"Em cada despedida existe a imagem da morte.'' - George Eliot
Olhava a multidão que se formava ao meu lado, diante de mim, observei enquanto dois funcionários, elevavam a cama de madeira, e com extremo cuidado a desciam, após isso, andei pouco, mas era como se tivesse que terminar uma maratona, queria fugir daquele momento, pois muitas criaturas da natureza não apenas para encarar o inimigo, mas especialmente para desistir de seguir.
Joguei lá dentro duas coisas, a primeira, a rosa que mensalmente dava para ela quando completava mais um mês juntos, lágrimas romperam do meu rosto, lembrando que tal fato não irá ocorrer mais, perdi a força nas pernas, e fiquei de joelhos olhando para o céu, perguntando mentalmente por qual motivo? QUERIA UMA EXPLICAÇÃO! E joguei um anel, iria pedir sua mão daqui a duas semanas, contudo, a vida tirou minha alma, jamais fui uma pessoa completa, agora com a sua partida, sinto que jamais terei uma vida normal novamente.
Ver ela no velório, foi uma dor tamanha, deslumbrar quem mais me fez feliz sem vida, fria, com olhos fechados, queria poder ver novamente o brilho dos seus olhos castanhos, igual naquela noite, quando revelei para ela em seu ouvido, dizendo que não era novidade, mas eu já a amava, após essa fala, entrei no carro e girei a chave. Ressalto que esse momento não é nada fácil de encarar, entretanto, há pessoas para te apoiar, ao contrário quando volta para casa.
Chegando em casa, fiquei na sala, sentado refletindo como seria minha vida, fui em nosso quarto, olhei na cômoda, o urso que dei para ela no primeiro aniversário que passamos juntos, nesse momento me sinto como o urso, pois colocara o nome de Kafka. Sentei na cama, peguei sua pasta com cada texto que fiz para ela, inclusive a tão celebrada carta de amor, que adaptei depois para um livro. Respirei fundo, fui ver o cachorro, para minha surpresa, notei ficar olhando por muito tempo para a porta esperando por ela, me sentei, o abracei bem apertado, comecei a chorar novamente, apenas disse em voz baixa: “Lamento, garoto, mas não vai voltar!’’ Interessante o fato, de até o cachorro ter ficado em silêncio em sua casa.
Enquanto preparava um jantar, fiquei julgando a possibilidade de me matar para ver ela novamente, mas sabia que seria uma ideia horrenda, considerando que iria para o lado oposto dela, e não poderia me tornar um Sísifo da vida. Comi, tomei banho, escovei os dentes, fui ler um livro de contos, uma antologia russa, quando abri o texto no kindle, senti outra facada me rasgando por dentro, quando li o seguinte título: “O primeiro amor’’. Coincidência? Talvez, pois ela fora o meu primeiro e único amor. Sentar na cama sem ter a minha morena ao meu lado para fazer carinho em seus cachos. Viver dessa forma é melhor encontrar uma forma de superar o luto para não me matar.
Me encontrava em uma biblioteca, não sabia como cheguei ali, algo me disse para ir nas obras brasileiras, a encontrei, contemplando uma obra de Machado de Assis, até ela chorou quando me encontrou, perguntou porque eu demorei tanto, falei precisar cuidar de assuntos profissionais. Meu amor estava muito radiante, no vestido preto, cheirosa desde a primeira vez que a vi, abracei ela bem apertado, falando sentir muitas saudades, e não era jamais para ela me abandonar. Ela me disse o mesmo, sentia que ela estava triste com algo, mas não revelava. A beijei lentamente, senti o meu coração cada vez mais forte e vivo, até quando abri os olhos, me vi cercado por funcionário de macacão azul-escuro, cerca de cinco pessoas ao meu redor. “Quero a ver novamente, isso não é VIDA.’’ Assim relatei para o psiquiatra.
INSPIRAÇÃO

Que incrível,fiquei presa na história do início ao fim.
ResponderExcluir👏👏👏👏❤
ResponderExcluirEscrito de forma tocante e que nos faz refletir.
ResponderExcluirSó quem perde sabe a dor
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