"Eu não: quero é uma realidade inventada." - Clarice Lispector
Despertei cedo, em minhas atividades da rotina, após escovar os dentes e antes de tomar café da manhã, fui ao encontro do meu cachorro- de pequeno porte, branco, com um denso pelo liso.Para minha surpresa estava deitado ,perto na frente da sua casinha. Chamei por ele inúmeras vezes o seu nome, até então sem resposta, sentia o frio tomando conta do meu corpo, começando pelo pescoço, braços e pés. Toquei nele tentando despertar, sem nenhum êxito, seu corpo ainda estava quente, corri com toda velocidade do mundo em busca do maldito cartão, iria precisar contatar aquela empresa, seria útil agora.
Tentando esconder a dor de perder um animal que faz parte da família, como nunca me casei com alguém ou tive descendentes, é horrível viver só, por essa razão, optei em levar nessa loja. Pelo nível de tecnologia que desenvolvem julguei que o estabelecimento seria bem maior, para minha surpresa é muito pequeno, uma atendente loira, jovem, anotou todos os detalhes do meu antigo cachorro, passei todos os outros detalhes que poderiam precisar, me informou quanto seria, fiquei abismado pelo valor, cinco mil dólares, apenas ressaltou sobre o preço que é estabelecido para continuar com a memória afetiva viva, realmente, isso não tem preço.
Dentro de uma semana, estava lendo Androides sonham com ovelhas elétricas, quando a campainha tocou, presumi que seria o entregador, abri a porta, encontrei um senhor, em seu uniforme cinza-claro surrado, com uma grande caixa, em suas mãos vi uma prancheta, informou onde deveria assinar, me deu poucas explicações de como ligar, revelando que encontraria tudo acessível no manual, até uma pessoa com doença mental conseguia fazer isso.
Li o manual, descobri que antes de ligar deveria deixar carregando, e seria carregado quando fosse caminhar, pois, utiliza um avançado sistema de energia solar acoplado em seu torso. Fiquei sem palavras, é muito similar com o falecido, é quase impossível de notar ser um robô, fora por poucos detalhes, principalmente de não tentar pegar sua comida. Quando o liguei após seis horas carregando, me olhou com aqueles olhos vermelhos, até decidi trocar, pois, sentia me com receio de me matar enquanto dormia. Me fitava sem emitir nenhum ruído, ouvi uma palavra robótica emitir a seguinte mensagem: “Atualização CONCLUÍDA com SUCESSO!’’.
Pelo incrível que pareça eu escutei uma voz quando latiu: “Onde estão os meus testículos, Sammer?
“Quem é Sammer?" Respondi.
A máquina registrou falha no processamento dos dados, e poucos minutos depois já estava funcionando perfeitamente. Demorou muito para me acostumar com essa criatura, no fundo, eu sentia que não era o meu cachorro. Nenhuma tecnologia ou inteligência artificial consegue sobrepor um organismo vivo, pois querendo ou não, robôs seguem um determinando padrão, mesmo que aprendam de forma progressiva, jamais será um cão de verdade.
Interessante que agora não me sinto totalmente só, pois tenho com quem conversar, emito tal fato ao meu psicólogo, não acredito que iria acreditar nisso, até parece oriundo da mente de um escritor de ficção científica. Todas as noites, antes de deitar, jogamos uma partida de xadrez, assim testo o seu grau de competitividade associado com sua inteligência, por essa razão passei a chama-lo de Algernon.
Para as pessoas velhas é mais difícil superar as perdas, por esse motivo, é utilizado em tratamentos com essa faixa etária, o combate da melancolia e superação do luto, considerando que é mais fácil viver em seu mundo imaginário que a tecnologia omite de você, do que encarar a dura realidade: que o seu bicho não irá demonstrar a mesma emoção quando retorna do trabalho. Toda noite lágrimas correm do meu rosto por essa razão, sinto falta dele. Você não é real, assim pensava antes de apagar em um sono profundo.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto.
ResponderExcluirA abordagem sobre a dificuldade em lidar com o luto é incrível.
👏👏👏♥️
ResponderExcluirO luto é processo doloroso, mas demais o seu texto
ResponderExcluirParabéns ótimo texto
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