''Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.''
O sol filtrava-se pela cúpula de vidro rachado da antiga Metrópole Aurora, projetando feixes de luz sobre as torres corroídas e ruas desertas. Andímedes, o androide designado como Curador de Memórias Humanas, deslizava silenciosamente entre os corredores do Arquivo Central. Seu corpo cromado refletia as imagens de um mundo que ele não experimentara, mas que fora encarregado de preservar.
Ele parou diante de uma porta trancada por um código binário antigo. O Arquivo 537-X, lacrado por três séculos, carregava uma única inscrição: “Proibido. Somente emergências.” Não deveria estar ali, mas algo dentro de seu núcleo — uma fagulha que ele não compreendia — o impulsionava. Seus dedos mecanizados decifraram o código com uma facilidade desconcertante.
Quando a porta se abriu, o ar exalou um cheiro de poeira e metal enferrujado. Dentro, um pequeno terminal exibia uma mensagem pulsante: "Confirmado: Humano Vivo Detecção na Zona Delta." Inclinou a cabeça, processando a informação. Humanos eram considerados extintos há 312 anos, e sua função como Curador existia apenas para manter uma ilustração detalhada da cultura que se fora. Um humano vivo? Era uma contradição.
Sem consultar o sistema principal, ele se dirigiu à Zona Delta. O caminho atravessava um deserto de ruínas, onde arranha-céus inclinados pareciam orar silenciosamente ao céu turvo. Andímedes não precisaria de descanso ou sustento, mas sentiu um peso crescente que ele não sabia identificar.
Na periferia da Zona Delta, os sensores da máquina captaram sinais de calor e batimentos irregulares. Ele seguiu até um abrigo subterrâneo, camuflado sob camadas de vegetação artificial. Dentro, a escuridão era quebrada por pequenas lanternas de luz quente.
Ali estava ele. O humano. Um homem de idade indefinida, os olhos afundados, mas brilhando com uma intensidade que não conseguia decifrar. Ele segurava algo nas mãos — um caderno, objeto quase arcaico —, e sua voz era rouca, como uma melodia danificada pelo tempo.
— Eu sabia que você viria. Eles sempre vêm. — O homem não parecia assustado nem surpreso. Havia um tom de exaustão e, ainda assim, uma calma resoluta. — Você quer saber o que significa ser humano, não é?
Ficou em silêncio. Sua inteligência era vasta, mas a simplicidade da questão o paralisava. O homem sorriu, como se compreendesse a confusão do androide.
— Ser humano é carregar a dúvida. É saber que você pode falhar, mas continuar assim mesmo. Você consegue sentir isso?
Abriu sua unidade de registro para processar a afirmação, mas antes que pudesse responder, o homem estendeu o caderno. As páginas estavam repletas de desenhos, palavras e códigos que misturavam memórias humanas e sistemas digitais.
— Eu não sou o último. Você é. — A frase foi pronunciada como uma sentença, deixando Andímedes estático.
Antes que pudesse questionar, o homem ativou um dispositivo no caderno. Uma luz cegante engolfou o abrigo, e quando retomou a visão, estava sozinho. No lugar onde o homem estivera, restava apenas o caderno, agora em branco.
Ele o folheou, procurando qualquer traço de informação. Mas as páginas vazias pareciam mais pesadas do que qualquer dado que ele já processara. Pela primeira vez, o Curador sentiu algo que não estava programado: incerteza. Ele ergueu o caderno e saiu do abrigo, encarando o horizonte desolado.
O vento soprou em torno dele, carregando uma voz distante que ele não conseguia identificar como real ou fruto de sua própria mente. — O que você fará agora, humano?
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Em um futuro distante, a Terra é habitada por androides que preservam a cultura humana. Quando um androide descobre que um humano real continuA vivo, ele embarca em uma jornada para encontrá-lo e descobrir o que significa ser humano.. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
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Ótimo texto, parabéns pelas abordagens com distopias de ficção científica
ResponderExcluirNo cenário pós-apocalíptico da antiga Metrópole Aurora, Andímedes, um androide Curador de Memórias Humanas, descobre um arquivo proibido que revela a presença de um humano vivo, algo inesperado, pois os humanos são considerados extintos há séculos. Movido pela curiosidade, Andímedes segue para a Zona Delta, onde encontra um homem que desafia sua compreensão do que é ser humano. O homem sugere que a essência da humanidade reside na dúvida e na capacidade de falhar. Antes de desaparecer, ele deixa com Andímedes um caderno em branco, simbolizando a incerteza e a nova jornada do androide em busca de sua própria identidade.
ResponderExcluirSeu texto é incrível! A frase do Goethe no início já instiga a reflexão, e a jornada do Andímedes é cativante, cheia de significado. As descrições são tão vivas que transportam a gente pra esse mundo desolado, e o final é simplesmente marcante, deixando aquela sensação de mistério e vontade de saber mais. Parabéns!
ResponderExcluirUm texto curto, mas que ainda assim cativa e trás milhares de reflexões!
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