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DILEMA


''Não é na ciência que está a felicidade, mas na aquisição da ciência.''  

Edgar Allan Poe



      O sol de sábado invadia a piscina com uma luz crua e quente. Ele mergulhou de cabeça, sem pressa, e a água o envolveu com sua frieza azul. A queda foi desajeitada; a cabeça encontrou o fundo com uma violência surda. Quando emergiu, os olhos arregalados, algo nele havia mudado.

      Nos dias seguintes, tudo parecia diferente. Sua mente era um relâmpago, cada pensamento uma revelação. As palavras nos livros ganhavam nova vida, os números dançavam diante de seus olhos. No silêncio do apartamento, a escuridão era perfurada pelas fórmulas que ele rabiscava com uma febre que não reconhecia.

      Então, a tosse. O som rouco e úmido, o sangue escorrendo pelos dedos trêmulos. No consultório, o médico olhava para ele como se carregasse o peso do mundo.

    "Tumor,"  disse o médico, a voz um sussurro que preenchia a sala.  "Podemos operar, mas você perderá essa... essa inteligência. Ou pode viver com isso, mais cinco anos, no máximo."

      O apartamento era um cárcere de paredes apertadas. As fotos da infância, dos pais sorrindo com aquela esperança que só a pobreza conhece, observavam-no do outro lado da sala. No chão, os livros abertos, papéis espalhados com equações que apenas ele compreendia.

      Ele caminhava de um lado para o outro, as mãos nos cabelos, os olhos vazios fixos na parede. Cada descoberta, cada novo entendimento era um fardo. O tempo parecia escorrer como areia entre os dedos. "Ser alguém comum", pensava, "ou tocar a eternidade com as pontas dos dedos?"

      As noites eram uma tortura. O travesseiro encharcado de suor, o teto girando acima de sua cabeça. As tosses vinham cada vez mais frequentes, o gosto metálico do sangue uma constante.

      Decisão crescia dentro dele como uma sombra. Na manhã da escolha, o sol entrou pela janela com uma luz fria, iluminando o quadro torto na parede. Ele sentou-se à mesa, a caneta na mão, o papel diante dele. Com um movimento decidido, assinou sua sentença.

      Os anos seguintes foram um turbilhão de descobertas. Sua mente queimava, os olhos vidrados nas páginas, os dedos manchados de tinta e sangue. A pequena sala tornou-se um templo de genialidade. Cada tosse ensanguentada era um lembrete cruel de sua escolha, mas também de sua missão.

      Aos trinta e cinco anos, o corpo finalmente cedeu. Na cama estreita, o rosto pálido e suado, ele sorriu pela última vez. Os olhos fixos no teto, a mente já além do corpo, navegando nas estrelas que ele tanto estudara.

      As paredes do quarto testemunhavam seu gênio. Ele desvendara a estrutura dos buracos negros, as leis da termodinâmica e propusera uma teoria unificada da física que conectava o macro e o microcosmo. Seus artigos publicados em revistas científicas reverberaram pelo mundo acadêmico, provocando uma revolução no campo da física teórica. Aos trinta e quatro anos, a comunidade científica o indicara para o Prêmio Nobel de Física, uma honra que ele receberia postumamente.

      O lugar de estudos ficou em silêncio, as paredes marcadas pelas equações febris de um gênio. Lá fora, a cidade continuava, indiferente. Mas nas universidades, nos livros, seu nome se tornara imortal. A escolha entre a normalidade e a grandeza o havia consumido, mas garantira-lhe um lugar na eternidade.

 


 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, transformação do protagonista em um gênio intelectual após um acidente e o preço que ele paga por isso. Sua escolha consciente de manter sua inteligência à custa de sua saúde e vida. Ademais, homenagem a um clássico da literatura de ficção científica que aborda tema similar.   Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
 Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma  IA, BING.IA, digitei "A realistic image of the transformation of the protagonist into an intellectual genius after an accident and the price he pays for it. His conscious choice to maintain his intelligence at the cost of his health and life."  e obtive esse resultado. 
 
 
REFERÊNCIAS 


1.    "Flores para Algernon," escrito por Daniel Keyes, narra a história de Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual que participa de um experimento científico revolucionário. Este experimento visa aumentar sua inteligência através de uma cirurgia que já foi bem-sucedida em um rato chamado Algernon. À medida que o personagem se torna mais inteligente, ele começa a perceber as complexidades da vida e as atitudes daqueles ao seu redor. A trama explora temas profundos sobre ética científica, as implicações da inteligência e a natureza das relações humanas. Publicada em 1966, a obra é considerada uma das mais importantes da ficção científica, tendo recebido o prestigioso Prêmio Nebula.







Comentários

  1. Interessante como tratou a eclosão da potencialidade do personagem. Parabéns pelo texto, ansiosa pelo próximo.

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