar. Nela, o jovem não pedia perdão nem dava explicações: apenas declarava que buscaria seu sonho, a música, e que precisava de distância para encontrá-lo. O pai, com o orgulho ferido e o coração pesado, não respondeu. A mesa permaneceu intacta por dias, a carta repousando ali como um testemunho de um laço desfeito.      Anos ...