‘’Para nós dois, “casa” não é um lugar. É uma pessoa.’’ Stephanie Perkins
Meu nome é Gabriel, e em 2025 troquei a segurança do meu escritório de advocacia em Brasília pelo ar carregado de poeira e mistério do interior de Goiás. Tudo por uma história mal contada, um testamento desaparecido e, principalmente, por Samara.
Foi ela quem me puxou para essa aventura. Eu, com minha paixão por livros de história empoeirados e minha habilidade de rastrear qualquer informação em bancos de dados públicos ou não tão públicos assim, achava que estava preparado para qualquer coisa. Samara, com seus olhos castanhos que pareciam enxergar padrões onde eu só via caos, sabia que não estávamos. “É a Rainha do Crime, mas no Cerrado, Gabriel,” ela disse, o vento brincando com seus cachos enrolados, rebeldes como o espírito dela. “Aqui, as pistas não estão nos e-mails, estão na terra.”
Nosso cliente era uma senhora de mais de noventa anos, Dona Iolanda. Ela acreditava que sua família fora lesada décadas atrás, que uma fazenda rica em quartzo rosa fora tomada por documentos falsos. Meu trabalho era jurídico e histórico: provar a fraude. O de Samara, formada em medicina, mas com uma mente matemática que encontrava harmonias em números e na música do violão que trazia na mochila, era decifrar de qual maneira?.
A viagem foi longa, estradas de terra que sacudiam o carro e embaçavam meus óculos. Samara, ao meu lado, traçava mapas em um caderno, calculando distâncias e cruzando datas com a precisão de uma equação. “Olha,” ela apontou, seus dedos ágeis marcando um ponto. “Aqui o registro de compra diz ‘cem alqueires’. Mas pela topografia da época, descrita nessa carta do arquivo que você achou, a área real era maior. A discrepância é o ponto de entrada da fraude.”
Ela tinha razão. Minhas pesquisas em fóruns de genealogia e meus rastreios em sistemas de cartório digitalizados encontraram o nome do suposto intermediário. Mas foi a habilidade clínica de Samara que encontrou a prova física. Na velha sede da fazenda, agora em ruínas, convenceu o caseiro desconfiado a deixá-la examinar uma antiga cicatriz em seu braço. “Isso não é de acidente com facão,” sussurrou ela para mim depois, os olhos castanhos focados. “O padrão de laceração coincide muito mais com uma briga, com algo pontiagudo não-laminado. Ele sabe mais do que diz.”
Usando meu laptop e um modem por satélite, cruzei os dados. A história que montávamos era de violência e grilagem. Samara, enquanto isso, usava a música como isca. À noite, na varanda da pensão, tocava modas de viola antigas. As melodias atraíam os mais velhos, e entre um verso e outro, surgiam fragmentos de memória: “O ribeirão que secou”, “o marco de pedra que sumiu”.
Unimos as peças. Meu conhecimento jurídico apontou a falha no registro inicial. Minha capacidade de pesquisa encontrou o neto do cartorário original, que guardava um livro-caixa com anotações divergentes. A matemática implacável de Samara triangulou a localização do antigo marco de divisa, usando as descrições dos idosos e mapas topográficos antigos que digitalizei.
A aventura culminou não em um tiroteio, mas em uma confrontação silenciosa e tensa na sala do atual possuidor da terra, um homem forte do agronegócio. Eu apresentei a linha do tempo histórica e as incongruências legais. Ele riu, desdenhoso. Foi quando Samara, calma, pegou seu violão. Não para tocar, mas para apontar para o tampo de madeira.
“Madeira de jacarandá-da-bahia, rara, cortada antes da proibição,” disse, sua voz suave, mas cortante. “O mesmo tipo e padrão de grã da escrivaninha que seu avô, o primeiro comprador, usava no cartório, segundo as fotos que ele encontrou. Presente de gratidão pelo ‘serviço’, não foi?” A conexão era circunstancial, mas poderosa. A música dela havia aberto portas, e sua mente médica e analítica fechou o cerco, notando um detalhe material que meu foco digital havia ignorado.
O homem empalideceu. A ameaça de um escândalo público, unindo a precisão dos documentos que desenterrei à narrativa humana que Samara teceu, foi suficiente. Ele não confessou, mas aceitou uma mediação.
Na estrada de volta, com o pôr-do-sol tingindo o cerrado de ouro, eu olhei para ela. Os óculos na minha frente refletiam a paisagem, mas meus olhos só queriam ver os cachos dela dançando ao vento da janela. “Rainha do Crime do Cerrado,” falei, sorrindo.
Ela riu, um som que para mim era a melhor partitura. “Você não foi mal, seu historiador de códigos. Mas no interior, as melhores pistas não estão na nuvem, Gabriel. Estão nas pessoas, na terra e nos detalhes que eles pensam que ninguém vê.” E apertou minha mão, sua força delicada de médica e musicista, sendo o ponto final mais perfeito da nossa aventura.
INSPIRAÇÃO

Excelente 👏
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