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O INTRUSO

 "A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.'' - Charles Chaplin

 

                Era noite, acabei de escovar os dentes, caminhei devagar para a cama, como estava com muito sono, julguei que não iria demorar para apagar logo. Por precaução,  peguei um objeto na gaveta da cômoda e deixei embaixo do travesseiro. Quando estava prestes a fechar os olhos, escutei um barulho oriundo da janela, é um gato, minha mente disse, preste atenção no barulho, comecei a suar frio, minha mão ficou gelada, tremia indiretamente temendo o pior, morrer sabendo quem é o seu ceifador é uma coisa, mas desconhecer é o mesmo que ser enterrado como Sísifo. Era apenas uma animal, mas presumi ter escutado a porta da cozinha ser aberta.

                Engraçado ressaltar que toda semana eu deveria ir à loja dos correios pegar minhas contas, pois temia que meu endereço fosse descoberto. Sempre enquanto esperava ser atendido, com uma das mãos enrolava no meu longo bigode branco, imaginando que o funcionário do outro lado do balcão iria apertar um botão redondo vermelho, em minutos agentes do Estado iriam me interrogar por horas em uma sala fechada, com apenas uma mera mesa e três cadeiras, por essa razão sempre carregava comigo uma garrafa de água para aliviar a tensão.

                Quando retornava para casa, havia dias que percorria ruas diversas do meu destino original, para evitar que descobrissem onde vivo. Sempre olhava atentamente ao retrovisor, observando qualquer possível carro suspeito que me seguisse, não vou negar, já ocorreu momentos que quase fui encontrado, para minha sorte, instalei um dispositivo no veículo que muda a placa instantemente, favorecendo minha fuga.

                Saiba que eu não sou novo, tenho setenta anos, quando alguém bate na minha porta evito o contato a qualquer custo, raramente tenho coragem de abrir as persianas para examinar do lado de fora, apenas quando tenho certeza que não seria visto, meu filho reclama muito comigo por não ter um celular decente, pois toda semana eu mudo de chip, e para dificultar minha localização adaptei um aparelho antigo, aqueles que ainda precisam de antena para funcionar, coloco bombril na ponta, assim esconde minha localização. Acredito que um dia ele irá entender por qual motivo sou assim.

                Sou pardo, latino, vivo aqui desde pequeno, quando vim com meus pais quando estavam fugindo da ditadura chilena, foi divulgado que esse é o país dos sonhos e onde é possível realizar tudo, claro que há meias verdades nessa frase, contudo, a necessidade de viver como alguém invisível é o principal desafio, evitar ser encontrado em um dos países mais punitivos do mundo, e com a maior população carcerária do mundo.

                Suponho que não será possível terminar essa carta, me escondi no armário, escutei alguém batendo na porta com insistência, em minutos arrombou, minhas mãos estão tremendo, é fidicil dirgitar, filllho, não se acuste, pai te AMA, agora aumentei a claridade, posso enxergar a luz, eles estão perto, por favor, divulgue! Dois homens altos, abriram a porta, um portando uma arma de fogo, outro com uma prancheta, ressaltou para o outro que deveriam cumprir a Lei Federal 6419.

                Sou condenado não por ser perigoso para as pessoas, mas por conta do medo que carrega dentro da sua mente, alimentado por políticos extremistas para alimentar suas oportunidades eleitorais na próxima eleição, o que gera mais votos? Medo, ódio ou xenofobia?

                O autor do texto nunca foi encontrado, o presidente nega as acusações. 

 


 INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. Queria escrever um texto de terror com uma particularidade que todo filme do gênero mostra, uma crítica social para determinado setor da sociedade, esse em questão como observou julgou que seria apenas mais uma invasão domiciliar, até o desfecho mudou totalmente de postura sobre quando compreende o título. Mais um texto crítica social/terror/suspense.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
 REFERÊNCIAS: Sísifo é uma obra do escritor Albert Camus e a cena do bombril no celular foi inspirada no filme Sinais.

Comentários

  1. SAMARA FERNANDES LEITE21 de julho de 2021 às 16:21

    Ótimas referências.
    A quebra de expectativa no final do texto é intrigante.

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