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COIOTE

"Quem vive só de esperanças morrerá de fome." 
Benjamin Franklin

                A parte mais difícil de perder uma mãe não pelo modo que se foi, mas ter conhecimento por intermédio de um jornal, abrir um site de notícias e ler que mais uma pessoa que tentou adentrar um país tido como desenvolvido morreu, pois você precisa além de lidar com a perda é não perder a cabeça por conta de comentários ofensivos. É impossível esquecer o dia, acordei mais cedo do que o costume para ir ao trabalho, enquanto escovava os dentes, peguei o celular, e o seu rosto estava estampado na capa do jornal, perdi as forças da perna na hora, como se tivesse pisado em uma mina terrestre, me prostei em lágrimas profundas, soluço intenso e uma forte dor na alma, pois não tentei evitar que fosse, ela não vai morrer pois foi com amigos de longa data, só morrem quem vai sozinho, pensei errada.

                A luz solar sob minha pele, no deserto, não aguentava mais caminhar nenhum pedaço de terra a mais, sentia dores físicas extremas, nenhum remédio seria eficaz contra tal enfermidade, pois a única doença que sentia era uma fome e sede profunda, minha boca há horas desconhecia o que fora saliva, até para respirar ficou mais pesado, caminhava com dificuldade, mas não gostaria de transmitir tal fato para minha filha,  tinha sido recentemente informado que me tornei avó, imagina a grande felicidade que emanou em meu peito, até reascendeu em mim uma chama de esperança.

                Mamãe mandou quatro áudios, o último relatava que estava bem, só sentia dores nas pernas por conta da longa caminhada, seu destino seria os Estados Unidos da América, nos últimos, relatava que sentia sede, e no último informou que ficou para trás por não estar conseguindo a acompanhar o coiote, até então, nunca tinha ouvido minha mãe daquele jeito, com dificuldade para falar,  respirando ofegante a cada palavra e tossindo, isso não significava nada bom, mas perto de terminar o presente áudio, informou que iriam retornar para buscá-la, até pediu se pudesse mandar alguém com água para ela.

                Ainda consegui caminhar uma fração de metros, avistei vultos passando ao meu redor, minha visão ficava a cada passo mais turva, pedi ajuda, mas ninguém parou para me auxiliar, me senti perdida em meio das pessoas que tentavam desafiar o deserto, comecei a ficar tonta e apenas caí no chão, quando olhei para minha direita, avistei um enorme lago, mas não dispunha de qualquer energia extra para chegar lá, e presumi ser fruto da minha cabeça, não consumia água desde anteontem, ou seja, meus sistemas corporais estavam prestes a  parar de funcionar, igual quando você esquece de abastecer o carro, contudo, eu não voltaria a ligar, fechei os olhos e não voltei abri-los novamente.

 


 

INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto surgiu de uma dicação da amiga Silvanea, sobre o caso real da brasileira que morreu tentando cruzar a fronteira do EUA, de maneira ilegal, infelizmente por inúmeros problemas no país de origem, especialmente a falta de emprego fazem essa ser a única oportunidade de melhoria na vida, além disso, tentei ao máximo construir no texto a dor de ambas, da filha e dos últimos momentos da mãe. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Comentários

  1. SAMARA FERNANDES LEITE7 de outubro de 2021 às 12:58

    Ótima abordagem sobre algo que negligenciamos bastante em relação ao direito de todos os seres humanos.
    Direito à vida, mesmo que estejam em peregrinação.

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  2. É tão triste ler isso. Pessoas desesperadas por uma vida melhor enquanto nossos governantes torram nossos impostos vivendo do bom e do melhor

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