''Não é na ciência que está a felicidade, mas na aquisição da ciência.''
O sol de sábado invadia a piscina com uma luz crua e quente. Ele mergulhou de cabeça, sem pressa, e a água o envolveu com sua frieza azul. A queda foi desajeitada; a cabeça encontrou o fundo com uma violência surda. Quando emergiu, os olhos arregalados, algo nele havia mudado.
Nos dias seguintes, tudo parecia diferente. Sua mente era um relâmpago, cada pensamento uma revelação. As palavras nos livros ganhavam nova vida, os números dançavam diante de seus olhos. No silêncio do apartamento, a escuridão era perfurada pelas fórmulas que ele rabiscava com uma febre que não reconhecia.
Então, a tosse. O som rouco e úmido, o sangue escorrendo pelos dedos trêmulos. No consultório, o médico olhava para ele como se carregasse o peso do mundo.
"Tumor," disse o médico, a voz um sussurro que preenchia a sala. "Podemos operar, mas você perderá essa... essa inteligência. Ou pode viver com isso, mais cinco anos, no máximo."
O apartamento era um cárcere de paredes apertadas. As fotos da infância, dos pais sorrindo com aquela esperança que só a pobreza conhece, observavam-no do outro lado da sala. No chão, os livros abertos, papéis espalhados com equações que apenas ele compreendia.
Ele caminhava de um lado para o outro, as mãos nos cabelos, os olhos vazios fixos na parede. Cada descoberta, cada novo entendimento era um fardo. O tempo parecia escorrer como areia entre os dedos. "Ser alguém comum", pensava, "ou tocar a eternidade com as pontas dos dedos?"
As noites eram uma tortura. O travesseiro encharcado de suor, o teto girando acima de sua cabeça. As tosses vinham cada vez mais frequentes, o gosto metálico do sangue uma constante.
Decisão crescia dentro dele como uma sombra. Na manhã da escolha, o sol entrou pela janela com uma luz fria, iluminando o quadro torto na parede. Ele sentou-se à mesa, a caneta na mão, o papel diante dele. Com um movimento decidido, assinou sua sentença.
Os anos seguintes foram um turbilhão de descobertas. Sua mente queimava, os olhos vidrados nas páginas, os dedos manchados de tinta e sangue. A pequena sala tornou-se um templo de genialidade. Cada tosse ensanguentada era um lembrete cruel de sua escolha, mas também de sua missão.
Aos trinta e cinco anos, o corpo finalmente cedeu. Na cama estreita, o rosto pálido e suado, ele sorriu pela última vez. Os olhos fixos no teto, a mente já além do corpo, navegando nas estrelas que ele tanto estudara.
As paredes do quarto testemunhavam seu gênio. Ele desvendara a estrutura dos buracos negros, as leis da termodinâmica e propusera uma teoria unificada da física que conectava o macro e o microcosmo. Seus artigos publicados em revistas científicas reverberaram pelo mundo acadêmico, provocando uma revolução no campo da física teórica. Aos trinta e quatro anos, a comunidade científica o indicara para o Prêmio Nobel de Física, uma honra que ele receberia postumamente.
O lugar de estudos ficou em silêncio, as paredes marcadas pelas equações febris de um gênio. Lá fora, a cidade continuava, indiferente. Mas nas universidades, nos livros, seu nome se tornara imortal. A escolha entre a normalidade e a grandeza o havia consumido, mas garantira-lhe um lugar na eternidade.
INSPIRAÇÃO

Interessante como tratou a eclosão da potencialidade do personagem. Parabéns pelo texto, ansiosa pelo próximo.
ResponderExcluirÓtimo texto 👏
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