O meu gancho de titânio rangeu contra a argamassa solta do Edifício Século. Dezessete andares de fachada art déco escura se erguiam acima de mim, um penhasco de terracota e desdém. A cidade era um tapete de luzes cintilantes lá embaixo, um mundo separado por vidro e vento. Respirei fundo, o ar frio da altitude queimando meus pulmões. Aquele cheiro era familiar, uma mistura de fuligem antiga e abandono. Era meu território de caça. Eles me chamavam de caçador de céu, um título pomposo para um catador de lixo tecnológico das alturas. Minha empresa terceirizada me pagava para recuperar drones de entrega, aqueles zangões teimosos que emperravam em parapeitos e antenas. O trabalho sujo da nova economia.
Aquele trabalho era diferente. A mensagem chegou por um canal criptografado que eu nem sabia ainda possuir. Ofereciam o triplo da minha taxa por uma hora de esforço. O alvo era um drone Cérebro-2, modelo proibido por vigilância excessiva. Ele estava preso no pináculo do Século, um lugar que nem os pássaros mais tolos visitavam. Eu deveria ter recusado. Um equipamento proibido significava gente perigosa interessada nele. Mas o aluguel do meu cubículo na zona leste venceria em cinco dias. O cheiro do mofo no corredor parecia mais presente naquela semana. Aceitei.
O acesso ao topo não vinha de baixo. Os andares inferiores do Século estavam selados com placas de aço e ameaças jurídicas. Usei o prédio irmão, o Trinta e Um, conectado por uma passarela de serviço enferrujada no décimo oitavo andar. A ponte gemera sob meu peso, parafusos protestando contra séculos de ferrugem. Cada passo era uma negociação com a gravidade. Do outro lado, uma janela quebrada me engoliu. A escuridão no Século era sólida e quente, oposta ao frio cortante do lado de fora. Meu farolete cortou a penumbra, revelando um saguão fantasmagórico. Estatuetas de bronze cobertas de teias, um balcão de mármore rachado, cartazes de uma bolsa de valores que não existia mais. O pó era tão espesso que amorteceu o som dos meus passos.
A subida pelos corredores de serviço foi uma escalada através das entranhas da cidade. Os elevadores eram tumbas de latão escuro. Usei as escadas, uma espiral infinita de concreto lascado. Ventos fantasma uivavam nos arredores, trazendo o cheiro salgado do mar distante e algo mais, um toque úmido e doce que não pertencia àquele lugar de pedra seca. A cada pausa para recuperar o fôlego, eu escutava. Nenhum zumbido de drone, apenas o rangido estrutural do prédio, seus ossos se ajustando. Cheguei ao quadragésimo andar, onde uma escada de acesso ao pináculo deveria estar. A porta estava emperrada, a madeira inchada por infiltrações. Forcei com o pé, e ela cedeu com um estalo seco.
O que me atingiu não foi a imagem, mas o aroma. Uma parede de fragrância viva, úmida e complexa, invadiu minhas narinas. Terra molhada, flor, folha apodrecida, vida. Meu farolete tremulou em minha mão quando seu feixe cruzou o vazio do grande átrio central. A luz não encontrou o chão, perdendo-se num véu de umidade. Em vez disso, ela iluminou galhos. Folhas. Uma teia de vegetação que preenchia o espaço, crescendo de sacadas, enrolando-se em colunas, pendendo de claraboias sujas. Uma floresta inteira, suspensa no coração da cidade, respirando seu próprio ar pesado. O drone Cérebro-2 piscava sua luz vermelha silenciosa no meio desse jardim aéreo, preso numa rede de trepadeiras, como uma fruta metálica estranha.
Desci pelo que restava das escadas em caracol, entrando no domínio da floresta. O ar era quente e opressivo. Líquens cobriam as paredes. Pequenos fungos luminosos pontilhavam a escuridão como constelações verdes. Ouvi o respingo de água, um fio d'água caindo de alguma tubatura rompida, alimentando um pequeno charco no centro do que fora o piso do saguão. Ali, sob uma claraboia mais limpa que as outras, estava uma poltrona desbotada. Ao seu lado, numa caixa de ferramentas enferrujada, repousavam cadernos empilhados. Abri o primeiro. A letra era firme, de uma pessoa acostumada a anotar coisas importantes. As datas eram de sessenta anos atrás. "Dia 147 de isolamento. As sementes de samambaia do respiradouro Sul germinaram. A umidade do sistema de ar condiciono está criando seu próprio microclima. Projeto Arca prossegue."
Folheei páginas e páginas. Não era o diário de um louco, mas o relatório meticuloso de um jardineiro, um bioarquiteto. Ele fora o engenheiro-chefe do prédio. Quando o Século foi desocupado, ele simplesmente ficou. E transformou o sistema de ventilação, os tanques de água de emergência e a luz solar filtrada numa incubadora. Aquela floresta não era um acidente. Era uma declaração de guerra silenciosa contra o concreto. Uma última obra. Uma assinatura.
O zumbido chegou então. Sutil, mas errando a frequência natural do lugar. Olhei para cima. Dois drones negros, menores e mais ágeis que o Cérebro-2, haviam penetrado por uma claraboia quebrada. Eles pairaram, scanners vermelhos varrendo a escuridão. A empresa dona do drone proibido, ou talvez o governo. Eles não estavam ali pelo jardim. Estavam ali para apagar, com qualquer evidência. A luz de seus scanners caiu sobre os cadernos em minhas mãos.
Minha jornada sempre fora vertical. Subir, recuperar, descer. Uma função utilitária no organismo da cidade. Naquele momento, olhando para aqueles cadernos, para a floresta suspensa que respirava em torno de mim, percebi a verdadeira geografia do lugar. Eu não estava num prédio abandonado. Estava no coração de um mundo vivo que teimava em existir. Os drones se aproximaram, um som de abelhas metálicas. Peguei minha haste telescópica. Não para recuperar um drone. Para defender uma Arca. A verdadeira caça começava agora, não pelas alturas, mas pela preservação de um segredo que cresceu nas trevas. A cidade lá embaixo nunca saberia. Mas eu saberia. E às vezes, o único mapa que importa é aquele que você decide proteger.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, na metrópole totalmente mapeada, Elias, um "caçador de céu", recupera drones presos em torres. Um trabalho ilegal o leva ao abandonado Edifício Século, onde ele descobre não um drone, mas uma floresta suspensa e autossustentável, um segredo que a cidade engoliu. Agora, perseguido por quem quer explorar ou destruir o achado, Elias precisa decidir nas alturas perigosas se continua um simples catador de lixo tecnológico ou se torna o guardião desse último fragmento de mundo selvagem. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Gostei! Quero uma continuação!
ResponderExcluirÓtimo texto!
ResponderExcluir