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LIMITE

 "Há em tudo um limite que é perigoso transpor, porque, uma vez transposto, já não há processo de voltar-se atrás." Fiódor Dostoiévski

    O som de ronco aumentava gradativamente, ainda mais quando me aproximava da geladeira, minha esposa e meus dois filhos nem aguentavam em pé, o mais forte observou meu filho pequeno tentando comer seus brinquedos de plástico, pois, sem querer alguém havia derrubado mel em cima do seu soldadinho, ou seja, tornando o atrativo para sua fome de leão. Desde quando o ano atingiu o clímax na grande guerra que ocorrera em 2030, entre os Estados Unidos e Rússia¹, o mundo se viu sem condições para manter sua população, muito menos exércitos. Bebíamos água com açúcar e um destilado feito com água de coco para esconder a fome, minha mulher me puxou no canto e informou que deveria aceitar aquela oferta, se não iríamos morrer de fome, não era nada fácil.

     Solavancos na porta, pela intensidade e duração, presumi que a pessoa passou por treinamento militar, pois apontava que seria uma informação urgente, e não poderia ser prolongada. Abri a porta, avistei um grupo de seis homens, na grande maioria tudo acima dos trinta anos, portadores de máscara e uma jaqueta de couro com sinais de uso, todos tinham um braço coberto de tatuagem, quem bateu na porta apresentou-se como líder, apresenta cabelos grisalhos, barba por fazer, óculos de sol que já saíram de moda há um século, gordo, e com dificuldade para andar, reparei em seu joelho, pois apoiou uma mão na porta enquanto me esperava. Olhou rápido para dentro, viu pessoas tão magras até perguntou se prefiram viver como homens ao lado da luz ou como uma baleia²? Nesse momento, minha esposa me fitou, ansiando por uma atitude minha, sentia o vento seco do ventilador quebrado, apenas acenei com a cabeça.

    O grupo me levou com eles, avistei no lado de trás das jaquetas, havia um símbolo, um grande A, dentro de um círculo, de cor vermelha, o cheiro em seu veículo era de um odor forte, provavelmente drogas, julguei ser maconha, pois avistei um saco contendo algumas folhas secas e um isqueiro, não deixe de pensar por viver no futuro o homem vai abdicar de regredir no âmbito psicológico. Fui informado que deveria matar o meu vizinho, diante da sua esposa, para deixar a mensagem. "Prevejo que fará o que precisa ser feito, sem exitar, assim sua família irá prosperar, disse Alex Burgess³, o líder do grupo. Engoli com dificuldade, deixou uma arma no meu bolso, caminhei até a porta. Ouviram ao longe uma breve discussão, gritos de uma mulher e dois tiros, quando retornei estava coberto de sangue, minha esposa quando me viu em cima da comida, porque na minha blusa tinha uma pequena impressão de mão no formato dos nossos filhos, caminhei até o meu primogênito, entreguei na sua mão uma barra de chocolate, ainda fechada, e disse em seu ouvido, "É toda sua.'' O brilho em seus olhos é a melhor presente de um pai, não importe de qual maneira conseguiu tal objeto. Senti meus olhos pesados, e as lágrimas romperam com a resistência de demonstrar emoção.

    


 

INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto surgiu de uma sugestão já estabelecida de enredo pronto, desse modo mesclei tal escrita com recortes literários e adaptações cinematográficas, mesclando de uma realidade alternativa e referências com indicações de forte analogias políticas e sociais inseridas na ficção. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

REFERÊNCIAS: 
 
1. Inspirado no contexto que se passa a obra do grande escritor russo, Dmitri Glukhovsky, autor do romance homônimo, Metro 2033; Ps: Um dos escritores mais

2. Inspirado no conto de um dos maiores escritores da literatura brasileira, Graciliano Ramos, conto intitulado "Baleia'', que posteriormente transformou no grande romance, Vidas Secas;
 
3. Homenagem a uma das maiores distopias já criadas, referência ao personagem principal da obra Laranja Mecânica, do escritor britânico John Anthony Burgess Wilson.
 
 Ps: Além do romance distópico, há certas semelhanças com a situação atual do Brasil e da crítica apresentada na séria Round 6 da Netflix.


    Enquanto os governos em todo o mundo entra em colapso e uma Terceira Guerra Mundial:
cria uma crise financeira global, as pessoas são forçadas a sobreviver sem ajuda ou
dinheiro para comprar as coisas de que precisam. As, gangues oferecem proteção e comida.
em troca de lealdade. Sua família está morrendo de fome e a mais violenta das gangues
está à sua porta, dando a você a opção de entrar ou morrer de fome. Se
você aderir, a primeira diretriz é matar seu vizinho, que irritou seu líder. (traduzido do inglês).

Comentários

  1. SAMARA FERNANDES LEITE14 de outubro de 2021 às 17:54

    Ótimo texto.
    Muito desafiador a iniciativa de juntar a perspectiva de retirantes brasileiros com a distopia britânica.
    Parabéns
    Ficou muito bom mesmo.

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  2. Parabéns muito bom!!!!!! Gostei demais

    ResponderExcluir
  3. Excelente ! Adorei as referências 👏

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