''A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida.''
O giz range entre meus dedos como um osso seco. Escrevo "Revolução Industrial" no quadro, mas as palavras escorregam sobre uma superfície de fantasmas. As letras não grudam mais. Não como antigamente.
Trinta anos. O mesmo quadro, as mesmas paredes verde-desbotado, o mesmo cheiro de desinfetante e tédio adolescente. Mas o ar mudou. Hoje, respira-se por intermédio telas. Os olhos dos meus vinte e cinco alunos brilham apenas com o reflexo azulado dos celulares escondidos sob as carteiras. Quando levanto a voz para chamar atenção, recebo de volta um olhar vazio, de quem espera o botão "pular anúncio" aparecer no meu rosto.
"Professor, isso cai na prova?"A pergunta, sempre a mesma. Não perguntam "por quê?" ou "como isso mudou o mundo?". Apenas "cai?". Sinto um peso no peito, familiar e cansado. Viro-me para o quadro, tentando apagar "Revolução Industrial" com o apagador. O pó branco forma uma nuvem baixa, e por um segundo, o mundo some.
E então, vejo. Não com os olhos, mas com alguma parte mais profunda, rachada pelo cansaço. No reflexo fosco do quadro limpo, o fundo não mostra mais a sala de 2024. Mostra fileiras de carteiras de madeira riscada. E rostos. A turma 7D, de 2001. A fileira da frente. A Carla, com seus óculos de arame grossos, sempre com a mão no alto antes mesmo de eu terminar a pergunta. O Rafael, que desenhava locomotivas a vapor nos cantos do caderno enquanto eu falava, conectando arte com história de um jeito que eu nunca ensinei. Eu via os olhos deles seguirem o giz, como se eu estivesse revelando mapas do tesouro, não datas.
O apagador cai da minha mão com um baque surdo. O ruído me puxa de volta. A sala atual volta a se materializar. Um aluno boceja. Outra verifica discretamente o relógio do pulso. O vazio volta, mais espesso. Tento continuar. "A máquina a vapor, de James Watt..." Minha voz soa oca, como se ecoasse numa sala vazia. Deixo o giz deslizar de novo, desenhando um diagrama tosco. Mais pó. Mais névoa.
E lá estão eles de novo. Desta vez, a 7C. Os "incontroláveis". O Paulo, que sempre desafiava minhas afirmações com um "mas e se...?" que me obrigava a pensar. A Fernanda, quietinha no canto, que um dia me entregou uma redação de cinco páginas sobre as mulheres esquecidas da revolução. Eles não eram alunos; eram colaboradores. A sala era um caldeirão de ideias, não um depósito onde eu despejava conteúdo.
Uma tosse seca me corta a visão. É o Pedro, da terceira carteira. "Tá com poeira, prof." Ele diz, e seus amigos riem baixinho. Não é maldade. É apenas... distância. Um abismo de gerações que eu não sei mais atravessar.
Meu olhar escorrega para a janela. Lá fora, o mundo é rápido, colorido, cheio de estímulos. Aqui dentro, o tempo parece ter parado, mas só para mim. Para eles, o tempo voa, contado em stories e vídeos de 15 segundos. Como competir? Como fazer com que a abolição da escravidão importe mais que o próximo TikTok?
Volto ao quadro. Meus dedos, agora trêmulos, buscam o giz. O pó branco me cobre as pontas dos dedos, invade as linhas da minha pele. Escrevo "Legado", mas a palavra some quase instantaneamente, absorvida pelo verde gasto.
E no breve instante antes de desaparecer, o quadro não reflete mais. Mostra. Mostra a 7E fazendo um teatrinho sobre os operários das fábricas. Mostra a 7F em um debate acalorado, dividida entre capital e trabalho, com paixão genuína no rosto. Apresenta o 7I organizando, por conta própria, uma visita ao museu ferroviário. Eu era apenas o condutor. Eles eram a viagem.
A campainha estridente rasga o ar. Um alívio coletivo e palpável percorre a sala. Cadeiras arrastam, mochilas fecham, celulares surgem abertos e brilhantes. Em trinta segundos, evaporam. Fico sozinho.O silêncio que fica não é pacífico. É pesado. É o som do vácuo.
Caminho até minha mesa e abro a pasta de trabalhos da 8ª série. O cansaço pesa meus ossos. Deveria corrigir, mas minhas mãos hesitam. Em vez disso, elas puxam de dentro da gaveta uma pasta velha, de capa de couro rachada. O diário de 2003. Não preciso abrir. Vejo cada nome da 7D. Sinto o peso do que construímos juntos. Eles seguiram em frente. Tornaram-se engenheiros, artistas, mães, ativistas. E eu? Fiquei aqui. Preso no mesmo lugar, enquanto o mundo da educação mudava ao meu redor, tornando-me um estranho na minha própria sala.
Recosto a testa no quadro. A superfície gelada queima minha pele. Fecho os olhos. Não são alucinações. São ecos. São as marcas que turmas inteiras deixaram não no quadro, mas em mim. E quando tento passar essas marcas adiante, elas não grudam mais. O giz de hoje é diferente. O quadro é diferente. Os alunos são diferentes. Abro os olhos. A sala está vazia, iluminada pela luz mortiça do fim da tarde.
Volto à mesa e pego o primeiro trabalho da pilha. "Império Otomano por Dafne, 8ºB". Suspirei duas semanas atrás, quando entreguei o tema. Ninguém demonstrou um pingo de curiosidade. Abro o trabalho. Vinte páginas, encadernadas à mão. Figuras coloridas, uma linha do tempo meticulosa. Começo a ler... e algo não encaixa.
Falo sobre Suleiman, o Magnífico, mas o texto detalha reformas administrativas que soam... latinas. A próxima página menciona "a paz romana" e estradas que uniam um império. Viro páginas mais rápidas. O coração acelera. Aqui, uma análise detalhada da dinastia júlio-claudiana. Ali, um estudo sobre a arquitetura do Coliseu.
E então, encontro a seção que trava minha respiração: "Nero e o Grande Incêndio de Roma, entre o mito e a nova historiografia". Quatro páginas densas, com fontes citadas, questionando a narrativa tradicional. A letra da estudante, miúda e precisa, dança na página. Ela não apenas trocou os impérios. Ela mergulhou fundo em um, com uma paixão que eu não via há anos.
Lembro do dia anterior à entrega. Ela chegou depois da aula, o rosto um misto de empolgação e nervosismo. "Professor, pode dar uma olhada? Quero ter certeza que está tudo certo." Eu, afogado em planilhas e relatórios, apenas balancei a cabeça. "Deixa aqui. Olho depois." Nunca olhei.
Meus dedos tremem ao fechar o trabalho. Setenta páginas. Setenta páginas sobre o Império Romano quando pedi sobre o Otomano. Um erro fundamental. Então, meus olhos voltam para aquela análise sobre Nero. Para a pergunta que ela levantou em letras azuis: "Até que ponto os historiadores posteriores construíram um vilão para servir a seus próprios tempos?" Era o tipo de pergunta que a Carla da 7D faria. Que o Paulo da 7C debateria com fervor.
Ela não foi desleixada. Errou o endereço, mas viajou uma distância que nenhum outro aluno se dispôs a percorrer. Gastou semanas nisso. Solicitou ajuda. E eu, na minha névoa de saudade e cansaço, não a vi. Não vi a faísca acesa bem na minha frente.
Ajo com uma decisão súbita. Pego minha caneta vermelha. No topo da capa, escrevo: "EXCELENTE TRABALHO Nota: 10,0."
Em seguida, abaixo, em letras maiores: "Dafne - este não é um trabalho sobre o Império Otomano. É um trabalho sobre como se faz História. Sobre paixão, foco e pensamento crítico. Apreciei profundamente sua análise de Nero, que demonstra pesquisa excepcional. Marquei uma conversa para discutirmos o Império Otomano. Você já provou que domina o essencial: a fome por entender. Parabéns."
Coloco o trabalho de lado. O peso no peito não desapareceu, mas mudou de textura. Não era mais só a âncora da saudade. Era também o frio da responsabilidade por quase negligenciar uma aluna como a Dafne, enquanto choramingava pelos tempos áureos.Levanto-me. O quadro me encara, vazio e verde. Caminho até ele. Aperto o apagador em uma mão. Com a outra, tiro um giz azul da caixa, o mesmo azul vibrante que Dafne usou para as citações em seu trabalho.
"AMANHÃ: OS DOIS IMPÉRIOS. O QUE UM ERRO GENIAL PODE NOS ENSINAR?"
Minha mão esquerda toca a capa do trabalho sobre Roma. Minha direita ainda segura o giz azul, manchada de cor. O passado das turmas 7D, 7C, 7E, 7F e 7I não era um padrão a ser repetido. Era um exemplo a ser reinventado. Eles não me deram as respostas. Deram-me o método: ver o aluno, não apenas o erro. Acender a faísca, não apenas corrigir o desvio. O dia terminou. Amanhã, começarei de novo. Desta vez, olhando para frente. Com um giz azul na mão e, finalmente, os olhos abertos para as faíscas que ainda lutam para brilhar na minha sala.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Um professor veterano enfrenta o desgaste do tempo, da rotina escolar e da distância crescente entre gerações. Preso às lembranças de turmas apaixonadas pelo saber, ele acredita ter perdido sua conexão com os alunos atuais. Um acontecimento inesperado em sala de aula, porém, o obriga a rever seus critérios, seu olhar e o verdadeiro sentido de ensinar. A história reflete sobre educação, escuta e a capacidade de recomeçar. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Parabéns ,amor. Ótimo texto.
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