Meu nome é Gael. O despertador toca às 4h17. Meu corpo já está em movimento antes da mente acordar. Escuridão úmida do quarto de taipa. Saio em silêncio, desviando do buraco no assoalho. A rua ainda pertence à noite e aos traficantes do Morro da Serpente, mas tenho um salvo-conduto: minhas pernas.
Corro dois quilômetros até o ponto de ônibus. É meu primeiro treino do dia. O ônibus 975 chega com os faróis cegos de sono. Dentro, balanço em pé. Às 18h, volto. O centro de treinamento é meu portal para outro mundo, um mundo de linhas retas, regras justas e cronômetros que não mentem. Lá, meu tempo é o que importa. No morro, o que importa é sobreviver ao tempo.
Foi numa quarta-feira, depois do treino. Estava a três quarteirões do portão do centro, na calçada da Avenida das Flores. A via larga, lisa, que separa o bairro dos ricos da beirada do morro. Esperei o sinal fechar para os veículos. O asfalto cheirava a chuva recente. Olhei para a pista de atletismo que ainda reluzia ao longe, do outro lado da avenida. Um sonho tão perto.
Ouvi o ronco antes de ver a luz. Um carro baixo, prateado, vinha acelerando, não pararia no amarelo. Instinto: dei o impulso para trás, mas o para-choque me colheu pelo joelho direito. O mundo girou. O impacto foi seco, ósseo. Caí no meio da faixa. Não perdi a consciência. Vi a placa do veículo: uma sequência bonita, de letras e números que pareciam escolhidos a dedo. O motorista desceu. Usava uma camisa polo clara, bermuda. Cheirava a perfume caro e nervosismo.
“Meu Deus, você não olhou?”, ele disse, mais para os celulares que começavam a filmar do que para mim. A dor era um fogo gelado subindo pela perna. Sirenes. Luzes azuis e vermelhas. Lembro do rosto pálido do policial chegando, e o motorista, descobri depois que se chamava Otávio Mendonça, falando baixo, mostrando documentos, apontando para mim caído no asfalto. Lembro do joinha que ele deu, discreto, para o policial, enquanto subia na viatura. Um gesto de cumplicidade, de “está resolvido”.
No hospital, a notícia veio aos pedaços. Múltiplas fraturas, esmagamento, risco de infecção. “Tentamos de tudo, Gael”, a médica disse, com os olhos fundos. A amputação foi abaixo do joelho. Meus pais choraram na sala de espera. Um advogado veio, enviado pela família Mendonça. Ofereceram uma ajuda “para facilitar as coisas”. Um valor que pagaria o aluguel de dois anos no morro, mas não compraria de volta meu tendão de Aquiles.
O caso foi julgado como “acidente sem culpado identificado”. Otávio alegou que eu havia invadido a pista. As câmeras da avenida, convenientemente, “estavam em manutenção”. Ele não passou um dia detido. No tribunal, em seu terno azul-marinho, ele até deu um joinha discreto para o juiz ao final da sessão. Para nossa família, na arquibancada, ele virou os olhos, um olhar rápido, de desprazo, como quem vê um obstáculo já ultrapassado.
A luz branca da UTI ainda tremeluz atrás das minhas pálpebras quando fecho os olhos. O zumbido do aparelho é minha nova pista de corrida. O hino do rádio da enfermeira é a minha medalha de consolação.
Agora, de volta ao Morro da Serpente, a cadeira de rodas doada range nas pedras soltas. Os 542 degraus até minha casa são um monumento à minha antiga agilidade. Meu novo treino é aprender a desviar dos buracos com rodas, não com os pés.
O senhor Almir veio. Trouxe os tênis novos. “Para quando…”, ele começou. Pendurei-os na parede. Olho para eles e vejo a Avenida das Flores, lisa e fatal. Vejo o veículo prateado. Aquele gesto e atitude casual que selou meu destino de asfalto.
Às vezes, o fantasma da minha perna coça. Às vezes, ele corre. Corro com ele, nos sonhos. Até o barulho de um escapamento na rua abaixo me faz estremecer. A dor crônica é minha companheira, sim. Mas pior é a memória do asfalto frio contra o meu rosto, e o som do carro de luxo se afastando, sem uma falha no motor, rumo a um mundo de linhas retas que, para mim, agora estão todas quebradas.
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Ótimo texto, meu amor.
ResponderExcluirAnsioso pelos próximos.
Reflexivo e muito bem elaborado 👏
ResponderExcluir👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
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