“A verdade e que não sou nada, nada do que se diz” - Franz Kafka
Queria dormir, mas foi impossível fechar os olhos e não relembrar daquele momento, a dor pungente que senti em meu peito me deixou atônica e sem maneiras passíveis para expressar o quanto criei um ódio por mortal por ele, abracei o travesseiro com força, vi minha mão ficar vermelha de tanto que apertava, o rugir dos meus dentes, senti a raiva tomando conta do meu corpo de maneira deliberada, acabei em um sono profundo, mas sonhei.
Estava no dia mais feliz da minha vida, eram tudo flores e alegria, finalmente realizaria o grande sonho de toda mulher, observava minha família radiante, especialmente meus pais, minha mão usava uma toalha para enxugar as lágrimas, e mesmo papai, sendo um homem que raramente demonstra afeto, foi possível notar uma lágrima solitária que percorreu até se encontrar com sua barba densa branca. Caminhou comigo de braços cruzados embaixo do meu, era como os contos de fadas que lia quando era criança, hoje, se tornava realidade.
Subi nos degraus, meu coração batia a mil, os olhares de inúmeros parentes e grande parte de desconhecidos, apenas fez com que minha ansiedade se agravasse, a roupa que vestia não ajudava nenhum pouco, infelizmente por um atraso por conta do carro, foi adiado uma hora a mais, ou seja, em breve me tornaria um frango frito, o meu futuro companheiro, Kafka¹, um homem íntegro, nos tornaríamos só uma carne e com um bom esposo, ambas famílias estariam felizes, especialmente a nossa.
O Rabino, informou como todo evento similar, quando chegou na hora mais relevante, percebi que o salão ficou em total silêncio, eu disse SIM, com a maior vontade do mundo, enquanto meu futuro marido, que usava um terno preto, com uma gravata cinza clara, nariz grande², com um pingente do seu respectivo cargo próximo ao seu peito direito, olhei diretamente aos meus olhos, pegou na minha mão, abriu a boca, e disse: SIM, eu não desejo, casar contigo, saiba que eu não te amo, apenas minha família gosta de você por conta do dinheiro que podemos abocanhar. Cai de joelhos, fiquei sem forças ao ouvir essa revelação que me devastou, fiquei de joelhos, nem mesmo os músicos conseguiam competir com o coração em sofrimento de uma mulher iludida.
Já em casa, de noite, após ler sua carta ressaltando estar com tuberculose³ e não desejava que ela sofresse com o luto de perder um marido já moribundo. Antes de me deitar peguei o meu diário, abri no respectivo dia, 10 de julho, e escrevi o seguinte “Eu não poderia perdoá-lo, ou gostar dele, mas eu via que aquilo que ele havia feito, era, para ele, inteiramente justificável4”; o verso da página ficou manchada de molhada.
INSPIRAÇÃO
1. Escritor austro-húngaro, popularmente conhecido por ser o pai do realismo mágico, críticas familiares e obras que constrói um aparelho estatal opressivo (representando a figura paterna);
2. Estereótipo popular sobre a sua religião;
3. Causa da morte do escritor;
4. Uma citação do romance mais conhecido do escritor Francis Scott Key Fitzgerald, a obra O grande Gatsby.
Ps: Para compreender melhor a figura opressiva que citei no ponto 1, recomendo a leitura do livro: Carta ao pai, é possível ler em um dia!

Texto incrível. Ao imergir no contexto já vivido por um autor bastante intrigante,releva bastante criatividade.
ResponderExcluirÁrido e melancólico ,capaz de nos fazer sentir o pesar dos personagens 👏
ResponderExcluirBem escrito
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