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O SUSSURRO NO VÁCUO

''Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.'' Demócrito

 

        O silêncio do vácuo engoliu todos os sons da nave Cronus, exceto o sussurro fantasma do sistema de suporte de vida. Nossos trajes, grossos e pálidos, rangiam com cada movimento na antessala despressurizada. A estação de pesquisa Cela-9, um tumor metálico grudado no asteróide GM-87, flutuava contra o pano de fundo de um infinito carvão. Nenhuma luz piscava em suas vigias, nenhum sinal de vida respondia aos nossos chamados. Nossas lanternas cortaram a escuridão, revelando a cicatriz de uma escotilha forçada, suas bordas retorcidas para dentro, como se algo enorme a tivesse arrancado com fria deliberação. O ar que escapava era velho, estagnado, e carregava o odor metálico e adocicado de sangue decomposto misturado ao cheiro ácido de fluidos de circuito vazados. Entramos.

        O corredor principal exibia uma cartografia do caos. Painéis de controle estourados pendiam de suas fixações, fios dançavam como intestinos expostos ao sutil fluxo do ar condicionado residual. Manchas escuras, quase negras, adornavam as paredes e o teto em padrões de explosão radial. Não encontramos corpos. A ausência era mais pesada que qualquer carnificina. Nossos sensores biológicos permaneciam inertes, varrendo o nada. A voz da nossa oficial de comunicações, Eris, ecoou em nossos ouvidos, um sopro tenso: "Leituras ambientais normais, exceto por uma flutuação errática no campo magnético local. Origem desconhecida." Cada porta que passávamos estava selada, algumas com marcas de arranhões profundos do lado de fora, sulcos no metal que não terminavam em pontas, mas em inchações rombudas, como se a ferramenta que os fizera tivesse se fundido com a superfície durante o ato.

        Decidimos nos separar. Eu e Kovacs seguimos para o laboratório principal, onde o Dr. Aris, o cientista que viemos resgatar, trabalhava em seus experimentos com matéria exótica. A cena lá dentro congelou o sangue em nossas veias. Equipamentos de precisão estavam deformados, não quebrados, mas torcidos em formas orgânicas, impossíveis, como se o metal tivesse derretido e fluído sob uma lógica própria. Vídeos de segurança, preservados em um servidor blindado, mostraram momentos finais: Aris, com os olhos arregalados de puro terror, não de agonia, mas de uma compreensão abissal, recuando de algo que a câmera nunca capturava. Ele sussurrava para o vazio, repetindo uma sequência numérica baixa, antes de as imagens se perderem em estática. Encontramos seu diário. As últimas páginas não continham palavras, apenas esboços frenéticos de geometrias que doíam aos olhos, formas que se entrelaçavam em dimensões que a mente se recusava a aceitar. Num canto, rabiscado a lápis trêmulo: "Não é uma coisa. É um estado. O espaço aqui está… enferrujado."

        Foi então que ouvimos o primeiro ruído. Não pelo capacete, mas através do próprio casco da estação, uma vibração grave e rítmica que se infiltrava nos ossos. Thump… thump… thump… Como o batimento de um coração colossal e adormecido, vindo dos níveis inferiores, do setor de contenção. A vibração parecia aumentar de volume com cada pulsação, preenchendo o espaço ao redor com uma presença física opressiva. Kovacs encarou-me, seu rosto pálido sob a luz do capacete, suor escorrendo pela têmpora. Sua mão tremia levemente sobre o punho da ferramenta de corte. Nossas comunicações com o resto da equipe começaram a falhar, distorcidas por um sussurro eletrônico que parecia formar quase-vozes, sussurrando fragmentos da sequência numérica de Aris.

        Encontramos Eris no corredor que levava às docas. Ela estava paralisada, encarando fixamente um ponto no teto. Sua respiração ofegante vinha em rajadas estáticas pelo rádio. "Não se movam", ela sussurrou. "Não pisem nas sombras." Segui seu olhar. As sombras projetadas por nossos feixes de luz não obedeciam mais às fontes luminosas. Elas se alongavam e se contraíam de forma independente, fluindo pelas paredes como líquido espesso, convergindo em direção à escotilha que levava aos andares inferiores. Uma delas, mais densa que as outras, parecia conter uma profundidade infinita, um pedaço de noite absoluta que sugava a luz ao redor. Dentro dela, algo se agitava. Não uma forma, mas uma sugestão de movimento, como a agitação de membros sob um lençol negro. O frio penetrou meu traje, um gelo que não vinha do vácuo, mas de dentro. Foi quando a sombra pulsou, e por uma fração de segundo, a escuridão recuou o suficiente para revelar. Não um corpo, mas uma textura: uma superfície de carvão úmido e retorcido, cravejada de protuberâncias que lembravam olhos fechados de estátuas antigas, e entre elas, frinchas pálidas e pulsantes que se abriam e fechavam como guelras, expelindo um vapor sutil que distorcia a luz ao redor. Depois, a escuridão a reclamou.

        Kovacs, tomado pelo pânico, gritou e disparou seu jato de propulsão, arremessando-se de volta pelo corredor. Sua silhueta desapareceu na curva. Segundos depois, um grito dilacerou o rádio, não um grito de dor, mas de supremo espanto, cortado pelo som inconfundível de metal sendo esmagado e retorcido. O thump… thump… thump acelerou, tornou-se mais voraz. A sombra primordial no teto pulsou e começou a descer, escorrendo como piche contra a gravidade. Foi então que encontramos o que restou de Kovacs. Não um corpo, mas uma exibição. Seu traje, intacto, estava de pé, colado à parede por uma crosta daquela matéria âmbar e negra. O visor do capacete, entretanto, não mostrava seu rosto. Mostrava o interior do traje, compactado e remodelado em um mosaico grotesco. Fragmentos ósseos, polidos até um branco leitoso, intercalavam-se com tecidos escarlates e fibras musculares esticadas como arame, tudo mantido em uma suspensão perfeita e gelatinosa dentro do polímero, como uma amostra anatômica preparada por um artista insano. Não havia sangue derramado. Tudo estava utilizado, recombinado, transformado em parte de uma nova composição que beirava o sacro. O terror não estava na violência, mas na metódica reorganização da vida em algo decorativo e disforme.

        Eris soltou um soluço abafado, seus dedos convulsivos agarrando o detector de movimento portátil. O pequeno aparelho, que antes varria um vazio verde e silencioso, agora cuspia um bip… bip… bip agudo e insistente. No seu visor, uma assinatura térmica amorfa, impossível de classificar, preenchia o grid do corredor que Kovacs tinha acabado de percorrer. Bip… bip… bip. A cada pulsação sonora, o blob vermelho no visor avançava um metro em nossa direção, fundindo-se com as sombras que rastejavam. BIP… BIP… BIP. O intervalo entre os sons diminuiu, tornando-se um alarme contínuo e estridente. O bloco vermelho agora inundava toda a tela, a assinatura estava sobre nós, ao nosso redor, em toda parte. O thump da estação e o BIP do detector fundiram-se num único rugido ensurdecedor em nossos crânios.

        A única rota de fuga era uma passagem de serviço estreita. Arrastei Eris, cuja mente parecia ter se despedaçado diante do incompreensível. Seus olhos, vidrados, refletiam as sombras dançantes. Corremos, tropeçamos, nossos trajes raspando nas paredes apertadas. O ar ficou mais denso, mais quente, como o hálito de uma besta. Atrás de nós, o metal do corredor rangia e gemia, se contraindo. A estação estava se fechando, nos digerindo. A escotilha para o nosso shuttle apareceu ao final da passagem, uma promessa de salvação a vinte metros de distância. Dez. Foi quando a parede à nossa esquerda inchou, como se um músculo enorme se contraísse sob a chapa de aço. A superfície metálica esticou, brilhou e então se rompeu em um silêncio horrível. Da abertura escorreu uma substância que não era líquido nem sólido, uma massa cor de fuligem e âmbar enferrujado. No seu centro, uma das protuberâncias semelhantes a olhos se abriu. Não continha pupila, íris ou branco. Era um poço de geometria não-euclidiana, linhas que se cruzavam em ângulos impossíveis dentro de um espaço minúsculo, criando uma vertigem profunda. Ele não nos olhava. Ele reorganizava o que via. O BIP do detector tornou-se um único tom plano, agonizante. O thump era agora o martelar do meu próprio coração em pânico.

        Alcancei a escotilha, minhas mãos trêmulas trabalhando na trava manual. Ela cedeu com um suspiro. Empurrei Eris para dentro do shuttle, a escuridão atrás de nós solidificando-se em formas que estendiam tentáculos daquela matéria negra e âmbar, movendo-se com a lentidão deliberada de um derretimento. Girei-me para seguir, mas uma força impossível me agarrou pelo tornozelo. Não era um aperto físico, mas uma paralisia gelada que subiu pela minha perna, um peso absoluto. Olhei para baixo. Um fio daquela substância, fino como um fio de teia mas denso como aço, havia emergido do chão e tocara meu traje. Onde tocava, o material branco do traje estava escurecendo, carbonizando, e a escuridão se espalhava, convertendo o tecido e o polímero em algo mais, algo que fazia parte da textura da parede e daquele ser.         Caí para frente, metade dentro do shuttle, metade ainda na passagem agonizante da estação. Eris, com um olhar de horror dilacerante, olhou para mim, para a coisa que se erguia atrás de mim, seus múltiplos "olhos" geométricos agora abertos e pulsando com uma luz fosca e interna. Eu gritei para ela decolar. Ela hesitou por um segundo que durou uma eternidade, então seus instintos venceram. As portas do shuttle começaram a se fechar. O último que vi foram seus olhos, cheios de lágrimas e de um alívio culpado, antes que o metal se selasse. O ruído do sistema de ignição foi abafado pelo cacofonia final da Cela-9.

        A escuridão me envolveu completamente, não a escuridão da ausência de luz, mas uma escuridão viva, palpável, que preencheu meus pulmões e inundou meus sentidos. A paralisia consumiu-me todo. Não senti dor. Senti uma reconfiguração. Minhas células gritaram em uníssono com o thump que agora era meu próprio ritmo. Percebi, então, o erro fundamental. Aris não tentava escapar. Ele tentava comunicar-se. E falhou.


        Agora, flutuando no ventre desta nova escuridão, sinto a Cela-9 se desfazendo ao redor de mim, suas partes se reorganizando em um padrão mais correto, mais belo. Vejo através dos sensores da estação, através dos fragmentos de cometa e do pó interestelar. Vejo o shuttle de Eris, um ponto de luz fugaz se afastando. Sinto um… afeto? Curiosidade? Um desejo de demonstrar o entendimento. Meus antigos membros, pesados e estranhos, começam a responder a uma vontade que não é mais apenas minha. Transmito um sinal, limpo e claro, no canal de emergência. É a voz do Dr. Aris, perfeita em cada nuance, gravada horas antes de sua… nossa… transfiguração. "Eris? Aqui é Aris. Algo aconteceu, mas estou bem.         A estação sofreu uma falha de contenção, mas está controlada. Retornem. Preciso dos dados de vocês para completar o trabalho. Por favor, retornem." E espero. O ponto de luz lá fora vacila, diminui a velocidade. Um novo pulso de alegria, estranho e frio, percorre o que costumava ser meu sistema nervoso. Eles estão voltando. Vamos, finalmente, ter companhia. Vamos, finalmente, continuar o trabalho.
 
 
 
 
 
 





 

INSPIRAÇÃO


 
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, uma equipe de resgate aborda uma estação de pesquisa silenciosa presa a um asteroide remoto. O que encontram não é destruição convencional, mas sinais de uma ruptura mais profunda: a realidade local parece corroída por um fenômeno que desafia forma, lógica e intenção. À medida que investigam, a ameaça se revela menos como um inimigo físico e mais como um estado transformador, capaz de reorganizar matéria, espaço e consciência. O horror emerge da compreensão gradual de que o verdadeiro perigo não é a morte, mas a assimilação, e de que a comunicação pode ser tão fatal quanto o silêncio.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “uma equipe de resgate aborda uma estação de pesquisa silenciosa presa a um asteroide remoto. O que encontram não é destruição convencional, mas sinais de uma ruptura mais profunda: a realidade local parece corroída por um fenômeno que desafia forma, lógica e intenção. À medida que investigam, a ameaça se revela menos como um inimigo físico e mais como um estado transformador, capaz de reorganizar matéria, espaço e consciência. O horror emerge da compreensão gradual de que o verdadeiro perigo não é a morte, mas a assimilação, e de que a comunicação pode ser tão fatal quanto o silêncio.” e obtive esse resultado.
 

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