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O SEMEADOR DE FALHAS

 ''A grandeza exige sacrifícios.''  Friedrich Schiller

 

    O visor do corredor C-17 pulsou em âmbar quando dobrei a esquina, e o som agudo atravessou o capacete como um dente batendo em vidro. O cheiro ácido denunciava algo errado antes mesmo de eu alcançar o painel, uma presença invisível que arranhava a garganta. Apoiei a mão no metal frio e puxei o mundo para trás, sentindo a pressão conhecida na base do crânio. O vazamento nunca aconteceu, o alerta recuou, e o corredor voltou a fingir normalidade. Afastei-me rápido, porque permanecer depois do conserto sempre deixava rastros, e rastros fazem perguntas.

    Meu trabalho nunca exigiu aplausos, apenas silêncio contínuo. As pessoas dormiam, amavam, brigavam por ninharias, enquanto eu aparava arestas do destino com movimentos mínimos e discretos. No caminho até o núcleo, passei por um salão de cultivo onde folhas largas flutuavam sob luz artificial, e uma mulher cantava para ninguém em especial. O som me acompanhou por metros, frágil demais para sobreviver a uma verdade exposta. Ajustei o ritmo da respiração, porque ali, além das áreas habitadas, o casco afinava e a nave parecia conter a própria respiração. Quando o primeiro diagnóstico piscou fora do intervalo aceitável, senti o estômago afundar como se a gravidade tivesse aumentado sem aviso.

    Analisei os dados até os olhos arderem, e cada leitura confirmava a mesma história torta. Não existia um ponto seguro no passado para onde recuar; a falha nascera com o núcleo, moldada como osso defeituoso. Tentei forçar a reversão mesmo assim, e o tempo respondeu com resistência, um empurrão seco que quase me derrubou. Alarmes começaram a ensaiar um coro distante, abafado pelos protocolos que eu ainda controlava. O relógio interno marcou setenta e duas horas, e o número ficou gravado na mente como um hematoma. Caminhei até a área de observação para ver rostos antes que eles virassem estatísticas.

    Lá, crianças corriam presas a cabos magnéticos, rindo do próprio impulso, enquanto um idoso observava as estrelas com um copo de água suspenso à frente do nariz. Um garoto lançou um avião de papel que descreveu uma curva improvável, roçando o teto antes de pousar intacto. Guardei aquela imagem porque curvas improváveis salvam vidas às vezes. Voltei ao controle com o coração acelerado e abri arquivos que ninguém consultava havia gerações. A anomalia registrada apareceu na tela como um erro elegante, um redemoinho de equações que se recusavam a fechar. Ajustei a rota sem anúncios, sentindo o peso da decisão martelar as têmporas.

    A aproximação sacudiu a nave como se mãos gigantes a testassem, e os painéis cuspiram faíscas que pintei de inexistentes com reflexos rápidos. As estrelas esticaram-se em fios luminosos, depois se dobraram, formando um nó impossível que engolia distância e ordem. Empurrei minha habilidade até o limite e além, e o tempo abriu-se em camadas sobrepostas, cada uma gritando um futuro distinto. Vi corredores em chamas, vi silêncio, vi jardins sob sóis que não reconheci, tudo acontecendo ao mesmo tempo. O medo não veio como pânico, mas como clareza cortante: qualquer escolha apagaria incontáveis outras. Prendi a respiração, selecionei uma saída sem saber por quê, e soltei.

    O impacto jogou-me contra o assento, e por um segundo pensei ter falhado, porque tudo ficou escuro. A gravidade voltou com violência, os sistemas gemeram, e o casco emitiu um estalo longo demais para conforto. As luzes acenderam uma a uma, como se hesitassem, e o painel exibiu uma data que não coincidia com minha memória. Caminhei pelos corredores esperando fumaça ou corpos, mas encontrei apenas o murmúrio habitual da nave viva. No salão de cultivo, a mesma mulher cantava, embora a melodia tivesse um intervalo diferente, quase imperceptível. Encostei na parede, sentindo as pernas cederem, sem saber se aquilo era vitória, atraso ou outra coisa que ainda não tinha nome.

 

 


 

 

INSPIRAÇÃO


 
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Em uma frota geracional que atravessa o vazio em busca de um novo lar, um técnico invisível mantém a ordem corrigindo incidentes antes que alguém perceba. Sua rotina de contenção silenciosa começa a ruir quando sinais impossíveis escapam ao controle. Diante de uma ameaça que não pode ser apagada, ele se vê forçado a ultrapassar os limites do próprio ofício. O destino da nave passa a depender de uma escolha que ninguém mais pode fazer. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei “Em uma sala de controle apertada de uma nave espacial, um técnico na casa dos quarenta anos, com o rosto suado, observa intensamente através da janela frontal um enorme vórtice de luz e escuridão. Ele está cercado por telas piscando, luzes de alerta e equipamentos emitindo falhas, enquanto segura os controles com força, demonstrando tensão e determinação. Do lado de fora, um redemoinho espacial colossal se forma, distorcendo estrelas e o próprio espaço-tempo. A cena é extremamente realista, com iluminação cinematográfica, alto nível de detalhes, texturas metálicas desgastadas, atmosfera densa e sensação iminente de perigo.” e obtive esse resultado.

 

 

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