''A grandeza exige sacrifícios.''
O visor do corredor C-17 pulsou em âmbar quando dobrei a esquina, e o som agudo atravessou o capacete como um dente batendo em vidro. O cheiro ácido denunciava algo errado antes mesmo de eu alcançar o painel, uma presença invisível que arranhava a garganta. Apoiei a mão no metal frio e puxei o mundo para trás, sentindo a pressão conhecida na base do crânio. O vazamento nunca aconteceu, o alerta recuou, e o corredor voltou a fingir normalidade. Afastei-me rápido, porque permanecer depois do conserto sempre deixava rastros, e rastros fazem perguntas.
Meu trabalho nunca exigiu aplausos, apenas silêncio contínuo. As pessoas dormiam, amavam, brigavam por ninharias, enquanto eu aparava arestas do destino com movimentos mínimos e discretos. No caminho até o núcleo, passei por um salão de cultivo onde folhas largas flutuavam sob luz artificial, e uma mulher cantava para ninguém em especial. O som me acompanhou por metros, frágil demais para sobreviver a uma verdade exposta. Ajustei o ritmo da respiração, porque ali, além das áreas habitadas, o casco afinava e a nave parecia conter a própria respiração. Quando o primeiro diagnóstico piscou fora do intervalo aceitável, senti o estômago afundar como se a gravidade tivesse aumentado sem aviso.
Analisei os dados até os olhos arderem, e cada leitura confirmava a mesma história torta. Não existia um ponto seguro no passado para onde recuar; a falha nascera com o núcleo, moldada como osso defeituoso. Tentei forçar a reversão mesmo assim, e o tempo respondeu com resistência, um empurrão seco que quase me derrubou. Alarmes começaram a ensaiar um coro distante, abafado pelos protocolos que eu ainda controlava. O relógio interno marcou setenta e duas horas, e o número ficou gravado na mente como um hematoma. Caminhei até a área de observação para ver rostos antes que eles virassem estatísticas.
Lá, crianças corriam presas a cabos magnéticos, rindo do próprio impulso, enquanto um idoso observava as estrelas com um copo de água suspenso à frente do nariz. Um garoto lançou um avião de papel que descreveu uma curva improvável, roçando o teto antes de pousar intacto. Guardei aquela imagem porque curvas improváveis salvam vidas às vezes. Voltei ao controle com o coração acelerado e abri arquivos que ninguém consultava havia gerações. A anomalia registrada apareceu na tela como um erro elegante, um redemoinho de equações que se recusavam a fechar. Ajustei a rota sem anúncios, sentindo o peso da decisão martelar as têmporas.
A aproximação sacudiu a nave como se mãos gigantes a testassem, e os painéis cuspiram faíscas que pintei de inexistentes com reflexos rápidos. As estrelas esticaram-se em fios luminosos, depois se dobraram, formando um nó impossível que engolia distância e ordem. Empurrei minha habilidade até o limite e além, e o tempo abriu-se em camadas sobrepostas, cada uma gritando um futuro distinto. Vi corredores em chamas, vi silêncio, vi jardins sob sóis que não reconheci, tudo acontecendo ao mesmo tempo. O medo não veio como pânico, mas como clareza cortante: qualquer escolha apagaria incontáveis outras. Prendi a respiração, selecionei uma saída sem saber por quê, e soltei.
O impacto jogou-me contra o assento, e por um segundo pensei ter falhado, porque tudo ficou escuro. A gravidade voltou com violência, os sistemas gemeram, e o casco emitiu um estalo longo demais para conforto. As luzes acenderam uma a uma, como se hesitassem, e o painel exibiu uma data que não coincidia com minha memória. Caminhei pelos corredores esperando fumaça ou corpos, mas encontrei apenas o murmúrio habitual da nave viva. No salão de cultivo, a mesma mulher cantava, embora a melodia tivesse um intervalo diferente, quase imperceptível. Encostei na parede, sentindo as pernas cederem, sem saber se aquilo era vitória, atraso ou outra coisa que ainda não tinha nome.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto,amor.
ResponderExcluirExcelente!
ResponderExcluir